Iceage à MHD | “Que é isto no papel?”

Os Iceage não costumam dar entrevistas ou dão-nas contrafeitos. São um monstro da música rock, mas uns monstros nas entrevistas. A MHD enfrentou-os.

É preciso reconhecer que, dos ossos do ofício, dar entrevistas deve ser um dos mais difíceis de roer. Não vale a pena explicar porquê. Se o querem saber, vejam a resposta que Elias Bender Rønnenfelt, dos Iceage, deu a essa pergunta. Nenhum artista as adora, mas consta por aí que aos Iceage tais conversas são-lhes particularmente repugnantes. Não admira que temesse um pouco o encontro, já de si uma graça, fruto da benevolência inesperada da banda em conceder entrevistas durante o ritmo frenético e esgotante de uma digressão.

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Encontrar um momento e um lugar onde poder conversar, entre concertos de cidade em cidade, gente que entra e passa a todo o momento, equipamento empilhado em espaços exíguos e testes de som a todo o vapor, nunca é fácil e exige sempre capacidade de improviso. Mas ter Elias Rønnenfelt à espera, enquanto se procura um sítio no Musicbox onde montar a câmara e o microfone, tê-lo a ir fumar um cigarro lá fora porque nos demoramos, vê-lo desaparecer porque levámos tanto tempo que o melhor é ir fazer outra coisa, é propriamente enervante e finalmente embaraçoso. Ainda assim, tudo vale a pena se a alma não é pequena. Não a minha, mas a de Elias Rønnenfelt. Por detrás da pose rock’ n’ roll, com que ironicamente se diverte e, ao mesmo tempo, afasta intrometidos, o reservado vocalista dos Iceage é um rapaz literato, a quem não falta sensibilidade ou sentido de humor. A prova? É só ver e ouvir.

ICEAGE | VÍDEO DA ENTREVISTA

MHD – Elias, antes de mais (e isto é uma curiosidade minha), porque não gostas de entrevistas?

Elias Rønnenfelt – Bom, isso depende da entrevista. Às vezes, acaba por ser constrangedor, repetitivo e nem todas as pessoas que te entrevistam são igualmente talentosas na arte da conversação e por isso, sim, é uma má experiência. Mas, outras vezes, pode ser útil ao te obrigar a pôr palavras numa coisa em que não pensas, certas coisas que fazes mas não tens de formular por palavras. No seu melhor, pode ajudar-te a perceber porque é que fazes uma coisa.

MHD – Agora, relativamente ao novo álbum, Beyondless, em que se distingue ele dos anteriores discos dos Iceage, em termos de simples novidade ou até mesmo progressão?

Por razões óbvias, de cada vez que fazemos um disco é muito representativo do ponto em que nos encontramos na nossa vida, é muito pessoal e torna-se uma espécie de totem erigido naquele lugar no tempo, do que temos presente na nossa mente, de como vemos a vida. Torna-se um documento do estádio do nosso ser naquele momento. A vida continua e por isso também a música.

MHD – A sonoridade dos Iceage em Beyondless é mais expansiva mas, ao mesmo tempo, mais focada do que antes. Resultado de menos complacência, alguma coisa de que estavam à procura, acaso? 

Eu nunca diria que uma coisa seja desintencional, mas ao longo dos anos vai-se andando em frente e, como compositor, está-se sempre interessado em abranger um certo território. Quando se aterra nesse território, esse novo território passa a estar disponível. Por isso é sempre uma questão de progredir e correr riscos é importante. Se uma coisa parece ter a possibilidade de falhar ou não parece demasiado segura, torna-se atractiva e automaticamente queremo-nos mover nessa direcção.

MHD – Nas letras de Beyondless, pintas um quadro muito sombrio da humanidade. Porquê?

Porque a humanidade é capaz disso, mas não julgo que se pinte um quadro demasiado unívoco de mim ou da humanidade em geral. Há muita coisa sobre delitos e situações mais dolorosas, mas também há lá nostalgia, amor e desejo. Há uma certa palete aí.

Elias Rønnenfelt no Musicbox, 27 de outubro de 2018 (©Ana Viotti)

MHD – Por isso mesmo gostava de te perguntar o que seria “the truest of loves” que mencionas em “Beyondless”. Que não pode ser um analgésico, já sabemos.

Não julgo que haja uma única resposta para isso. Pode ser uma data de coisas. Pode ser permanente, pode ser temporário. O amor pode ser por um momento ou pode ser uma coisa à qual te agarras na vida. Não tenho a certeza de ter uma resposta [ri-se] completamente acabada sobre isso. É uma coisa séria.

MHD – O que significa o refrão de “Under the Sun”? Porque, de facto, em última instância não estamos diante de uma visão assim tão sombria e parece-me haver espaço para uma qualquer forma de redenção.

Não quero roubar nada à percepção que cada um tenha dessa canção. Não posso realmente concretizar mas lembro-me de estar a escrever a letra dessa canção e, às vezes, deixas-te ir, só que os dedos continuam, não sabes exactamente o que se está a passar, dás um passo atrás e “que raios é isto que está no papel?”. Não julgo que alguma vez possa ser capaz de responder a isso completamente mas poderia significar uma data de coisas.

MHD – É verdade que escrever letras ou compor música não é um processo totalmente consciente ou deliberado. Acontece-te sair alguma coisa de ti que te revela qualquer coisa sobre ti?

Completamente. Às vezes, quando escreves em cadernos de notas ou qualquer coisa do género, ao estares num certo estado de ânimo ou algo te levar a pôr uma coisa em palavras, descobres que seja o que for, um sentimento que estejas a tentar retratar fica insuficiente quando posto em palavras, porque um sentimento não é verbal. Por isso, não interessa o que escrevas, nunca será suficiente. E então escreves para o caixote de lixo, não escreves mais, atiras fora e dizes “ok, esta foi uma tentativa falhada”. Mas encontra-lo talvez meses depois, numa lata qualquer, voltas a lê-lo e descobres que havia qualquer coisa que estavas a dizer a ti próprio subconscientemente e de que não te davas conta na altura. Sim, já me aconteceu isso antes. Às vezes escreves qualquer coisa de que não estás consciente, se é que isso faz sentido.

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MHD – Este disco dos Iceage lembrou-me o musical Chicago, na crítica tanto ao crime como à sua justificação teórica, mas também na sonoridade jazística ou em canções como “Showtime”. Houve algum livro ou filme com que convivesses na altura e tivesse passado para as letras?

Antes de mais, não vi o musical Chicago, mas essa canção “Showtime” é sobre o medo musical. Não sei porque saiu assim. Desvia-se das restantes canções do álbum ao se limitar a contar uma história do princípio ao fim, desenhando todo um quadro. Lembro-me de pensar que seria hilariante se a canção fosse apenas sobre uma performance teatral musical, na Broadway ou num sítio assim, prestes a acontecer e, depois, nada se dá. Não resisti a pôr ali um twist final: um tipo acaba consigo mesmo em palco só porque rimava. Quanto ao que estava a ler na altura, não me lembro, mas às vezes, de facto, enquanto escrevia as letras para os outros álbuns que fizemos, tive de procurar inspiração em certos livros ou filmes de uma maneira até directa, mas neste caso saiu tudo com uma forma mais livre. Por isso, não tive realmente tempo para pensar exactamente de onde é que as coisas estavam as coisas. Sim, é informado por milhares de coisas, uma data de influências fora de ti abrem caminho, expandem a tua capacidade para a linguagem e a música nestas coisas. Mas não sou bem capaz de dizer o que veio do quê.

MHD – Sei que gostas de ler. Há assim algum livro de que gostes em particular? Porquê?

Recomendo a peça de teatro Equus, por Peter Shaffer. Lê-la… bom, leiam a peça, não quero tirar nada à história.

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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