Bohemian Rhapsody vs Amadeus – O Poder Dramático da Música

“Bohemian Rhapsody”, apesar de aclamado pelas audiências, é um filme que não conseguiu aquilo que Amadeus de 1984 alcançou: usar o potencial poder dramático da música.

Bohemian Rhapsody” de 2018 foi um dos filmes que mais me desapontou nos últimos tempos. Entrei na sala de cinema (sem informação prévia além do primeiro trailer) com a esperança de que poderia ser uma obra que finalmente nos podia mostrar quem era Freddie Mercury e honrar a sua genialidade. Talvez tenha sido demasiado inocente nas minhas expetativas, mas ao sair da sala não pude deixar de pensar no que poderia ter sido. Além de uma fantástica atuação de Rami Malek (“Mr. Robot”) como Mercury, não há nada de surpreendente neste filme que parece mais interessado em dar-nos a experiência de vermos um concerto dos Queen ao vivo do que em contar-nos uma história profunda e digna do nome de uma das músicas mais marcantes de sempre.

Muitos podem vir a contestar esta minha opinião, dado que as audiências, na sua generalidade, adoraram o filme e este está nomeado para 5 Óscares, incluindo Melhor Filme. No entanto, a crítica parece unânime em declarar que o filme é medíocre. Vários afirmam que a direção de fotografia e a realização são competentes, mas banais, que o diálogo é humorístico, mas superficial, e que as atuações são boas, mas os personagens são ocos. Contudo, a maior ofensa a meu ver e aquela que quero abordar é a seguinte: a música não é usada para aprofundar os personagens nem para reforçar, ou até transmitir, a tensão dramática. Para demonstrar isto, vou comparar “Bohemian Rhapsody” a um filme que também retrata a vida de um génio musical e que acabou por ser nomeado para 11 Óscares, vencendo 8, incluindo Melhor Filme: “Amadeus” (1984) de Milos Forman.

Bohemian Rhapsody vs Amadeus - Salieri
F. Murray Abraham como Antonio Salieri em “Amadeus” (1984)

“Amadeus” retrata a rivalidade e relação entre o compositor italiano Antonio Salieri e o seu ídolo Wolfgang Amadeus Mozart. Recentemente, o filme foi projetado com orquestra ao vivo na Fundação Calouste Gulbenkian. Lá, revi esta obra-prima e redescobri o soberbo uso da música que reforça uma narrativa forte e profunda. Contudo, creio que o momento em que tudo aquilo que o filme nos dá de excelente culmina naquele que é considerado por muitos um dos (senão mesmo o) melhores momentos musicais da história do Cinema: a composição da secção “Confutatis” do Requiem de Mozart. Esta é a cena climática do filme, em que a relação de Salieri e de Mozart é comprimida em 7 minutos. Mas o que faz este momento tão genial e impactante?

A AUTORIDADE DE UM MESTRE

Mal começa esta cena, Forman não esconde o vocabulário musical da audiência. “F major”, “A minor”, “Basses first”, “Common time. Second beat of the first measure”, “G Sharp”, “Ostinato on A”, dita Mozart a Salieri. O austríaco fala com a autoridade de um mestre, de um génio. Ambos conversam na língua que melhor falam, música, mas é Mozart que comanda. Aliás, não são poucos os momentos em que este tem de repetir por Salieri não conseguir acompanhar e, a certo ponto, larga a teoria e canta enquanto gesticula, como se nos estivesse a ditar aquilo que tem na cabeça, e o rival italiano finalmente entende.

Este uso flagrante de termos formais da música também nos desvia a atenção para o elemento em que Forman quer que nos concentremos: o drama. Focamo-nos na rivalidade sobre música retratada pela música.

MÚSICA COMO VEÍCULO DRAMÁTICO

Peter Schaffer, guionista e autor da peça em que se baseia o filme, afirmou no documentário “The Making of Amadeus – Director’s Cut” de 2002 que queria que a música fosse o terceiro protagonista do filme e, de facto, é. Este terceiro personagem não só é o núcleo da relação entre Mozart e Salieri como é o seu veículo. Nesta cena, este princípio desenvolvido ao longo do filme culmina.

Milos Forman consegue este foco total no drama ao não chamar atenção para a câmara e em vez disso ao chamá-la para as atuações de Tom Hulce (Mozart) e F. Murray Abraham (Salieri), de tal modo que a cena foi filmada com duas câmaras simultaneamente (uma em cada ator) de maneira a ganhar uma teatralidade fluída e podemos sentir isso.

A música vem, portanto, concretizar isto em todo o seu potencial. Mozart dita o “Confutatis” separando-o por vozes e instrumentos. Começa com os baixos e Salieri escreve o que lhe é indicado. Vemos apenas o ditado e a conversa entre os dois, Mozart cantando as porções a escrever. Após a primeira sequência escrita, o austríaco pede para ver o resultado, Salieri entrega-lho, inclinando-se sobre a mesa, Mozart lê e é aqui que ouvimos o produto final. Ouvimos apenas os baixos, uma peça da tapeçaria que é “Confutatis”.

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A Favorita, em análise

A cena prossegue com a mesma separação de vozes. A linguagem técnica de Mozart cada vez mais específica e ele aumenta a velocidade, Salieri não consegue acompanhar. “You go too fast!” diz ele. Neste momento, o italiano ainda está focado em derrotar Mozart e a música reflete isso: as vozes estão separadas, a música fragmentada. Ainda não há harmonia entre os dois. No entanto, num momento em que Salieri luta para acompanhar o ditado e para compreender as indicações e métodos do austríaco, exclama frustrado “I don’t understand!” “Listen!” responde-lhe Mozart, começando a cantar a voz e gesticulando. Salieri deixa de tentar lutar e escuta, harmoniza com Mozart e escreve freneticamente. Um canta, o outro escreve até que o próprio Salieri substitui o primeiro e já consegue cantar aquilo que está escrito naquela cabeça genial. Antonio Salieri rende-se ao mestre austríaco e o resultado é brilhante.

Vemos Salieri a esforçar-se para acompanhá-lo, a tentar estar um passo à frente, a falhar e, eventualmente, a render-se ao mestre e, como recompensa, tem a oportunidade de participar nessa mestria por uns momentos. Finalmente, o potencial desta relação manifesta-se e, mal Mozart recebe a partitura para lê-la, ouvimo-lo: “Confutatis” ditado por Wolgang Amadeus Mozart ao seu amigo e rival Antonio Salieri.

Bohemian Rhapsody vs Amadeus - Queen
Rami Malek como Freddie Mercury em “Bohemian Rhapsody” (2018)

“Bohemian Rhapsody” peca a muitos níveis mas a sua falha em aprender e abraçar os mestres do passado é a sua maior. Ninguém exigia a Bryan Singer e companhia que realizassem um filme do calibre de “Amadeus”, mas ao menos que respeitassem a genialidade de Freddie Mercury com uma obra criativa, transformativa e profunda, que pudesse atingir o seu potencial artístico.

Nunca sentimos que o vocalista dos Queen é um génio, pois ele nunca fala como um mestre da sua arte (e ele era!). Na cena que nos mostra a composição da sua obra-prima, “Bohemian Rhapsody”, Mercury não fala com a autoridade de um génio. Aliás o mais perto de vocabulário formal a que o filme se atreve a ir é “Give it more Rockn’ Roll” dito por Freddie ao guitarrista Brian May. Parece que a música lhe sai da cabeça casualmente, sem estrutura, sem harmonia.

Além disto, a música não é usada como veículo para transmitir e/ou intensificar a tensão dramática. Em toda a cena não há drama, estamos apenas a assistir com desinteresse, sem paixão, à criação de uma das maiores obras-primas da música moderna. Como se estivéssemos a ler de um artigo na Wikipédia. Este é o maior pecado de “Bohemian Rhapsody”, tornou Freddie Mercury e a sua música aborrecidos.

“You can do whatever you like with my image, my music, remix it, re-release it, whatever… just never make me boring”

Freddie Mercury, 10 dias antes do seu falecimento.

 

TRAILER | “BOHEMIAN RHAPSODY”

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