Festival de Cannes 2026 | Portugal Entrou Tarde, Mas Entrou com “Aqui”, de Tiago Guedes, Que Já Cheira a Acontecimento
Os complementos à Selecção Oficial do Festival de Cannes 2026 trouxeram 16 novos títulos, entre eles o muito aguardado “Aqui”, do realizador português Tiago Guedes, na Cannes Première. James Gray sobe à Competição, Judith Godrèche entra em Un Certain Regard, Diego Luna aparece nas Sessões Especiais e a Croisette compõe, já tarde, uma fotografia mais completa.
O Festival de Cannes adora fazer isto: anuncia a Selecção Oficial com pose solene, deixa metade do mundo a fingir que está tranquila e depois volta, dias mais tarde, com um pacote de “complementos”, como quem diz: afinal ainda havia mais louça fina na cozinha, não pusemo-la foi na mesa. A boa notícia, desta vez, é que nesses acertos de última hora apareceu finalmente uma longa-metragem portuguesa. “Aqui”, de Tiago Guedes, integra a secção Cannes Première, fora de competição, na leva de 16 novos títulos anunciados nesta quarta-feira, 22 de Abril, já noite dentro.
A boa notícia chegou mais tarde
Não, não entra na corrida à Palma de Ouro de 2026. Não, não está na Competição Oficial. Mas também não é um lugar decorativo para cinema de segunda linha. A Cannes Première é uma montra oficial relevante e, para um cinema português que, na primeira fotografia da selecção, tinha ficado sem uma longa-metragem na mesa principal, a entrada de “Aqui” vale muito. Vale presença, visibilidade e, sobretudo, um lugar numa secção onde o festival costuma arrumar obras de autor com peso específico.

O filme de Tiago Guedes chega com matéria suficiente para justificar atenção séria. É uma adaptação da “Trilogia de Jesus”, do Nobel sul-africano J. M. Coetzee, foi rodado entre Espanha e Portugal, é falado em castelhano e tem no elenco Manolo Solo, Patricia López Arnaiz, Álex Peláez e Hugo Encuentra. A história passa-se num lugar onde todos recomeçam sem passado e acompanha Simón, um homem que assume a responsabilidade por uma criança chamada David e parte à procura da mãe, tentando inventar uma ideia de família num mundo que prefere impor regras a compreender a diferença. A sessão está marcada para 18 de Maio, na sala Debussy, com presença anunciada de Tiago Guedes, dos actores, do produtor Paulo Branco e do próprio Coetzee.
Os outros reforços na Croisette
Mas estes complementos não servem apenas para nos pôr a bandeira ao ombro. Servem também para perceber melhor como Cannes acabou de afinar a sua grelha. A Competição recebeu um reforço de peso com “Paper Tiger”, de James Gray, o novo thriller familiar do realizador nova-iorquino, com Scarlett Johansson, Adam Driver e Miles Teller. Era um dos títulos mais falados dos últimos dias e acabou por confirmar presença na corrida à Palma, numa escolha que dá à edição um suplemento imediato de prestígio americano adulto, coisa cada vez mais rara num cinema dos EUA frequentemente dividido entre super-heróis em piloto automático e independência em regime de terapia.

Em Un Certain Regard, o festival acrescentou “Victorian Psycho”, de Zachary Wigon, “Mémoire de Fille”, estreia na longa-metragem da actriz Judith Godrèche a partir de Annie Ernaux, “Titanic Ocean”, primeira obra da grega Konstantina Kotzamani, e “Ulysse”, de Laetitia Masson, que servirá de filme de encerramento da secção. É um lote curioso: mistura prestígio literário, pulsão de cinema de género e aquele gosto típico de Cannes por primeiras obras que querem provar, logo à entrada, que não vieram ao mundo para passar despercebidas.
Já na Cannes Première, “Aqui” não está propriamente mal acompanhado. Entram também “The End of It”, primeira longa de Maria Martinez Bayona, “Marie Madeleine”, de Gessica Généus, “Mariage au goût d’orange”, de Christophe Honoré, e “Si tu penses bien”, de Géraldine Nakache. Ou seja: Tiago Guedes surge num corredor onde coexistem estreia, assinatura e cinema francês com pedigree, o que ajuda a perceber que esta não é uma colocação protocolar para fazer um favor a Portugal, mas uma arrumação bem pensada dentro da lógica do festival para esta 79.ª edição.
Portugal, desta vez, não ficou na berma
As Sessões Especiais também ganharam músculo com “Printemps”, de Rostislav Kirpičenko, “Ceniza en la Boca”, do actor-realizador mexicano Diego Luna, “Tangles”, longa de animação de Leah Nelson, “Le Triangle d’Or”, de Hélène Rosselet-Ruiz, e o documentário “Groundswell”, de Joshua e Rebecca Tickell. E a chamada Sessão Familiar recebeu “Lucy Lost”, uma animação de Olivier Clert. Não é a zona onde se decide o destino da cinefilia mundial, mas é aquela parte da programação que lembra que Cannes também gosta de mostrar amplitude, abrir o leque e fingir, por uns dias, que consegue ser simultaneamente templo, feira, laboratório e montra para toda a família, algo que me recorde é a primeira vez que aparece esta secção .
No caso português, a moral da história é simples. Teria sido mais forte ver uma longa nossa logo no primeiro anúncio? Claro que sim. Mas também é verdade que “Aqui” não chega pela porta do fundo. Tiago Guedes regressa a Cannes depois de “Restos do Vento” ter passado pela Selecção Oficial em 2022, e volta aos grandes festivais depois da presença de “A Herdade” em competição em Veneza, em 2019. Há trajecto, há ambição, há matéria literária forte e há Paulo Branco, que continua a saber como pôr filmes portugueses — ou co-produções internacionais com participação portuguesa, neste caso através da sua produtora francesa Alfama Films — a circular no espaço europeu com uma teimosia que, em Portugal, às vezes é confundida com feitiçaria.

Resumindo, a Selecção Oficial do Festival de Cannes 2026 ficou mais completa, mais variada e, vá, um pouco mais suportável para o nosso ego nacional. James Gray leva star power e densidade à Competição, Godrèche reforça o lado autobiográfico e literário de Un Certain Regard, Diego Luna aparece para alargar o mapa das Sessões Especiais e Tiago Guedes garante que Portugal, desta vez, não fica só a ver a passadeira vermelha da berma. Chegámos tarde, sim. Mas desta vez chegámos com filme, com nome e com lugar marcado.
JVM

