"A Herdade" | © Leopardo Filmes

A Herdade, em análise

A Herdade”, realizado por Tiago Guedes e produzido por Paulo Branco, competiu em Veneza e agora chega aos cinemas portugueses. Este é também o filme que representará o nosso país na corrida para os Óscares de 2020.

Cerca de uma hora depois de ter começado, “A Herdade” apresenta-nos uma estrondosa sequência filmada num só take, cheio de movimentos de câmara bailarina e gestualidade coreografada. Trata-se da festa de copo d’água da filha mais nova de um antigo diretor da PIDE. O marido é um conde cujo título pode não significar muito num Portugal pós-monárquico, mas tem cachê social muito apreciado pelas novas classes altas do Estado Novo. Todo o evento é uma faustosa celebração de uma era com os pés na cova, pois o fim destas elites precipita-se com o chegar da alvorada. Trata-se da noite de 24 de abril e, ao voltar para casa, os convidados já ouvem a “Grândola Vila Morena” na rádio. A revolução está a chegar.

Tanto muda como fica na mesma. Contudo, para estes parasitas privilegiados que fizeram a vida à custa do sofrimento e opressão de tantos outros, tudo vai ficar mais complicado. Tiago Guedes pode não ter nem os meios nem o primor de Luchino Visconti, mas este seu copo d’água filmado com um só take recorda muito o baile climático de “O Leopardo”. Na verdade, toda “A Herdade” funciona como uma espécie de “O Leopardo” à portuguesa, contando também ela a história de um homem rico, dono de terras ancestrais, que é forçosamente confrontado com a sua obsolescência devido ao passar dos anos e ao sentido progressista da História.

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Se bem que o príncipe interpretado por Burt Lancaster sabia quando estava derrotado e quando o seu tempo tinha chegado ao fim. O protagonista de “A Herdade” não possui tal sabedoria. Em parte, isso deve-se à imagem que João Fernandes parece ter de si mesmo, ele que é um profissional na arte de mentir a si próprio. Ao longo dessa sequência de festa, acompanhamo-lo pelo espaço cheio de oficiais bem-trajados e políticos de copo na mão. Na sua face está sempre uma expressão de escárnio por todos os que o rodeiam, incluindo sua esposa, Leonor, a irmã mais velha da noiva. Ele despreza esta gente e sente-se superior a elas, João até confronta um agente governamental que ousou ameaçá-lo a ele e ao seu motorista comunista.

No entanto, ele é tão ou mais parasítico que as pessoas que ele despreza. É certo que há uma certa nobreza nas suas ações, no modo como ele não impõe nenhuma ideologia política às pessoas que contrata e rejeita a tirania ditatorial do Estado Novo. Só que essas ações em nada se devem a qualquer sentimento justiceiro, sendo mais a arrogância de um homem que se julga rei de si mesmo e daqueles que dependem do seu gesto magnânimo para ganhar a vida. Ele tanto defende comunistas da PIDE como almoça com um padre que acha que Salazar devia ser canonizado. Ele é machista e cruel, trai a mulher e humilha constantemente o filho que cometeu o pecado capital de ser fraco aos olhos do pai.

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Para João, não há grande diferença entre os fascistas e os democratas que tomam o poder depois do 25 de abril. Qualquer pessoa que lhe queira dar ordens é inimigo e ele é sempre um herói mal-entendido que lutou e trabalhou por tudo o que tem. Pelo menos, é isso que ele pensa, mantendo-se a si mesmo ignorante para com o modo como toda a sua fortuna foi construída sobre as costas suadas de agricultores que ainda olham para ele como se de um senhor feudal se tratasse. “A Herdade” relata-nos a vida dele de 1946 a 1991 e assim nos conta a História de Portugal que se vai desenrolando às margens da existência deste homem que de herói tem muito pouco.

Não obstante essa falta de heroísmo, ele é o centro deste épico histórico, cuja iconografia vem do western e cujo ritmo parece emular um cortejo fúnebre. Tudo começa com um prólogo em que João, ainda menino, é obrigado pelo pai a ver o cadáver do seu irmão mais velho e mais fraco. A primeira imagem do filme é mesmo a paisagem da grande propriedade à margem sul do Tejo, uma enorme vastidão cujo horizonte é cortado pela silhueta de uma árvore com um corpo enforcado a pender dos seus ramos. Confrontado com esse horror, o menino foge para um ilhéu cheio de ruínas, mas, no futuro, cometerá os mesmos erros que o seu pai já exibia para com o filho. Os males de uma geração passam para a seguinte, quer seja um pai tirano que faz do filho outro pai tirano ou o abuso de um patriarca que quebra os filhos e os predestina a um fado desgraçado.

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“A Herdade” começa com esse prólogo que estabelece os temas principais, depois salta para os anos 70, durante os últimos meses da ditadura. O copo d’água num só take funciona como ponto de viragem, sendo que depois vive-se o rescaldo da revolução. Ao mesmo tempo que nasce um novo Portugal, perde-se também uma vida e cai a tragédia sobre a família de João. O terceiro ato ocorre em 1991, quando os ciclos de pais e filhos a destruírem-se uns aos outros se repete, desta vez com um toque reminiscente das intrigas de Eça de Queirós. Tanto o filme recorda os romances desse autor oitocentista que quase parece ser uma adaptação literária, apesar de ter origem num argumento original de Guedes, Rui Cardoso Martins e Gilles Taurand.

Infelizmente, este épico lusitano não chega aos calcanhares das muitas obras-primas literárias e cinematográficas que evoca. Há algo de demasiado perfuntório na sua execução, por muito virtuosa que seja. As imagens são belíssimas, as composições precisas e o elenco é uniformemente soberbo, com especial destaque para Albano Jerónimo e Sandra Faleiro como João e Leonor. Ao nível de técnica, é difícil criticar “A Herdade” a não ser quando se refere ao seu ritmo glacial. Os problemas são mais tonais, refletindo uma certa autoimportância pomposa. Ver “A Herdade” é como ler um daqueles clássicos maçudos que nos obrigam a estudar na escola. Reconhecemos valor na experiência e na obra, mas é difícil apreciar a grandeza de algo que anuncia de forma tão enfática a sua própria qualidade e valor, sua respeitabilidade e dimensão de épico histórico. Saudamos o esforço dos cineastas e admitimos que o filme não deixa de nos emocionar, mas também não o podemos aplaudir com o vigor que a própria “Herdade” parece exigir ao seu espectador.

A Herdade, em análise
a herdade

Movie title: A Herdade

Date published: 19 de September de 2019

Director(s): Tiago Guedes

Actor(s): Albano Jerónimo, Sandra Faleiro, Miguel Borges, Ana Vilela da Costa, João Vicente, João Pedro Mamede, Rodrigo Tomás, Beatriz Brás, Diogo Dória, Ana Bustorff, Victoria Guerra, Filipe Vargas, Luís Garcia, Teresa Madruga, Cândido Ferreira, Catarina Rôlo Salgueiro, João Arrais, Jorge Loureiro, Álvaro Correia, David Esteves, Frederico Serpa

Genre: Drama, 2019, 166 min

  • Cláudio Alves - 75
  • José Vieira Mendes - 70
  • Daniel Rodrigues - 55
67

CONCLUSÃO:

“A Herdade” é um filme que conquista o nosso respeito, mas não coração. Ao estilo de grandes épicos históricos de outrora e muitos clássicos do cinema e literatura portuguesa, o filme de Tiago Guedes usa um melodrama intergeracional para contar a história de uma nação a ser esculpida pelo passar do tempo e novas eras de progresso e revolução.

O MELHOR: Hoje em dia, raro é o filme que conta a sua história através de imagens, da composição e disposição dos atores em cena. “A Herdade” está sempre a exibir essa mestria de encenação, muito ajudada pela fotografia de João Lança Morais.

O PIOR: O filme é comprido demais. O seu terceiro ato só chega quando já passaram quase duas horas e parece um acrescento que devia ter sido deixado na mesa de montagem. Além disso, os efeitos de envelhecimento (e falta deles) nos atores principais são tão maus que quase caem no precipício do humor acidental.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

2 thoughts on “A Herdade, em análise

  • Uma soberba análise

    Excelente análise de Claúdio Alves a um filme que vi ontem e do qual saí ao fim de uma hora e 55 minutos, quando estaria a começar o tal terceiro acto porventura desnecessário. Concordo inteiramente que o filme é demasiado longo. A fotografia muito boa, tal como a imensidão da planície alentejana.

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  • Um bom filme, mas...

    Este filme a Herdade, sofre de um problema crónico à grande maioria dos filmes portugueses. Cenas muito longas e uma dificuldade quase permanente em perceber o que dizem os actores. E estes dois problemas deviam ser encarados de frente pelos realizadores que, como tantos outros, desejam muito colher uma opinião favorável de quem vê o filme. As paisagens de fundo são de óptima qualidade, tal como a fotografia e não podemos deixar de realçar o excelente trabalho de todos os actores em cena. Quanto à história em si, interessante, tem contudo algumas lacunas de continuidade, que dificultam o entendimento do enredo. Mas devo dizer que vi o filme até ao fim, com muitos momentos de agrado, embora também pense que o tempo é demasiado para contar uma história que se devia basear mais na acção e menos na durabilidade das cenas. Tirando estes apontamentos que devem ser feitos, a história é envolvente, conseguindo despertar algum sentimento de raiva, contra dois pais que criaram os filhos à margem do amor e do afecto, com os resultados que todos apreciamos.

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