"Ciclo Interrompido" | © Eurimages

Cannes em Casa | Ciclo Interrompido

No primeiro dia em que passaram títulos em competição no Festival de Cannes, o novo filme de Felix van Groeningen teve a sua estreia. Enquanto esperamos que “Le otto montagne” chegue aos cinemas portugueses, contentamo-nos em explorar a obra passada do cineasta. “Ciclo Interrompido,” também conhecido como “The Broken Circle Breakdown,” catapultou o seu realizador para a fama internacional e abriu-lhe as portas de Hollywood.

Elise e Didier apaixonam-se num daqueles sobressaltos do amor à primeira vista. Apesar de grandes diferenças no modo como encaram a vida e a fé, os dois encaixam um no outro como peças de um puzzle. Quiçá aquilo que realmente lhes garante a compatibilidade é a semelhança de interesses – ambos adoram cultura Americana, especialmente música bluegrass. Quando o conhecemos, em 1999, Didier toca banjo numa banda local enquanto Elisa é tatuadora. Contudo, a proximidade, a paixão, leva-a a tentar ser cantora, juntando-se à banda do amado enquanto vocalista.

Forjado na flor da juventude e do desejo, o laço destes dois é tão forte quanto terno. O matrimónio é inevitável e depois disso vem a altura de ter filhos. Contudo, o nascimento de uma menina traz consigo uma série de problemas. Há aqueles dilemas comuns de pais que aprendem a ser pais, mas também se verificam cismas no modo como cada um quer criar a filha. Não que isso importe muito, não quando uma tragédia se abate sobre a família. Apenas na meninice, a pequena Maybelle tem cancro e, aos seis anos, está às portas da morte.

cannes ciclo interrompido
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Muito se fala em “feel good movies,” mas este deve ser o raro exemplo de um “feel bad movie.”  Adaptando uma peça de Johan Heldenbergh e Mieke Dobbels, Groeningen não poupa no melodrama, esfregando a cara do espetador nas muitas gradações de sofrimento parental. Inevitavelmente, o matrimónio tão belo que vimos florescer, começa a ruir. Pequenas rachas se formam aqui e ali, até que todo o edifício da relação não é mais que um monte de escombros em chamas. É algo penoso de testemunhar, mas não por isso menos real ou menos dramático.

Em suma, temos aqui uma história relativamente simples com conclusões previsíveis e um tom de crescente desespero. O que dá uma certa singularidade a este “Ciclo Interrompiso” é precisamente a forma cíclica que os cineastas lhe impuseram. De forma geral, o maior problema na filmografia de Felix van Groeningen é um certo apego a repetições dramatúrgicas, assim levadas ao extremo da redundância. Isso é tão verdade na sua oeuvre europeia como no caso de “Beautiful Boy,” estreia do realizador no panorama da indústria Americana.

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Só que, aqui, o esquema tem uma certa lógica e elegância. Ao invés de ser guiado por causa-efeito, o texto rege-se pela ordem da emoção forte, uma lógica sentimental que tanto reflete o espírito das personagens como a sua música. De facto, as repetições do enredo parecem quase o refrão dos números musicais cantados por Elise. Também as colisões de felicidade, presente, passado e futuro, formam uma espécie de esquema rítmico. Quebrando a linearidade cronológica da história, “Ciclo Interrompido” alterna entre o nascer e o morrer da relação – um hino fúnebre em ritmos bluegrass.

A montagem de Nico Leunen canta a sua própria canção, usando cenas enquanto letra, sentimentalidades extremadas enquanto notas. A isso se alia uma banda-sonora excelente de Bjorn Eriksson e a fotografia intimista de Ruben Impens. Em termos formalistas, “Ciclo Interrompido” não é especialmente arrojado, seguindo os ditames do realismo Europeu pós-Dardenne, mas a inclusão de iconografia Americana e a centralidade musical conferem-lhe especificidade. Dito isso, onde a fita realmente brilha é no trabalho de ator.

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Interpretados por Veerle Baetens e Johan Heidenbergh, Elise e Didier são duas impressionantes criações. Tal como toda a pessoa, a sua multidimensionalidade implica a auto contradição, acentuada aqui pelos saltos temporais. Nunca sentimos que a fita puxa pela aliança do espetador com um deles, nem mesmo quando as discussões começam, pois esta não é uma história de heróis e vilões. No contexto da mortalidade infantil, do flagelo do cancro, não existem tais lógicas e restam as crenças pessoais de cada um para encontrar um caminho aberto nesse caos.

Especial admiração tem que ser prestada a Baetens, que aqui constrói uma fascinante interseção entre sexualidade e devoção maternal, o fulgor do palco e a corrosão de uma intimidade outrora preciosa. Em 2013, “Ciclo Interrompido” foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme Internacional, representando a Bélgica na corrida ao galardão. Contudo, basta ver a fita para nos apercebermos que quiçá também Baetens merecia um lugar na competição para Melhor Atriz. Pelo menos, nos European Film Awards, fez-se justiça e a atriz levou para casa um troféu em honra deste desempenho, o tipo de criação titânica que marca uma carreira.

“Ciclo Interrompido” está disponível em streaming através da FILMIN. Também podes alugar o filme com a MEO. Alternativamente, a obra também está disponível em DVD, editado pela Legendmain.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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