"Mortos, Vivos, Câmara, Ação!" | © Panpokopina

Cannes em Casa | Mortos, Vivos, Câmara, Ação!

O ano passado, fizemos uma série de artigos para aqueles leitores que seguem o Festival de Cannes, mas, infelizmente, não podem participar diretamente nas festividades. Assim se propõe uma espécie de programa paralelo, feito em casa, com base nos principais títulos em competição, seus autores e origens. Para começar, temos “Mortos, Vivos, Câmaras, Ação!,” o filme japonês cujo remake gálico serviu como fita de abertura para o 75º Festival de Cannes.

“Coupez!” do Oscarizado Michel Hazanavicius foi exibido na Croisette como abertura para uma nova edição de festividades cinematográficas. Apesar dos aplausos em sala, a reação crítica não foi totalmente positiva. De forma geral, os jornalistas internacionais concluíram que o esforço tem resultados medianos, certamente aquém da qualidade da fita nipónica que lhe deu origem, em parte porque segue uma via muito mais cínica. Pelo menos, essa é uma das frases recorrentes nas críticas mais negativas. Só esperamos que tais conclusões não afetem a reputação do original.

Remakes malsucedidos ora realçam as qualidades do primeiro filme ou servem como repelente para potenciais audiências. Esta segunda hipótese é mais certa quando o remake se afirma como a alternativa mainstream e ocidental a um projeto independente asiático. Enfim, se tal fado se abater sobre “Mortos, Vivos, Câmara, Ação!” de Shin’ichirô Ueda, tratar-se-á de uma triste tragédia. Acontece que o filme, também conhecido como “One Cut of the Dead” e “Kamera o tomeru na!,” é uma gema de terror em baixo orçamento, assim como uma carta de amor ao cinema em si.

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Infelizmente, para se entender as qualidades singulares do filme, há que cair no território do SPOILER. Contudo, visto como muito do prazer nesta experiência devém da surpresa, aconselhamos o leitor a ver primeiro o filme e só depois continuar o texto. “Mortos, Vivos, Câmara, Ação!” orienta-se por uma estrutura bem definida de três atos, cada um delineado em torno de uma metamorfose. Por outras palavras, estamos perante uma obra em constante transformação, cada novo desenvolvimento mais curioso que o outro.

Rodado na forma de um estonteante plano-sequência com quase 40 minutos de duração, o primeiro ato podia ser uma curta-metragem por si só. Neste capítulo inicial, acompanhamos as filmagens de um filme de zombies chamado “One Cut of the Dead,” lideradas por um realizador que, no píncaro do desespero, se virou para o oculto como receita para o sucesso. Ao invés de confiar na ilusão de monstros do além, ele faz um rito de sangue para invocar genuínas criaturas. A base militar abandonada passa de plateau a palco da chacina, mas as câmaras nunca param de rodar.

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Trata-se de um belo exemplo de metacinema, um filme sobre um filme que serve de homenagem àqueles projetos de série-B cheios de sangue e vísceras. Também é uma interseção de registos técnicos, adotando o mecanismo ambicioso do plano-sequência ao mesmo tempo que emprega um registo low-fi, com má qualidade de imagem e erros deliberados. Qualquer amante deste tipo de terror irá ficar extasiado com tamanha homenagem, uma carta de amor e canção de adoração em jeito de pastiche precisa e perfeitamente imperfeita.

Só que, chegado o segundo ato, percebemos que longe de estarmos perante um filme sobre um filme, vemos um filme sobre um filme sobre um filme. É uma verdadeira Matrioska cinematográfica que nunca para de entreter. O mais singelo dos três capítulos, este terço do meio considera os artistas que fizeram aquela curta em plano-sequência. São eles uma equipa que trabalha para a televisão japonesa e quer fazer um espetacular evento ao vivo, uma narrativa rodada ao mesmo tempo que é disseminada pela TV.

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Por aqui conhecemos estes criativos, seus dramas pessoais e o modo como estão interligados com o lavoro cinematográfico. Somos levados à ligação emocional com o seu sucesso, mesmo que saibamos que tudo correrá bem pois já vimos o produto final. Contudo, não vimos o por trás das cenas, o verdadeiro esforço e artilharia de um plano-sequência com tamanha complicação. Esse é o terceiro ato de “Mortos, Vivos, Câmara, Ação!” quando voltamos à história inicial através de uma nova perspetiva. Aqui sim, o filme atinge o seu apogeu cómico, mas também triunfa pelo sentimento.

Se nunca te sentiste emocionado com a façanha de um movimento de grua improvisada, então prepara-te para nova experiência. No caos controlado dos bastidores, reencontramos as imagens daqueles 37 minutos como um incrível esforço de equipa. Aí, o filme torna-se num exercício em suspense distinto – já não se luta pela sobrevivência, mas sim pelo take. Também aqui se revela a grande e valiosa lição de “Mortos, Vivos, Câmara, Ação!” – o cinema, enquanto arte, representa um gesto coletivo e seu triunfo é a colaboração. Entre risadas e ansiedades, entre os dilemas de atores bêbados e realizadores atirados para a frente da câmara, Shin’ichirô Ueda criou um objeto de inspiração para todo o cinéfilo que se preze. Uma salva

Podes ver “Mortos, Vivos, Câmara, Ação!,” alugando o filme no Spamflix.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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