Castlevania

Castlevania, série completa em análise

“Castlevania” evoluiu de uma das séries de jogos de mais sucesso da Konami, para uma das melhores séries televisivas de animação da Netflix. O romance épico do conde Drácula, ambientado na eterna luta entre as trevas, protagonizada neste caso pelo clã Belmont, atinge na série “Castlevania” mais uma adaptação imperdível e memorável. 

Diz a superstição, e a própria experiência, que adaptações de vídeo jogos estão condenadas ao falhanço, mas será que isso se aplica mais ao cinema e não tanto às séries de televisão?

“Castlevania” começou por ser uma série de jogos eletrónicos desenvolvidos pela Konami, com o primeiro titulo lançado em 1986. O castelo medieval Castlevania, propriedade de Vlad Drakul, o Empalador, dá o ambiente à história dos jogos, que segue a missão dos caçadores de vampiros do clã Belmont, de eliminar a ameaça de Drácula a cada vez que ele renasce. Acrobacias com o chicote sagrado Vampire Killer, granadas de água benta, estacas de madeira e habilidades mágicas são exemplos de ação com que os jogadores podiam contar. Com o tempo a série recebeu a produção de mais de duas dezenas de jogos para além de spin-offs, conversões e adaptações em comic books, tornando a série numa das mais famosas e com mais vendas na história da empresa.

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A ideia para a adaptação para o ecrã surgiu em 2005, com Kevin Kolde como produtor, juntamente com a sua empresa Project 51, e posteriormente pelos Frederator Studios. Em 2007, Warren Ellis foi adicionado à equipa ficando encarregue do argumento. O projeto estava planeado para uma longa-metragem, mas entrou numa estagnação de produção até 2015, quando Adi Shankar apareceu e a produção passou a estar nas mãos da Netflix. A partir daí o processo começou a fluir, a Powerhouse Animation Studios juntou-se à equipa e a produção arrancou.

Tirando inspiração do trabalho de arte de Ayami Kojima em “Castlevania: Symphony of the Night”, optando-se por um estilo artístico fortemente influenciado por animes japoneses (que viria a abrir tópicos de discussão sobre o que é e não é anime e sobre uma fusão entre animação ocidental e oriental), e finalmente reunindo-se um elenco de luxo, a série de animação para adultos estreou na Netflix a 7 de julho de 2017 e foi um sucesso imediato.

Castlevania
Castlevania ©Netflix

“There are no innocents! Not anymore!”

Após uma curtíssima temporada de apenas 4 episódios (23 minutos por episódio), “Castlevania”, entrou para os tops de melhores animações desse ano e permanece nos melhores originais de animação da Netflix, ao lado de séries como “BoJack Horseman”, “Voltron: Legendary Defender”, “Aggretsuko” e “Love, Death & Robots”. A série foi imediatamente renovada para uma 2ª temporada, aquando da estreia da 1ª, saindo o dobro dos episódios em 2018. Em 2020, a Netflix deu luz verde para uma 3ª temporada composta por 10 episódios e a 13 de Maio de 2021, tal como anunciado, estreou a 4ª e última temporada da série, concluindo a história de Trevor Belmont, Sypha Belnades e Alucard.

A série de animação de vampiros arrecadou 2 prémios em 2018: um IGN Award para Melhor Série Animada e um BTVA Award, com Graham McTavish, para Melhor Dobragem Masculina; e em 2019 ganhou um Golden Trailer Award para Melhor Poster.

A realização teve participações de Adam Deats e Spencer Wan, mas foi Sam Deats como realizador principal da série que mais surpreendeu pela positiva. Apesar disso, uma significante responsabilidade pelo impacto impressionante de “Castlevania” deve-se sem dúvida ao criador e argumentista da série Warren Ellis, que já tinha demonstrado os seus dotes de escritor em “Iron Man 3”, “Red” e “Red 2” e nas minisséries de anime da Marvel – “Wolverine”, “Blade”, “Iron Man” e “X-Men”.

Castlevania
Castlevania ©Netflix

“I am Trevor Belmont and I’ve never lost a fight to man nor beast.”

Um outro trunfo da série foi o impressionante casting para a dobragem das personagens. Temos estrelas como Richard Armitage no papel de Trevor Belmont, James Callis como Alucard, Alejandra Reynoso a interpretar Sypha Belnades, Theo James como Hector, Adetokumboh M’Cormack como Isaac, Jaime Murray no papel de Carmilla, Matt Frewer a dar voz a The Bishop, Emily Swallow na dobragem de Lisa Tepes e Graham McTavish como Dracula.

De uma forma geral a história foca-se mais em Trevor, Sypha e Alucard, mas um dos pontos fortes da série é o tempo de antena e o desenvolvimento que permite a um tão grande leque de personagens. Cada personagem tem as suas ambições e os seus problemas e, enquanto vemos Drácula a tentar cumprir a sua vingança, seguimos mais tarde a ascensão da vampira Carmilla, em que cada uma das suas companheiras tem oportunidade de mostrar a sua personalidade – serão estes verdadeiramente os vilões da série? Existe um vilão de facto? Ou só o descobrimos mesmo no final? Hector e Isaac, os vassalos humanos de Drácula, seguem caminhos completamente diferentes, para depois se virem a cruzar no fim, cada um representando uma faceta do anti-herói. Saint Germain, interpretado por Bill Nighy, dentro de tantas figuras particulares consegue ser uma das personagens mais peculiares, cuja relevância do papel se está longe de adivinhar ao início. No final, podemos afirmar que “Castlevania” é uma série muito rica em histórias paralelas e em personagens cativantes.

Castlevania
Castlevania ©Netflix

“We know the stories, but sometimes it’s hard to separate fact from truth.”

Da tentativa fiel de adaptação do “Drácula de Bram Stoker” no filme de 1992 com Gary Oldman, à “A História Desconhecida de Drácula” em 2014 ou a reimaginação do Conde na série de 2020 da BBC/Netflix, o retrato do rei dos vampiros de “Castlevania” com Graham McTavish é digno de ser não só recordado, mas tem o estatuto necessário para virar culto.

De todos os pontos positivos que se podem atribuir à série, se tivesse que ser dada uma coroa esta iria para a animação. É logico que a série só funciona por ter todos os elementos bem oleados, mas é inegável o trabalho brilhante da Powerhouse Animation Studios. Do contraste de cores, às personagens pormenorizadas, os movimentos fluidos e as lutas hipnotizantes – “Castlevania” é uma série de animação que realmente ganha e se destaca por ser animada. O estilo adaptado de anime mais ocidentalizado e a violência explícita e o gore são as joias centrais deste tipo de arte animada. Meramente pelo facto de ser do mesmo departamento de animação, “Blood of Zeus” é uma série que vale a pena ser vista por quem realmente se deliciou com este tipo de animação.

A adaptação do título da Konami é bastante completa, sobressaindo-se em praticamente todos os campos. Narrativa, animação e elenco estão soberbos como já referido, mas também é preciso deixar uma palavra em relação ao produtor e compositor musical, Trevor Morris. O sinergismo da banda sonora de Morris permite uma maior imersão da audiência e realça as emoções dos acontecimentos, desde as cenas de suspense até ao estímulo nas cenas de ação.

Em cada temporada o ritmo da narrativa funciona como um crescendo e, ao género de “Game of Thrones” o pináculo atinge-se nos últimos episódios. Desta forma destacam-se como os melhores episódios de cada temporada: 1ª temporada, episódio 4 (season finale) – “Monument”; 2ª temporada, episódio 6 – “The River”; 3ª temporada, episódio 9 (penultimate) – “The Harvest”: 4ª temporada, episódio 9 (penultimate), e possivelmente o melhor episódio de toda a série, sendo mesmo uma masterpiece – “The Endings”.

Castlevania
Castlevania ©Netflix

“And so here I am. Choosing to honor my mother by killing my father.”

É difícil encontrar defeitos significantes em “Castlevania” ou apontar contras relevantes que mancharam a experiência ao viver a série. Um dos maiores “problemas” é o desejo constante no final de cada temporada de se querer sempre mais conteúdo deste universo. Poderá haver quem aponte um ritmo inconstante da narrativa – começando por vezes lentamente e acelerando de repente, mas é uma clara manobra propositada para criar tensão. Um dos pilares do título é a ação e a grande violência explícita, que para os mais moderados poderá parecer excessiva mas, mais uma vez, é algo que faz parte do espirito da série e o qual para a maioria será um pró e não um contra.

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“Killing you was the point. Living through it was just a luxury.”

“Castlevania” encerra um ciclo em alta, merecendo a entrada no hall of fame das melhores produções da Netflix e das melhores séries de animação de sempre. No horizonte ficam desejos, rumores e ideias para spin-offs que só podemos esperar que venham a ser cumpridos no futuro, com a obrigatoriedade da qualidade ser mantida.

Castlevania, série completa em análise
Castlevania

Name: Castlevania

Description: Inspirado nos clássicos jogos de vídeo da Konami, "Castlevania" segue a luta do clã caçador de vampiros Belmont para defender uma cidade sitiada por um exércitos de feras malignas controladas pelo próprio Drácula.

  • Emanuel Candeias - 97
97

CONCLUSÃO

“Castlevania” evoluiu de uma das séries de jogos de mais sucesso da Konami, para uma das melhores séries televisivas de animação da Netflix. O romance épico do conde Drácula, ambientado na eterna luta entre as trevas, protagonizada neste caso pelo clã Belmont, atinge na série “Castlevania” mais uma adaptação imperdível e memorável.

Pros

  • Animação ao mais alto nível
  • Excelente elenco de vozes
  • Classificação +18 permite uma linguagem adulta e cenas explícitas
  • Narrativa sólida com principio, meio e fim
  • Binge-worthy

Cons

  • O desejo insaciável de querermos mais episódios
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Emanuel Candeias

Graduado em Hogwarts, foi head-boy de Ravenclaw. Aventurou-se durante uns tempos pela Middle-Earth e por Westeros, tendo feito grandes amizades na House Stark e com os elfos de Lothlórien. De forma a aprofundar os seus conhecimentos contactou grandes mentes como Doctor Banner, Doctor Strange e chegou mesmo a viajar com Doctor Who. Dedicou-se durante uma temporada a fortalecer a sua espiritualidade em Konoha, onde aprendeu com os mestres Goku e Naruto. Neste momento encontra-se perdido no Matrix. O seu sonho é vir a ingressar na Starfleet.

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