Ciclo Kenji Mizoguchi | Programação Completa

Nove obras raras do mestre cineasta japonês Kenji Mizoguchi vão ser exibidas num ciclo especial do Espaço Nimas a decorrer em abril e maio.

 

ciclo kenji mizoguchi

 

Juntamente com Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi é considerado como um dos três grandes mestres da era doirada do cinema japonês. Durante os anos 20, ainda no tempo do cinema mudo, Mizoguchi começou o seu percurso cinematográfico e, pelo fim da década, já era um dos cineastas mais importantes do Japão. Infelizmente, muitos dos seus filmes deste período foram perdidos, mas o mesmo não acontece com as suas grandes obras-primas dos anos 30, uma época em que Mizoguchi, mais do que qualquer outro cineasta seu compatriota, documentou a realidade de um Japão em transição, do tradicionalismo ainda preso a ideologias feudais, a uma sociedade moderna.

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Nessa conturbada década, assim como nos anos 40, Mizoguchi veio a aperfeiçoar as suas técnicas, tendo sido um dos pioneiros do uso de enormes profundidades focais, ainda antes de Orson Welles utilizar o mesmo mecanismo em O Mundo A Seus Pés. O grande enfant terrible do cinema americano foi mesmo um dos grandes fãs de Mizoguchi, juntamente com uma série de outros célebres cineastas, entre os quais se podem contar Jean-Luc Godard, Andrei Tarkovsky, Jacques Rivette e o próprio Akira Kurosawa. O seu uso de cuidados travellings horizontais a emular o movimento das pinturas japonesas em rolo é particularmente característico, levando muitos a apontar para o seu estilo como o mais japonês dos mestres do cinema pós-guerra, ainda mais que os dramas ao nível do tatami de Ozu e que os épicos de samurais apimentados com imagéticas do western assinados por Kurosawa.

 

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O CONTO DOS CRISÂNTEMOS TARDIOS (1939)

 

Foi precisamente durante o período pós-guerra, que englobou o estrito controlo americano sobre a produção cinematográfica do Japão, que Mizoguchi realmente floresceu e ganhou renome internacional, em parte graças à aclamação dos críticos franceses, em parte graças à magistral qualidade dos seus trabalhos. O modo como Mizoguchi utilizava o passado histórico do seu país para construir dilacerantes críticas sociais é particularmente notável, especialmente quando se tratam de explorações sobre a condição feminina na sociedade patriarcal nipónica. Devido a uma conturbada história de vida, que incluiu o testemunho da violência doméstica sofrida pela sua mãe e a venda da sua adorada irmã que se tornou gueixa, Kenji Mizoguchi é considerado por muitos académicos como um dos pioneiros do cinema feminista, ao lado da realizadora francesa Germaine Dulac.

 

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CONTOS DA LUA VAGA (1953)

 

Com tudo isto em consideração, a Leopardo Filmes e a Medeia Filmes organizaram um Ciclo em honra da obra de Kenji Mizoguchi. Ao todo, serão exibidos nove filmes em abril e maio no Espaço Nimas, sendo que os primeiros começarão a ser passados dia 13 do próximo mês. As obras inaugurais do ciclo são Contos da Lua Vaga (1953) e A Mulher de Quem se Fala (1954). Nomeado a um óscar pelos seus figurinos e premiado com o Leão de Prata do Festival de Veneza, o primeiro destes filmes é um dos trabalhos mais famosos e aclamados do realizador, apesar de ser uma anomalia no contexto da sua filmografia devido a temáticas fantasiosas tiradas diretamente do folclore e das histórias de fantasmas japonesas. Para além disso, é um dos poucos filmes do realizador com protagonistas masculinos, mesmo que as suas esposas sofredoras sejam as grandes figuras da narrativa. De modo parecido, A Mulher de Quem Se Fala, utiliza a relação de duas mulheres, a dona de uma casa de gueixas e a sua filha, com um interesse amoroso masculino para tecer mais um astuto comentário social integrado num elegante drama humano.

 

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OS AMANTES CRUCIFICADOS (1954)

 

Outra das grandes e célebres obras-primas de Mizoguchi a serem exibidas neste ciclo é Os Amantes Crucificados (1954), uma emocionante, mas nunca sentimental, tragédia de amor adúltero em colisão com uma sociedade seiscentista de valores fossilizados e leis perigosamente desumanas. Pelo seu lado, A Festa de Gion (1953) é outro drama protagonizado por gueixas, desta vez situado especificamente nos duros anos que se seguiram à 2ª Guerra Mundial. Outro filme do ciclo será A Senhora Oyu (1951), uma adaptação literária de considerável prestígio sobre a paixão que uma viúva nutre pelo noivo da sua irmã mais nova.

 

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A IMPERATRIZ YANG KWEI FEI (1955)

 

Situado na antiguidade chinesa e não no passado feudal do Japão, A Imperatriz Yang Kwei Fei (1955) foi o primeiro filme a cores de Kenji Mizoguchi (ele apenas realizaria dois antes de morrer). O filme é um esplendoroso festim visual que conta também com uma vulcânica prestação de Machiko Kyô no papel principal. Ainda mais formalmente espetacular e emocionalmente devastador é O Intendente Sansho (1954) que foi premiado no festival de Veneza. Passada no Japão medieval, esta obra representa uma odisseia de sofrimentos inimagináveis capazes de fazer chorar as pedras da calçada, que, no entanto, nunca cai em qualquer tipo de melodrama ou facilitismo dramático. É provavelmente o filme mais cruel de Mizoguchi, mas é também, possivelmente, o seu melhor.

 

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RUA DA VERGONHA (1956)

 

Os restantes dois títulos do ciclo são bastante importantes. Rua da Vergonha (1956) foi o último filme que Kenji Mizoguchi realizou antes de morrer aos 58 anos e é talvez o sue mais gritante ataque provocatório aos valores patriarcais da sociedade japonesa da sua época. Despido de figurinos de época e cenários luxuosos, este drama moderno retrata a vida de uma série de prostitutas , humanizando-as e demonstrando as suas mágoas enquanto vítimas de inúmeras injustiças sociais. O outro filme é O Conto dos Crisântemos Tardios (1939), a grande obra-prima de Mizoguchi antes do advento da 2ª Guerra Mundial que é também um dos melhores filmes alguma vez feitos sobre o teatro e a vida daqueles que dedicam a vida a essa arte.

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Em suma, para qualquer cinéfilo que se preze, este ciclo será uma deliciosa oportunidade para explorar a oeuvre de um dos maiores génios que a sétima arte já teve no grande ecrã. Para fãs do cinema japonês, sua complicada história e reflexão política, temos aqui um evento absolutamente obrigatório. Se estiveres já interessado, neste poster do ciclo, podes já ver a calendarização completa das exibições. Não percas!

 

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Para saberes mais informações sobre este ciclo, não deixes de visitar o site da Medeia Filmes.



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