"Colectiv" | © HBO Europe

Colectiv, em análise | Melhor Filme Internacional

Colectiv” documenta uma horrenda história real de injustiças sistemáticas e corrupção governamental. Este documentário é o representante da Roménia na corrida para os Óscares e foi nomeado em duas categorias – Melhor Longa-Metragem Documental e Melhor Filme Internacional.

Em Outubro de 2015, um incêndio deflagrou no clube noturno Colectiv, na capital romena de Bucareste. O incidente ocorreu durante um concerto, pelo que o recinto estava cheio de pessoas. 27 morreram nessa noite e 180 ficaram gravemente feridos. Muito do desastre poderia ter sido evitado se mais restritas medidas de segurança estivessem em efeito, nomeadamente saídas de emergências acessíveis e bem sinalizadas. Por isso mesmo, o caso provocou grande polémica, com várias falhas de inspeção e teias de corrupção a serem desvendadas por investigadores.

Apesar de tudo isso, talvez a maior polémica do incêndio no Colectiv tenha sido o que aconteceu aos 180 feridos. Nos meses que se seguiram ao horror do fogo, 37 pessoas morreram em hospitais que não estavam preparados para o cuidado de vítimas com queimaduras graves. A negligência médica que foi revelada indignou muitos e ainda mais ultrajante foram as condições insalubres que se descobriram. Algumas das vítimas mortais, tinham vermes a cresceram nas feridas e ninguém para os ajudar nos últimos dias de sofrimento.

colectiv critica oscares
© HBO Europe

Face à reação pública, o governo formado pelo Partido Social Democrático da Roménia demitiu-se, mas, mesmo assim, as descobertas de falhas sistémicas continuaram a abalar o país. É esse o caso que o realizador Alexander Nanau imortaliza neste documentário produzido pela HBO Europe, construindo o filme como um ensaio jornalístico que segue tanto a imprensa como os políticos que tentam fazer sentido de tudo o que aconteceu. “Colectiv” é tanto uma reflexão como um acompanhamento da ação em tempo real, um lamento fúnebre e um febril conto de ímpeto jornalístico.

Este balanço tonal marca presença desde os primeiros momentos do filme. Tudo começa com o luto de pais que perderam os filhos, suas palavras de dor seguidas por um espetáculo aterrorizante. Sem poupar o coração do espetador, Nanau inclui vídeos gravados durante o incêndio, filmagens do inferno de chamas acompanhadas pelos gritos daqueles que foram encurraladas no seu calor. Este momento é tão visceral que todo o filme é assombrado pela sua intensidade. Mesmo quando tudo o que testemunhamos são discussões em escritórios, os ecos daqueles gritos ainda reverberam nos ouvidos.

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De certa forma, o que Nanau aqui apresenta é uma dupla história, os políticos que tentam resolver o sistema e os jornalistas que procuram a verdade. Estes interesses intercetam-se e vemos como as mesmas figuras tanto emergem como heróis e como adversários, oponentes e aliados também. A certa altura, face a tudo o que tem vindo ao de cima, um jovem político sobrecarregado com as responsabilidades de outros reflete sobre o estado da nação. Nas suas palavras, o sistema de saúde, obcecado em cortar custos, sem fundos do governo e manchado por monumental corrupção, está podre. Por debaixo de uma fachada de funcionalidade, só se vê degredo.

Muito mérito tem que ser dado à montagem astuta que nos vai levando de fação para fação e sempre regressa ao suplício daqueles que perderam entes queridos e autonomia física, vítimas do fogo e da incompetência médica. Não que Nanau corte a trama de modo a conceber um thriller, mas que ele sabe como negociar o nervosismo da história real com as necessidades do espetador. Por muita informação que ele descarregue na audiência, “Colectiv” nunca aborrece ou entorpece. Estamos sempre presos ao ecrã, mesmo quem já sabe o desfecho de tudo.

colectiv critica oscares
© HBO Europe

Na corda bamba entre o entretenimento e o ativismo, “Colectiv” assim se afirma como um dos melhores filmes dos últimos anos, uma obra que é tão importante quanto é artisticamente meritosa. No paradigma em que nos encontramos, suas considerações sobre sistemas de saúde são especialmente urgentes, tal como é a vontade de rejeitar apatia política. Graças ao seu trabalho, Nanau conseguiu levar o filme aos Óscares. Trata-se do primeiro filme romeno a alcançar tal feito. Quem sabe? Talvez “Colectiv” até consiga sair da cerimónia de 25 de Abril com uma estatueta doirada. Não seria uma honra despropositada.

Colectiv, em análise
colectiv critica oscares

Movie title: Colectiv

Date published: 6 de March de 2021

Director(s): Alexander Nanau

Genre: Documentário, Drama, 2019, 109 min

  • Cláudio Alves - 90
  • José Vieira Mendes - 80
85

CONCLUSÃO:

“Colectiv” é um dos melhores documentários dos últimos anos, detalhando um escândalo e suas consequências com grande precisão. As permutações políticas nunca são descuradas e o mesmo ocorre com o custo humano da desgraça. Em termos de cinema jornalístico, “Colectiv” é praticamente insuperável.

O MELHOR: O início inesquecível, a ferocidade do discurso político subjacente ao filme, a serenidade melancólica de uma sessão fotográfica.

O PIOR: O final deixa muitas avenidas de pensamento sem aparente resolução. Isto pode frustrar muitos espetadores, apesar de ser uma boa reflecção de como este caso continua a desenvolver-se na Roménia atual.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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