Kevin McNally em "Piratas das Caraíbas: Homens Mortos Não Contam Histórias" (2017) |©Walt Disney Pictures

Comic Con Portugal 2019 | À conversa com o pirata Kevin McNally

A Comic Con Portugal recebeu em 2019 Kevin McNally, um ator britânico com uma longa carreira, transversal ao teatro, cinema e televisão. Trabalhou em ambos os lados do Atlântico, mas ficou especialmente conhecido pela sua personagem Joshamee Gibbs, uma das poucas que aparecem em todos os filmes da saga “Piratas das Caraíbas”. Estivemos à conversa com este pirata no segundo dia da Comic Con Portugal, e trazemos agora os destaques dessa conversa. 

Nos bastidores da sala de imprensa

Kevin McNally
Kevin McNally| ©MHD (Foto: Maggie Silva)

Encontrámos em Kevin um bem-disposto convidado, acabadinho de chegar de terras de nossa majestade, e que ainda não tinha tido oportunidade de visitar a capital desde a sua chegada. Era esta a sua primeira visita a terras lusitanas.

Quando lhe propusemos um desafio: encontrar uma história engraçada das gravações dos Piratas das Caraíbas que não conte muito por norma, McNally riu-se um pouco e adiantou que conta ” todas as suas histórias, a toda a hora”. Diz que a experiência se resume a um aspecto central, acima de tudo, ao maravilhoso setting do qual os atores desfrutaram. As filmagens na Austrália, no Hawaii, são as localizações e a vivência destes momentos que para o ator tornam “Piratas das Caraíbas” tão especial.

Kevin McNally participou em inúmeras séries de televisão, tendo uma longuíssima carreira que vai muito além do seu famoso pirata. Perguntámos ao ator qual a série que mais impacto tinha tido na sua carreira, e qual o conteúdo que era o seu predilecto. Não hesitou nem precisou de pensar muito, relembrando a sua série predilecta da AMC – “Breaking Bad”. A qual para o ator simboliza uma revolução e uma mudança estrutural na própria indústria televisiva. Uma porta para a segunda “golden age” da televisão. Indica, inclusive, que este conteúdo foi tão estrutural que passado pouco tempo acabou por desempenhar, também ele, um papel numa série do canal – “Turn”.

Kevin McNally in TURN (2014)
Kevin McNally em “Turn” (2014)|©AMC

Continuámos no reino da televisão, neste caso abordando o papel que o ator teve na mini-série “Wuthering Heights” (2009), um conteúdo no qual desempenhou o papel de Mr.Earnshaw, numa adaptação na qual Tom Hardy deu vida ao famoso anti-herói. O ator admitiu nunca ter lido o livro, mas confessa-nos que esta foi uma experiência bastante valiosa, pois foi possível expor uma porção diferente da história, menos abordada no pequeno ou grande ecrã.

McNally participou assim numa adaptação deste enorme clássico, e ainda nas séries “Downton Abbey” e futuramente em “The Crown”. Assim, perguntámos ao ator se era fã de filmes e séries históricas, por ter já um longo historial de participação nas mesmas. Aparentemente, não existe uma apreciação particular por dramas históricos, especialmente contemporâneos, por existir uma preocupação imensa com a factualidade, o que acaba por retirar alguma liberdade ao trabalho do ator. Por outro lado, o ator reconhece que esse é um treino competente, no que diz respeito a disciplina no método de trabalho do interprete.

Conferência de Imprensa nas Caraíbas 

Kevin McNally na sala de conferências
Kevin McNally na sala de conferências| ©MHD (Foto: Maggie Silva)

Antes de termos dados dois dedos de conversa, estivemos ainda presentes na conferência de imprensa de Kevin McNally, onde muitas das perguntas se focaram no fenómeno dos “Piratas das Caraíbas”.

A primeira pergunta colocada remetia para questionar o ator sobre como foi a experiência de trabalhar com Geoffrey Rush. O ator respondeu que foi maravilhoso, e que não trocaria por nada esta experiência. Valoriza, acima de tudo, os primeiros três filmes, pois foi utilizado muito menos CGI do que nos capítulos que se sucederam. “Era tudo real”, diz o ator entusiasmado. As gravações, decorrentes na Austrália, foram o ponto alto deste capítulo da sua vida.

E qual a inspiração para dar vida ao pirata Gibbs? “Encontrei a inspiração no fundo de uma garrafa”, avança McNally. O ator diz que representou piratas toda a vida, e que foi fácil encontrar o tom certo para encarnar Gibbs. Sobre o processo de casting, admite que nunca chegou a ter que fazer testes de câmara, teve apenas um casting, claramente bem-sucedido, após o qual ficou com o papel. Na audição, diz que lhe pediram para contar uma história sobre tartarugas. E atenção, tudo isto no seu aniversário.

O ator estava convencido a não comparecer a esta audição, estava até ligeiramente alcoolizado. Estava nesta fase a tentar arranjar papeis em Hollywood, e um pouco saturado com a constante rejeição. Parece que esta foi a aposta acertada.

Entre os seus imensos créditos, foi destaca uma participação de quatro episódios em “Dr. Who”, no longínquo ano de 1984. A questão do jornalista: que antiga série britânica é que Kevin considera merecer uma nova vaga de popularidade? Pegando, claro, no exemplo de “Dr. Who”. O ator considera que as comédias dos anos 50 e 60 mereciam particularmente um regresso à forma e à popularidade. Comédias com temas fortes, como sexualidade ou identidade de género, com uma construção que segundo o ator não é para nós agora “palpável”. Nas suas palavras, estas mereciam um tributo.

Quanto ao seu maior desafio enquanto ator, este volta-se para aquele que parece ser o seu meio predileto, o teatro. Diz que o maior desafio foi mesmo representar “King Lear”, um “Everest de papel”. Um papel já interpretado por muitos, mas que nunca deixa de ser um enorme desafio.

Ainda quando a dificuldades, destaca que no teatro é a intencionalidade em si que pode ser um desafio, enquanto que no cinema e televisão, as grandes dificuldades centram-se maioritariamente nas cenas mais físicas. Especialmente para um “old character actor like me”. “Character Actor” é um termo sem correspondência em português, que remete para um ator que tenha trabalhado muito, com papéis marcantes mas totalmente distintos entre si. Um ator que é mais associado aos seus papéis do que pelo peso do seu nome. Alguém que interpreta pequenos personagens marcantes.

Regressando aos Piratas, e à fisicalidade envolvida, o ator diz que o seu duplo na saga é maravilhoso, e que de qualquer das formas os produtores não acham muita piada a que faça as suas próprias cenas de acção. Por isso limita-se a “beber rum, pois não me aleijo se cair.” 

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Um jornalista ingrato, e quem sabe astuto, pediu a McNally para traçar uma retrospetiva da sua carreira até agora. Longa, é a palavra que vem à sua mente. E sente-se grato, acima de tudo, por trabalhar a toda a hora, numa imensa variedade de projetos que o mantêm interessado.

Quanto ao seu primeiro papel, foi numa peça da escola. A sua mãe tanto apreciou a interpretação, que depois da peça deu-lhe um livro de banda desenhada e uma barra de chocolate. O primeiro passo para a vida enquanto ator? Diz ainda que, depois de contar esta história à companhia com a qual estava a representar King Lear, o grupo ofereceu-lhe a mesma prenda quando terminaram as suas exibições.

O seu primeiro grande papel no cinema foi num filme do James Bond, acabado de sair da Escola de Teatro, apenas com 20 anos. O ator diz ter ficado nas nuvens, devido a esta participação em “The Spy Who Loved Me” (1977).

Quanto ao futuro, parece sorridente. Está a gravar “The Crown” e em breve estará no pequeno ecrã, a contracenar com Hellen Mirren em “Catherine, the Great“. E estará a escrita ou realização no seu futuro? O ator diz já ter escrito para televisão, bem como uma peça e um filme, mas ninguém adaptou nenhum dos seus conteúdos. Quanto a ser realizador, diz haver muitos realizadores maus, e deixa esse trabalho para quem de direito é mais competente para o fazer.

Falou ainda da sua experiência a dobrar jogos, algo muito comum na carreira de um ator no século XXI. Gostou particularmente de fazer a voz em “Assassin’s Creed” e teria todo o prazer em dobrar um jogo situado na segunda guerra mundial.

Comic Con Portugal Kevin McNally in Pirates of the Caribbean- The Curse of the Black Pearl (2003) (1)
Kevin McNally em “Piratas das Caraíbas – A Maldição do Pérola Negra” (2003) |©Walt Disney Pictures

Falou ainda sobre dar voz ao seu personagem, Gibbs, nos jogos dos “Piratas das Caraíbas”. Inicialmente, outro ator começou a fazer a voz nos jogos, e McNally admite ter sentido algum inesperado sentido de propriedade, que o levou a reclamar a tarefa de dobrar os jogos para si mesmo. Conta alegremente que ligou a Steve Blum, o ator que dava voz a Gibbs até então, dizendo “Se alguma vez fazes de mim novamente, mato-te.” E não é que McNally passou a dar voz aos jogos?

Questionado sobre a possibilidade de participar no enorme conglomerado Disney, ou num filme de super-heróis, não exclui a hipótese até porque diz que estes são ordenados a não descartar. Contudo, reforça que hoje em dia, os grandes filmes de estúdio são pouco divertidos de se filmar devido à presença de muitos efeitos especiais, que resultam em contracenar com green screens.

Por fim, destacou ainda o seu amor por ficção científica, e que inclusive escreveu um livro dentro do género. Valoriza uma vez mais o seu estatuto de “character actor”, alguém sem rótulos, que não se fixa a um tipo de papel, sempre disponível para novas, distintas aventuras.

Foi um prazer privar com Kevin McNally, e só podemos esperar que um dia esteja de regresso à Comic Con Portugal! 

Maggie Silva

Licenciatura e Mestrado em Ciências da Comunicação na vertente de Cinema e Televisão pela FCSH-UNL, porque à segunda é de vez. Dependente de cultura pop e cinema indie. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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