Simon Scarrow e acompanhante na Comic Con Portugal 2019 | ©MHD (Foto: Maggie Silva)

Comic Con Portugal 2019: À Conversa com Simon Scarrow

No âmbito da Comic Con Portugal 2019, que decorreu entre 12 e 15 de setembro,  a Saída de Emergência trouxe a Portugal um dos seus autores mais editados, Simon Scarrow. Estivemos com o escritor britânico e trazemos-vos os destaques desta agradável conversa. 

Simon Scarrow é um prolífico escritor, apaixonado pela sua actividade, que escreve pelo menos dois livros por ano, tal como nos confirma o próprio. Estivemos à conversa com Simon, essencialmente acerca da sua longa série de romances históricos, centrada no período romano.

Um entrevistado simpático e descontraído, começou por confessar-nos, num recanto perto da zona de autógrafos da Comic Con Portugal, à Magazine.HD e ao Café Mais Geek, que partilhou connosco esta oportunidade de conversa, que está neste momento a acabar mais um livro, e que já está inclusive atrasado no que diz respeito a essa tarefa. Como bom inglês que é, aproveitou para reforçar a sua apreciação pelo calor abrasador que enfrentávamos no passado fim de semana.

O longo processo criativo 

Under the Eagle comic con portugal 2019
“Under the Eagle” foi o primeiro livro da saga sobre o império romano de Simon Scarrow |©Headline Publishing Group

Começou a conversa na Comic Con Portugal com uma citação de um dos seus autores de referência, Stephen King, também ele um prolífico escritor, que em termos afirmou: “Writing is an affliction“. É uma tormenta, uma necessidade, um desejo incontornável. Para o autor britânico, escrever dois livros por ano não é nada senão natural. Aliás, Simon reconhece que se sente bastante desconfortável e até aborrecido quando não se encontra no processo de escrever um livro.

Para o escritor, criar um novo projecto é motivo para entusiasmo, mas todo o processo necessário para o fazer chegar às bancas é deveras aborrecido. Uma das suas partes favoritas é a pesquisa bibliográfica, completamente imprescindível e central no caso de um romance histórico. De acordo com o autor, esta parte acaba, por vezes, por mudar todo o projecto.

Falou-se muito, ao longo desta entrevista, dos seus dois personagens mais famosos, retirados da saga “Under the Eagle”, a qual segue uma narrativa localizada no decurso do Império Romano. São estes dois célebres personagens Prefect Cato and Centurion Macro, dois ferozes guerreiros imortalizados por esta saga bem-sucedida. Cato é, segundo o autor, um personagem mais rígido e académico, e Macro tem uma atitude mais descontraída. Para Scarrow, eles são dois lados de uma mesma moeda, complementando-se.

As histórias da História 

Scarrow é um verdadeiro apaixonado por história, e recusa o favoritismo de qualquer época histórica, escolhendo interpretar a História, com “H” grande, como um contínuo. Fascinado pelas suas implicações sociais e políticas, o escritor é alguém com quem mantemos uma conversa bastante interessante e relevante, acima de tudo, tendo em conta as suas fortes opiniões em muitas temáticas. Defende que as suas obras são sobre história num todo, não sobre períodos históricos em específico. Reforça ainda que o período dos Romanos, com os seus Imperadores, tem ainda muitos ecos aplicáveis à realidade do mundo actual.

Assim, teria interesse em escrever sobre qualquer período histórico, mas destaca que certos momentos no tempo são mais “comerciais” do que outros. Destaca, por exemplo, um interesse em escrever sobre os primórdios do socialismo em Inglaterra, no rescaldo da guerra civil inglesa, quando houve alguns ecos de interesse, por parte de alguns grupos, na construção de uma sociedade comunista, algo que não seria bem aceite por uma maioria política. É uma história sobre os idealistas da História. Contudo, o autor reconhece o tema como potencialmente pouco lucrativo.

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Entusiasticamente, confessa-nos que é na realidade histórica que se encontra as boas histórias. Lamenta ainda a forma como a disciplina é organizada nos currículos escolares, mediante interesses distintos, e com uma certa “agenda” sempre em mente, a limitar as amarras da História.

Reforça um facto que é sempre importante. A História ensina-nos lições, lições importantes que os nossos políticos parecem ignorar. Quando a repetirmos os mesmos erros de forma cíclica, Simon não concorda inteiramente. Considera que a história tem certos padrões identificáveis, mas que não é possível unificá-la ao ponto de afirmar que se repete.

Inspiração de uma carreira 

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The Eagle of the Ninth de Rosemary Sutcliff | ©Oxford University Press

Quando questionado sobre qual a maior fonte de inspiração literário, a obra que mais o fez querer escrever, o autor não hesita em nomear a obra “The Eagle of the Ninth”, de Rosemary Sutcliff. É esta uma história situada nas terras de sua majestade durante a época romana. O protagonista é um jovem oficial romano, que procura descobrir a verdade que se esconde por detrás do desaparecimento da nona legião, que desapareceu no norte da bretanha. É este um romance infanto-juvenil, publicado em 1954, pela Oxford University Press. Foi o primeiro livro de uma saga composta por oito.

A obra foi adaptada à rádio, pela BBC, transformada numa mini-série em 1977, e, mais recentemente, em 2011, inspirou o filme ” A Águia”, protagonizado por Channing Tatum e Jamie Bell. E, pelo caminho, influenciou a própria saga deste escritor.

A sua “Saga da Águia”, como é intitulada em português, conta já com 17 capítulos (!!), 17 livros, uma história construída ao longo de muitos anos. Para o autor, tudo o que é necessário é um problema central, um problema à volta do qual toda a narrativa vai sendo lentamente construída.

O autor recordou outro momento formativo na sua carreira, o momento em que ouviu uma palestra de um estudioso francês, que estudava precisamente a revolução francesa. Quando questionado sobre o impacto da revolução francesa sobre os eventos atuais, políticos e sociais, o historiador respondeu: “é demasiado cedo para dizer”. Assim, Simon Scarrow parece concordar com esta “tese”, defendendo que este foi talvez o evento mais importante dos últimos 200 anos, tendo moldado a idade moderna como a conhecemos.

A Mulher na literatura e a originalidade na ficção 

Florence Pugh
Florence Pugh em “Lady MacBeth” | ©Protagonist Pictures

Falaram-se ainda de outros períodos, nomeadamente dos Egípcios e de Cleopatra. O autor denunciou um pensamento misógino oposto a esta figura, por ser uma mulher que toma controlo da situação. Compara-a ainda a Lady MacBeth em Inglaterra, uma personagem fora da caixa, fora do seu papel feminino, que ousou sair dessa mesma “caixa”, reforçando que foi isso que a tornou problemática. O escapar ao seu suposto papel social.

Questionado sobre como é escrever a partir da perspectiva feminina, o autor fala dos perigos da apropriação. Diz também que não é o mesmo que escrever do ponto de vista de um homem. Já o ousou, e considera que existe uma espécie de responsabilidade e sensibilidade acrescida, a de jogar com a culpa que frequentemente assola a figura feminina.

O autor lamenta ainda a falta de criatividade, e especialmente de criação de conteúdo original que existe no entretenimento atual. Destaca o monopólio aparente da Marvel, reforçando que existem outros conteúdos ligados à banda desenhada muito mais originais, como por exemplo “Watchmen“, e diversas sagas britânicas.

A adaptação da sua saga e a escrita de literatura infanto-juvenil 

O autor tem neste momento um projecto especialmente entusiasmante em curso. A sua “Eagle Series” vai ser adaptada à televisão, num formato de mini-série. Com 4 horas dedicadas a cada livro, podemos prever muitas horas de televisão de qualidade pela frente.

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Questionado acerca da experiência que teve, a de escrever alguns romances infanto-juvenis, diz ter adaptado o discurso imaginando que estava a falar com os seus filhos, o que acaba por tornar a adequação bastante mais fácil e natural, pois reconhece que é um desafio, e uma responsabilidade enorme, escrever para um público mais jovem. De acordo com o autor, é uma experiência positiva escrever livros direcionados a um público infanto-juvenil, pois existe bastante liberdade para criação de mundos – para a criação de “fully realized worlds”.

Uma conversa na Comic Con Portugal que tocou imensos tópicos, passando por política, história, literatura e tantos outros. Resta atacar todos os livros desta saga e descobrir ou redescobrir o trabalho de Simon Scarrow! 

Maggie Silva

Licenciatura e Mestrado em Ciências da Comunicação na vertente de Cinema e Televisão pela FCSH-UNL, porque à segunda é de vez. Dependente de cultura pop e cinema indie. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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