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Confessa, Fletch, em análise

Jon Hamm da vida a Irwin M. Fletcher em “Confessa, Fletch”, a nova adaptação da clássica obra de Gregory McDonald!

CINCO ESTRELAS, NEM POR ISSO. MAS QUE VALE A PENA, VALE…!

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Confessa, Fletch
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Por uma questão de princípio, na minha actividade de crítico de cinema nunca procurei ansiosamente a informação, mais ou menos privilegiada, que os departamentos de marketing, tanto das pequenas como das grandes distribuidoras, disponibilizam galhardamente a quem não se importa de se encostar ao legítimo mister de vender o pó da calçada como se fosse ouro. Na verdade, o erro não se deve atribuir aos profissionais do marketing por fazerem o que lhes compete fazer, mas sim aos que deviam ser independentes mas acabam por ser os elos mais fracos de uma corrente de comunicação que obviamente não dominam e onde, por sinal, são os mais mal pagos. De igual modo, não consulto muito as críticas nem outras actividades literárias ou audiovisuais sobre estas ou aquelas produções cinematográficas. Em suma, numa primeira fase, recolho a informação básica – produção, realização, elenco, sinopse, data de visionamento (quando previsto), duração, data de estreia, entre outros dados que julgo relevantes. E só depois do visionamento me debruço na pesquisa mais apurada e pormenorizada das obras em causa. E mesmo assim só daquelas que, na minha escala da análise concreta dos valores de produção concretos, classifico com duas estrelas ou mais, ou seja, 40 na classificação numérica usada pela MHD. Pessoalmente, não me dá qualquer gozo bater num filme que não recomendo a ninguém. Excepção feita aos filmes que ainda não foram produzidos e já estão a ser vendidos como o próximo grande sucesso. Por exemplo, um entre muitos outros, a saga da Guerra das Estrelas e seus apêndices no pequeno e grande ecrã. E para que não fiquem a pensar que não gosto dos “produtos” galácticos, digo-vos que George Lucas merecia ser recordado nos confins do universo como o autor mais visionário da História do Cinema (enfim, já lá vão umas décadas e, mesmo sem realizar, continua a dar cartas na grande indústria americana, fama e proveito que faz inveja a qualquer mortal). Bom, vem esta introdução a propósito da estreia em Portugal, pela mão da distribuidora NOS AUDIOVISUAIS, do filme CONFESS, FLETCH (CONFESSA, FLETCH), 2022, realizado por Greg Mottola. Confessa ele, ou não confessa (e já lá vamos), e confesso eu, que não estava nada convencido de ir ver uma obra muito bem estruturada como a que acabei por descobrir no visionamento de imprensa da passada segunda-feira, 31 de Outubro, ou seja, ensanduichado entre um fim-de-semana e um feriado. Estavam na sala quatro gatos pingados, só machos, e nem uma gatinha para dar colorido ao ambiente. Entretanto, antes da sessão, pensei cá para mim, “hummm, provavelmente não dão muito pelo filme”. Diga-se, posição mais do que legítima se fosse a do distribuidor e exibidor. Mas, como andei anos a programar e comprar cinema na RTP, gerei uma espécie de intuição que me dizia, “hummm, não será uma obra-prima, mas no final das contas até pode valer a pena passar aqui os 98 minutos que dura esta comédia e não dar por mal empregue a deslocação ao Alvaláxia num dia que no calendário dá para fazer ponte e o clima sombrio convida a ficar mais umas horas na cama”. E assim foi. Entrei com a sensação e saí com a certeza de estar perante um filme capaz de cumprir os mínimos, porque em boa verdade não quer ser outra coisa além de um divertimento, com um argumento mordaz, mesmo cínico em relação a certas figuras do quotidiano da classe média alta americana e da classe média, com pretensões aristocráticas, de uma Itália que cheira a mofo e a vigarice pegada. Para além do mais, no elenco encontramos nomes injustamente relegados para um segundo plano, de entre os quais se destaca o actor protagonista (que aqui assina igualmente na qualidade de produtor), o MAD MEN Jon Hamm, perfeitamente integrado no papel de uma personagem plena de ambiguidade cuja presença/ausência faz movimentar a narrativa em diversas e por vezes contraditórias direcções. O argumento de CONFESSA, FLETCH, escrito por Zev Borow e Greg Mottola, foi baseado numa série de romances muito populares de Gregory McDonald. No passado, foram já objecto de adaptações ao cinema: FLETCH (ASSASSINATO POR ENCOMENDA), 1985, e FLETCH LIVES (FLETCH, O HERDEIRO), 1989, ambos dirigidos por Michael Ritchie e protagonizados por Chevy Chase. Mas nada a ver com este que agora estreia. De facto, o problema da actual produção americana reside em grande parte na dificuldade de qualquer filme que não cheire a pipocas e super-heróis, sobretudo da MARVEL, ser encarado como um activo seguro. Nos dias que correm, uma comédia ligeira, ou sobretudo mais sofisticada, passa por ser um OVNI, uma ave rara que os estúdios já não conseguem ou, pura e simplesmente, não sabem capitalizar no outrora fértil e lucrativo circuito comercial. Há quem não queira sequer dar espaço para que filmes alternativos respirem, lançando-os, como foi o caso deste, para o streaming depois de uma breve presença em sala, onde foi esmagado pelos Whooosh e Vroooms dos filmes de acção pela acção, orientados para adolescentes pouco exigentes, não só os verdadeiros como os outros que ficam eternamente alapados ao espírito Teen. Finalmente, no caso presente, o facto de ser produzido pela MIRAMAX não terá ajudado muito ao seu lançamento, sobretudo nos EUA, porque há quem confunda casos judiciais e as suas justas consequências com as marcas a que algumas figuras, realmente condenáveis, estão associadas. Não raras vezes, lançam sobre as empresas que os prevaricadores fundaram um estigma que, francamente, não faz sentido nenhum alimentar. Se as coisas fossem cristalinas como as águas de alguns resorts do Pacífico, nunca poderíamos dar cinco estrelas ao TRIUMPH DES WILLENS (O TRIUNFO DA VONTADE), 1935, realizado por Leni Riefensthal, um dos expoentes máximos da ideologia nazi, documentário orquestrado para dar corpo e alma a uma obra de grande impacto cinematográfico, que visava muito para além da própria noção de puro cinema.

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Regressemos a CONFESS, FLETCH para dar conta daquilo que nele podem desfrutar. De início vemos Irwin “Fletch” Fletcher, ou seja, Jon Hamm, a entrar num apartamento de luxo para pouco depois encontrar o cadáver de uma mulher jovem no chão e numa posição igual a muitas que encontramos num qualquer filme policial. Não obstante ser ele que contacta a polícia para reportar o achado macabro, em vez de sair bem da situação, pelo contrário, as suspeitas vão recair sobre aquele que o espectador, pelo que até ali sabe, não pode acusar automaticamente de ser autor de qualquer acto criminoso. Mas como as aparências iludem, a partir dali o jogo do gato e do rato será constante, e à medida que vamos acrescentando mais um plano e mais uma sequência ao nosso conhecimento das situações, geradas por Fletch e pelas restantes personagens, mais crescem as nossas dúvidas. Das personagens referidas, as mais influentes são a namorada italiana de Fletch, que não engana ninguém a não ser o próprio e possui um esquema manhoso escondido, Lorenza Izzo (Angela de Grassi); uma provável pseudo-condessa (Marcia Gay Harden), com ainda mais manha do que a anterior; um Kyle MacLachlan, no papel de um manhosíssimo art dealer, e uma alucinada Annie Mumolo no papel de um autêntico fóssil vivo de uma era em que os hippies queriam dominar a espécie humana. Será, aliás, com a sua contribuição que esta divertida ficção atinge os níveis de loucura mais extravagantes, numa reformulação caótica e bem divertida das regras da screwball comedy que, no caso dela, procura ser mais screw mas, justamente por isso, pelo falhanço da sua “missão” sedutora, acaba por ser uma quase protagonista da mais desbragada comédia dentro da comédia. Perfeito contraste com o humor controlado, não menos divertido, mas muito mais racional e cínico da personagem Fletch. Resta dizer que muita da acção gira ao redor de roubos e contra-roubos de um conjunto de quadros famosos, de alguns ainda mais famosos génios da pintura, com especial destaque para Pablo Picasso. Pelo meio desta aparente barafunda, a realização vai dando ferroadas aos polícias que investigam o caso (uma dupla sui generis interpretada por Roy Wood Jr. e Ayden Mayeri paralelamente ao percurso de Fletch que procura as pistas necessárias para o ilibar da culpa que lhe atribuem) e acrescenta mais uns incisivos beliscões na fina pele grossa da elite de Boston, na pele branca de neve de uma semi-imbecil do género influencer, e nos que habitam as franjas de uma certa marginalidade chic. Enfim, polariza com savoir faire as notas de sarcasmo das circunvoluções narrativas, disseminando-as pelos caminhos cruzados da cidade, num ritmo permanentemente renovado que nos mantém colados à cadeira até ao último minuto, ao último fotograma do filme, onde a voz inconfundível de Jon Hamm lança para o ar a frase “cinco estrelas”, que usa de cada vez que quer dar pontuação a uma viagem de UBER ou a qualquer serviço que lhe agrade. Diga-se, sempre com uma ironia fina que empresta ao filme o sal e, sobretudo, a pimenta que lhe dá o sabor q. b. e fica mesmo bem. Não, não é um filme de cinco estrelas, mas quando o humor inteligente se junta a uma história que na sua diversidade e loucura bate certo, materializada por um elenco que parece estar ali com gosto a divertir-se, sem olhar apenas para o ego de cada um, só posso dizer que CONFESSA, FLETCH vale a pena, vale mesmo a pena…!

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Confessa, Fletch, em análise

Movie title: Confess, Fletch

Director(s): Greg Mottola

Actor(s): Jon Hamm, Caitlin Zerra Rose, Roy Wood Jr., Domenico Del Giacco, Kyle MacLachlan, Lorenza Izzo, John Slattery

Genre: Comédia, 2022, 98min

  • João Garção Borges - 70
70

Conclusão:

PRÓS: Ritmo, humor, personagens desvairadas que fazem lembrar as velhas comédias do sub-género screwball, curiosa banda sonora musical, diálogos com a picardia necessária para espectadores inteligentes que saibam ler nas entrelinhas, numa palavra, que mais querem que eu diga? Só isto: vão ver o filme antes que alguém se lembre de o retirar de cartaz para dar lugar ao derradeiro franchise de um qualquer super qualquer coisa.

CONTRA: Diria apenas que nas legendas há uma preponderância de linguagem rude que não faz nenhum sentido, nomeadamente a frequente menção ao órgão sexual masculino, porque, por exemplo, o mais “suave” fucking não significa em inglês necessariamente o que parece. Um entre muitos e até mais gritantes exemplos de falta de bom gosto e de bom senso. E não pensem que sou um homem de pudores hipócritas, porque não sou. Trata-se aqui apenas de uma questão de rigor na adaptação da língua inglesa para as idiossincrasias da língua portuguesa. Mais nada.

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