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O Crime é Meu, a Crítica

O talentoso cineasta François Ozon volta a presentear os espectadores com uma grande obra, desta vez “O Crime é Meu” com Isabelle Huppert e Fabrice Luchini!

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Baseado na peça homónima escrita pelos actores e dramaturgos George Berr (1867-1942) e Louis Verneuil (1893-1952), MON CRIME (O CRIME É MEU), 2023, realização de François Ozon, aposta mais uma vez na comédia e na relação criativa entre dois mundos que muito devem um ao outro, o Teatro e o Cinema. Decorre a acção em 1934, ano em que foi publicada a obra literária agora adaptada. Local da mesma, Paris, com uma pequena mas incisiva incursão pela margem direita da cidade luz, para sermos precisos a comuna de Neuilly-sur-Seine. Aí presume-se desde cedo que algo de grave aconteceu no interior de uma bela moradia art-deco de onde, a seguir a uma confusão de gritos cujos ecos se ouvem ao longe, veremos sair uma mulher visivelmente perturbada. Esta jovem será a grande protagonista de quem se irá falar.

ERA UMA VEZ UM CRIME. MEU, TEU OU DE QUEM O AGARRAR…!

O Crime é Meu
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Na verdade, ela irá procurar sobreviver a uma série de vicissitudes existenciais que a obrigam a seguir por caminhos de que não se orgulha em demasia (chega a pensar no suicídio), até ao momento da sua surpreendente redenção e consagração num processo judicial que não podia ser mais bizarro e feliz, sobretudo para o catapultar da sua carreira e consequente inserção nos melhores círculos da sociedade burguesa, algo que até aí não se vislumbrava face ao limitado quadro do seu futuro que se afigurava pouco ou nada radioso. Esta pouco promissora actriz, Madeleine Verdier (Nadia Tereszkiewicz) vive num modesto apartamento, sexto andar sem elevador, com uma companheira, Pauline Mauléon (Rebecca Marder), acabada de formar em Direito. Muito por causa da sua pouca experiência na profissão, não angaria os clientes capazes de contribuir para o bem-estar económico daquela dupla de amigas circunstanciais, não obstante a realização nos dar a entender poder existir algo mais para além da partilha do imóvel.




São duas pessoas que nem a renda da casa conseguem pagar a horas e nos dias certos. Por incrível que pareça, o filho de um grande fabricante de pneus, os da marca Bonnard, anda apaixonado por Madeleine e, mais incrível ainda, este filho-família está disposto a renunciar a uma substancial herança para corresponder ao que considera ser um verdadeiro e sincero caso de amor. Mas a realidade nua e crua explode lançando estilhaços pelos ares neste círculo íntimo quando Madeleine confessa ser autora de um crime. Uma confissão feita perante um procurador, o incompetente juiz Rabusset (delicioso papel atribuído a Fabrice Luchini), na sequência da interpelação de um inspector da polícia que faz perguntas a Madeleine ao mesmo tempo que insinua a culpabilidade da jovem que até então só descrevera a Pauline o violento confronto na casa de um produtor (a mansão que vemos na primeira sequência), um homem bem mais velho que a seduzira com um só e claro propósito, aproveitar-se sexualmente da vulnerável rapariga.

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O Crime é Meu
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Sucede que o dito produtor foi encontrado morto, uma bala na cabeça, estimando-se a hora do crime como próxima da conturbada visita de Madeleine, a quem ele prometera um papelzinho e uma generosa soma em dinheiro caso cedesse aos seus intentos lúbricos. Na longa mas divertidíssima sequência da confissão, onde iremos encontrar como eventual suspeito outra figura peculiar, o marselhês Palmarède (Dany Boon), François Ozon deu aos seus actores espaço mais do que suficiente para construírem, sobretudo o referido Fabrice Luchini, um autêntico filme dentro do filme com a descrição meio alucinada do crime, ou melhor, das diferentes hipóteses de um crime cometido por autor desconhecido, mas que o procurador, como antes o agente policial, insiste em atribuir a Madeleine. De facto, os indícios não faltam e, num lampejo digno do melhor espírito de sobrevivência, Madeleine, finalmente coadjuvada pela advogada Pauline, engendra um plano que julga eficaz para adquirir renovado fôlego vital no meio deste jogo de fatalidades e decide que, sim senhor, o crime foi cometido por ela, a mesmíssima que ali e agora se confessava. Mas com uma pequena reviravolta: um crime cometido não por motivos gananciosos, como se apontava ao ser referido o alegado dinheiro roubado ao produtor, posteriormente encontrado numa simples caixa de charutos, mas em legítima defesa e para salvaguardar a honra virginal (vá-se lá saber) perante a ameaça de abuso e violação.




Depois desta visão feérica e melodramática da justiça ou dos paradigmas da sua ausência, segue-se um julgamento em que Madeleine utiliza os seus dotes na arte de representar para convencer meio mundo e o outro da sua culpabilidade inocente. Contra as piores expectactivas, será absolvida e louvada como o protótipo da mulher que não hesitara em defender a condição feminina num contexto de machos e sátiros, sendo assim levada ao céu no chamado espaço mediático. Finalmente abrem-se as portas a novas e radiantes oportunidades para as duas amigas, actriz e advogada, particularmente para Madeleine, que ascende ao estrelato e é convidada para representar nos mais selectos palcos e estúdios de cinema. Tudo numa era em que as crises, as greves e as convulsões sociais em França eram o pão nosso de cada dia. Bom, as coisas iam de vento em popa até surgir a palhinha que costuma encravar a engrenagem, ou seja, uma outra actriz entra em cena, a inconfundível diva do cinema mudo Odette Chaumette (a igualmente inconfundível, mas por outras e melhores razões, Isabelle Huppert). E porque é que a situação vai virar-se do avesso? Pois bem, essa personagem aparece de repente para reivindicar que afinal o crime foi ela que o cometeu. E quer dinheiro. E quer fama. E quer ver o seu regresso em carne e osso (como repetidamente diz) associado a um passado glorioso que a maioria dos que continuam a reconhecê-la não esqueceu, esse lugar maior dos seus míticos dotes artísticos. Trata-se nitidamente de uma personagem que François Ozon concebeu como uma espécie de caricatura subtil da famosa Sarah Bernhardt, não obstante o aparato do guarda-roupa e o penteado hirsuto.

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O Crime é Meu
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E neste ponto decidi colocar um ponto final na revelação das circunvoluções ficcionais de O CRIME É MEU. Desta vez, confesso que as ditas peripécias são mil e uma, cheias de ritmo e de diálogos plenos de inteligência e humor corrosivo. De facto, são mil e uma as razões para seguir as linhas e entrelinhas deste muito bem estruturado exercício ficcional. Por isso, por mim basta aqui dar conta do essencial, e só para aguçar o apetite de quem quiser ver este filme. Não duvidem que no final de Agosto O CRIME É MEU, distribuído e exibido pela MIDAS FILMES, constitui para já uma das grandes estreias no grande ecrã que ajudam a dar força aos motores do que a conta-gotas se anuncia mais para a frente no circuito comercial e no streaming, as propostas que estão previstas para aquecer os dias cinéfilos ao longo das estações mais difíceis de suportar do meu ponto de vista pessoal, o Outono e o Inverno.

O Crime é Meu, a Crítica
O Crime é Meu Poster

Movie title: Mon crime

Director(s): François Ozon

Actor(s): Nadia Tereszkiewicz, Rebecca Marder, Isabelle Huppert, Fabrice Luchini, Dany Boon, André Dussollier

Genre: Comédia/Drama, 2023, 103min

  • João Garção Borges - 90
90

Conclusão:

PRÓS: Muito bom argumento, livre adaptação da peça homónima MON CRIME, publicada em 1934 e escrita por George Berr (1867-1942) e Louis Verneuil (1893-1952). Por curiosidade, a mesma peça fora anteriormente adaptada pela indústria cinematográfica americana em duas longas-metragens, TRUE CONFESSION (SÃO ASSIM AS MULHERES), 1937, de Wesley Ruggles, e CROSS MY HEART (A MENTIROSA), 1946, de John Berry. No contexto do presente filme, saliento a curiosa homenagem do realizador ao filme francês, estreia na realização de Billy Wilder, MAUVAISE GRAINE (SEMENTE DO MAL), 1934. Digo isto apenas para sugerir que se calhar valia a pena os militantes cinéfilos darem uma vista de olhos pelos mesmos. Mas onde? Será que alguma instituição dedicada ao reviver e preservar da sétima-arte ou alguma plataforma do cabo, especializada ou não, está interessada? Por falar em cinefilia, não será difícil encontrar vestígios em MON CRIME da influência de um realizador como Ernst Lubitsch, e ainda das screwball comedies, género que deu origem a algumas superlativas obras-primas do cinema, sobretudo na era do studio system hollywoodiano.

Excelente Direcção Artística que reconstitui os ambientes dos anos 30, não necessariamente só com rigor mas com um notável equilíbrio entre o funcional e o exuberante, diria mesmo o falso que faz sentido, servido por um certeiro bom gosto. Nota 100 para o guarda-roupa e caracterização.

Belíssima Direcção de Fotografia de Manuel Dacosse, que realça as qualidades anteriormente apontadas.

Magnífica banda sonora musical, quer pelo lado da partitura original de Philippe Rombi, quer pela adequada selecção e inserção na narrativa de poucos mas significativos clássicos da canção francesa.

Muito boa prestação da generalidade do elenco.

Não percam a sequência final antes do genérico com as manchetes dos jornais, e mais não digo.

François Ozon em modo Teatro+Cinema, a acertar em cheio no alvo da comédia sofisticada.

CONTRA: Nada.

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