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Annie Ernaux: Os Anos Super 8, em análise

Alguns dos momentos decisivos da vida da escritora Prémio Nobel da Literatura 2022, são mostrados no documentário ‘Annie Ernaux: Os Anos Super 8’, que fez juntamente com o seu filho David Ernaux-Briot. Um filme integrado na Semana do Cinema Europeu, para conhecer melhor a sua vida e obra. Estreia a 15 de Dezembro.

Figura feminista e mulher de esquerda, escritora de renome e recentemente Prémio Nobel de Literatura 2022, a autora francesa, estreia agora nas salas de cinema, o seu primeiro documentário intitulado ‘Annie Ernaux: Os Anos Super 8’, realizado em parceria com o seu filho David Ernaux-Briot. Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2022 — curiosamente antes de ter sido premiada pela Academia Sueca — trata-se de um filme-ensaio ou um objecto cine-literário, feito com base em arquivos familiares digitalizados — fotografias e filmes Super 8 — que contam igualmente a história de uma época e das grandes mudanças em França e no mundo. No final de 1972, a família Ernaux comprou uma câmara Super-8, ‘objeto desejável por excelência, muito mais que a máquina de lavar-louça ou a televisão a cores’.

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Annie Ernaux: Os Anos Super 8
No filme transparece o enorme desconforto da escritora como esposa-modelo dos anos 70. | ©Midas Filmes

O marido Philippe Ernaux acabava de ser contratado para o cargo de secretário-geral adjunto da Câmara Municipal de Annecy. Annie Ernaux, nascida Duchesne, ensinava então letras na faculdade. O casal tem dois filhos, Eric, 7, e David, 3. Porém, este documentário regressa em parte aquilo que a escritora, agora com 82 anos, nunca deixou de contar através dos seus livros — em especial na sua obra, ‘Os Anos’, publicado em Portugal pela Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos —, dando assim uma nova forma à sua interessante história de vida literária e pessoal. A escritora Annie Ernaux desenterrou uma série de filmes de férias, feitos pelo seu marido na década de 1970, onde transparece sobretudo o seu enorme desconforto como esposa-modelo. ‘Annie Ernaux: Os Anos Super 8’, é uma longa-metragem documental e fortemente intimista, feita a partir desses filmes de família realizados entre 1972 e 1981, que mostram imagens silenciosas que captam momentos de felicidade e de passagem do tempo: fragmentos da sua vida e dos seus familiares mais próximos, ao mesmo tempo que a escritora os vai narrando ao ritmo de uma perfeita locução: evoca a mãe, os filhos, a vida e o relacionamento em risco do casal, as férias com os dois filhos, as festas de Natal e aniversários, as viagens, as mudanças de casa, de cidade e de trabalho, ao mesmo tempo que vai demonstrando a sua própria inquietação e vontade de escrever e de se dedicar inteiramente à literatura. Algo que na altura parecia atormentá-la, no seu dia-a-dia de uma simples professora, esposa e mãe de família da média burguesia.

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Estas ideias, emergem igualmente através das magníficas imagens das várias viagens da família, à URSS comunista, Albânia maoísta, ao Chile socialista, e curiosamente também a Portugal dos anos 80. Estas pequenas memórias cinematográficas — na sua maioria filmadas pelo marido Philippe Ernaux, que nunca aparece nos filmes, só em fotografias —, que se conjugam no documentário não representam efectivamente um simples arquivo familiar fechado. No filme de Ernaux e de David, elas ganham importância, pois representam testemunhos dos gostos, dos hobbies, do estilo de vida e das aspirações de muitas pessoas de uma determinada geração e classe social, durante essa década, que se segue às grandes manifestações de rua e às ideias — a revolução sexual e a emancipação feminina — saídas do Maio de 1968. Estas incríveis imagens, sem som no original, são a mais pura revisitação de uma história pessoal, encaixada na encruzilhada da História contemporânea, onde se misturam, o social e o familiar; e às qual a escritora acrescentou uma emocionante narração do seu diário pessoal e intimo, desses anos decisivos da sua vida de esposa-modelo, apesar de tudo dominada pelo desejo de prazer e liberdade. Em 2021, a escritora Annie Ernaux, já tinha visto a sua própria história de vida, o aborto clandestino que fez, quando era estudante universitária, ser adaptada — a partir do seu romance homónimo — ao cinema no filme ‘O Acontecimento’, da realizadora francesa Audrey Diwan, o filme que ganhou o Leão de Ouro no 78º Festival de Cinema de Veneza.

JVM

Annie Ernaux: Os Anos Super 8, em análise

Movie title: Les années Super-8

Movie description: Filmes caseiros da escritora Annie Ernaux (Prémio Nobel de Literatura 2022) e da sua família de 1972 a 1981, alimentam, os temas da sua obra e vida nos últimos 60 anos.

Date published: 7 de December de 2022

Country: França

Duration: 64 minutos

Director(s): Annie Ernaux e David Ernaux-Briot

Genre: Documentário, 2022,

  • José Vieira Mendes - 85
85

CONCLUSÃO:

Em ‘Annie Ernaux: Os Anos Super 8’, a escritora francesa, Prémio Nobel da Literatura 2022, revela-nos através do cinema a sua intimidade e uma delicada viagem pelas memórias da sua família feita a meias com o filho David Ernaux-Briot. Realizado a partir de filmes caseiros de 1972 a 1981 — entre os seus primeiros livros terem sido publicados e os seus filhos se tornarem adolescentes — era o seu marido Philippe que levava sempre a câmera de Super 8 mm para todo o lado: o resultado é um extraordinário retrato de uma época, dos lugares, momentos de vida pessoal e também do significado político de um tempo: viagens de férias, rituais familiares de uma França burguesa e suburbana e também de viagens ao estrangeiro da URSS a Portugal. Ernaux com a sua própria narração introspectiva, guia-nos através desses fragmentos difusos e vividos através de uma década de grandes mudanças, pessoais e sociais, ao mesmo tempo que nos proporciona uma notável extensão visual da sua vida e projeto literário.

Pros

Este diário cinematográfico é sem dúvida de uma inquestionável simplicidade, beleza, sensibilidade e sabedoria, pois percorrer mais de dez anos de vida da escritora e da sua obra literária.

Cons

De certo modo a utilização dos filmes caseiros para representarem realidades do passado, está efectivamente a tornar-se um lugar comum de muitos documentários criativos.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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