"Os Fabelmans" ©Universal Pictures

3 (Novos) Filmes Que Falam do Cinema

Há muito que o cinema gosta de abordar o próprio cinema, a sua história, os seus artistas, os bastidores, o processo de criação, as suas possibilidades, o sonho e a magia, enfim, a própria essência da Sétima Arte. É o que acontece nas três estreias, que em breve chegam às salas de cinema: ‘Os Fabelmans’, ‘Império da Luz’ ou ‘Babylon’.

Os Fabelmans, de Steven Spielberg

os fabelmans
©Universal Pictures

Steven Spielberg já nos contou muitas histórias sobre dinossauros, espiões, alienígenas, guerras, realidade virtual, jornalistas, tubarões e muito mais, mas agora parece ter chegado a hora de nos contar a sua história mais pessoal: a sua própria vida. ‘Os Fabelmans’ é uma charmosa e terna viagem pela estrada da memória de Spielberg e um filme semi-autobiográfico sobre a própria infância e juventude, passado nos finais dos anos 50 e início dos anos 60. O filme conta a história de um rapaz do Arizona chamado Sammy Fabelman, que influenciado pela sua excêntrica mãe artista (Michelle Williams) e o seu pragmático pai engenheiro informático (Paul Dano), descobre um devastador (para ele sobretudo) segredo de família; e depois como o cinema o vai ajudar a superar e a construir a sua própria identidade, nesse apesar de tudo, encantador turbilhão de sensibilidades. Os primeiros 15 minutos d’ ‘Os Fabelmans’, são focados na infância de Spielberg e são momentos convencionais, talvez até um pouco enigmáticos e que oferecem pouca emoção. No entanto, o filme ganha toda a sua força, quando começamos a seguir o então adolescente Sammy Fabelman (Gabriel LaBelle) enquanto faz filmes caseiros, aprende sozinho a ser um realizador e descobre esse difícil segredo de família, que vai abaná-lo. Sammy vive num amoroso lar de uma família de origens judaicas, com três irmãs, a mãe Mitzi (Michelle Williams), o pai Burt (Paul Dano) e o divertido tio Benny (Seth Rogen). Mitzi é uma dona de casa que poderia ter sido uma grande pianista; e é a partir desse espírito artístico que ela entende o amor de Sammy pelo cinema e sua necessidade de exercer o controle sobre outras histórias.

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Isso não é totalmente compreendido por Burt, um homem terno e amoroso com alma científica, que adora a sua família, mas não vê os filmes caseiros de Sammy, como nada mais além de um hobby, e cuja atitude de certo modo excessivamente centrada no trabalho, começa a criar certas dificuldades no seu relacionamento conjugal. Porém, o poder do cinema é claramente o grande fio condutor de ‘Os Fabelmans’, e Spielberg trata-o com muito carinho e sensibilidade, como é seu hábito. Sammy faz pequenos filmes de guerra, de cowboys, para partilhar com os seus familiares e amigos. É muito gratificante ver como o rapaz aprimora em cada um deles, resolvendo aspectos técnicos para potencializar o impacto das suas histórias, como aprende a dirigir actores. Além disso o jovem aspirante a realizador acaba também por usar a sua arte para combater os preconceitos, como veremos no decorrer da história. ‘Os Fabelmans’ é um filme sobre o crescimento com o sentido épico de um blockbuster que explora, a partir de um lugar de amor e gratidão, como um evento difícil e familiar, pode influenciar profundamente nosso desenvolvimento pessoal e profissional. É um filme por meio do qual Spielberg celebra o amor aos seus pais, as suas origens judaicas e o seu desenvolvimento inicial como cineasta, mas também é uma ferramenta de perdão, cura e esperança, cujo maravilhoso desfecho vai enternecer até o mais resiliente dos espectadores e apesar também da duração de 151 minutos. Por favor, evitem contar o fim do filme! Estreia a 22 de dezembro próximo. 

‘Império da Luz’, de Sam Mendes

O Império da Luz
Império da Luz é uma homenagem de Sam Mendes às velhas salas de cinema. ©Searchlight Pictures

Em primeiro lugar são Olivia Colman e Micheal Ward que brilham lá no alto em ‘Império da Luz’, uma ode sentimental de Sam Mendes (‘1917’), também ao poder do cinema, perante a vida. ‘Império da Luz’, que o cineasta de ‘1917’ escreveu e realizou, é um filme na linha de ‘Cinema Paraíso’, mas no sentido de saudar o cinema como um remédio universal contra tudo o que o aflige: neste caso as doenças mentais e o racismo. O filme assenta numa bem desenhada relação entre duas almas problemáticas: Hilary (Olivia Colman), a gerente de serviço do velho Empire Cinema e Stephen (Micheal Ward), o seu mais recente funcionário. Esta lindamente antiquada e emocional ode de Sam Mendes ao cinema e aos velhos cinemas da sua juventude acontece na orla marítima da cidade de Margate, no início dos anos 80, à medida que vai avançando para uma nova década. Os cenários de época e a amizade entre uma mulher de meia-idade que sofre de uma doença mental e um jovem com seus próprios problemas, certamente vão marcar os espectadores para além do filme. Olivia Colman tem mais um vez uma uma daquelas suas performances ‘do outro mundo’: a sua Hilary parece real, em todos os momentos do filme. É igualmente extraordinário o diálogo interpretativo com o jovem ator Micheal Ward (‘Top Boy’), um jovem que vive um período racialmente conturbado, numa cidade do litoral, conhecida por atrair violência.

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Mendes combina da melhor maneira todos estes elementos num fio condutor que dura pouco menos de duas horas. Porém, o cineasta dá tempo para que se desenvolva a amizade entre Hilary e Stephen, ao mesmo tempo que cria um calor e uma atmosfera familiar, neste gigantesco edifício à beira-mar, onde os bilhetes para os filmes são baratos e os The Blues Brothers tocam no início do filme: na verdade trata-se de um velho cinema que já viu dias melhores, com algumas sala fechadas, que já foi salão de bailes e tinha um restaurante no topo, agora deixado aos pombos. A doente mental, Hilary, e o jovem e meigo, Stephen, são habilmente construídos pelo realizador e os seus problemas são tratados de uma forma muito terna: afastada da sua família, Hilary só tem o Empire na sua vida, onde é explorada sexualmente pelo seu patrão casado, Donald Ellis (Colin Firth); Stephen, por sua vez é muito próximo da sua mãe solteira, uma enfermeira de Trinidad (Tanya Moodie). Ele dá os seus primeiros passos num mundo de brancos, que várias vezes o rejeitou — não foi aceite na faculdade —, apesar mesmo da promessa com os The Beat, a sua banda de ska favorita. No entanto, quando o poder de cura do cinema é colocado em primeiro plano, o filme torna-se numa resposta à terrível luta de Hilary contra a doença mental e à experiência brutal de racismo de Stephen. ‘Império da Luz’ é um filme sentimental — a banda sonora de Trent Reznor e Atticus Ross anuncia isso mesmo logo desde a abertura  — mas vale pela sua mensagem de amor, tolerância e sobretudo pela forma como mostra o poder dos filmes e o impacto que eles têm principalmente numa enorme sala escura de cinema. Estreia prevista para 23 de fevereiro de 2023.

‘Babylon’, de Damien Chazelle

Babylon
‘Babylon’ de Damian Chazelle é um filme ‘a abrir’, sobre a era do cinema mudo em Hollywood. © Paramount Pictures

O contrário de Spielberg e de Mendes, em ’Babylon’ o realizador Damien Chazelle (‘La La Land’) criou uma provocadora, barulhenta e épica crónica de Hollywood. Damien Chazelle estava ansioso por uma mudança de ritmo, depois da quietude de ‘O Primeiro Homem na Lua’ (2018), o drama sobre Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar o nosso satélite natural. O resultado é ‘Babylon’, uma homenagem à era do cinema mudo em Hollywood e aos loucos anos 20, repleta de estrelas que capturam a humanidade no seu aspecto mais ‘glamoroso e animalesco’, mas, que é indubitavelmente um filme de ficção, baseado na realidade. Assim como em ‘La La Land’, este ‘Babylon’ passa-se em Los Angeles. A localização é a única coisa que estes dois filmes têm em comum. Passado no final da década de 20, ‘Babylon’ coloca os holofotes em Brad Pitt, como um verdadeiro protagonista e Margot Robbie como uma estrela em ascensão, no cenário de um negócio de entretenimento em crescimento: o cinema. São eles que aparentemente, constroem uma cidade e uma indústria praticamente do zero, ao mesmo tempo que o filme procura capturar o espírito daquela época, que aqui não é muito diferente daquela presente oeste selvagem. Na verdade, ainda com mais excessos, em drogas e até num valor da vida humana e talvez extremo em vários aspectos.

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‘Babylon’ parece inspirado em filmes como ‘La Dolce Vita’, de Federico Fellini, ‘Nashville’, de Robert Altman, ou mesmo na saga de  ‘O Padrinho’, de Francis Ford Coppola, filmes clássicos e épicos que conseguiram, através de um conjunto de personagens, mostrar, uma sociedade em mudança. Mas igualmente exagerando referências do opulento ‘O Grande Gatsby’ de Baz Luhrmann ou do violento ‘Era Uma Vez Em Hollywood’, de Quentin Tarantino. Embora o filme seja fictício, os personagens foram inspiradas em pessoas da vida real e procura decerto modo demolir todas as noções preconcebidas daquela época, e parece que leva mesmo os actores numa direção muito diferente daquela que os espectadores esperariam. Juntamente com Robbie e Pitt, no elenco estão Diego Calva, Tobey Maguire, Max Minghella, Spike Jonze, Jean Smart, Flea, Samara Weaving e Olivia Wilde. O trailer foi concebido sempre ‘a abrir’, com imagens deslumbrantes, um fabuloso guarda-roupa, cenários de estúdios e rodagens, grandes festas na piscina, repletas de muita bebida e cocaína, muitas e belas mulheres em topless. Estreia a prevista para 19 de janeiro de 2023.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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