Cr. Wilson Webb/Netflix © 2022

Ruído Branco, em análise

Adam Driver e Greta Gerwig juntam-se a Don Cheadle em “Ruído Branco”, o novo filme do cineasta Noah Baumbach!

O RUÍDO BRANCO DA MORTE…!

Num processamento de sinal, a expressão ruído branco significa um sinal aleatório com igual intensidade em diferentes frequências, o que lhe confere uma densidade espectral de potência constante. Bom, não se preocupem que não precisam de ser especialistas destas matérias para apreciarem um projecto cinematográfico, nem eu vou desenvolver aqui esta matéria que se refere em particular ao domínio da física, da engenharia acústica, entre outras de similar relevância num mundo cada vez mais dominado pelo desenvolvimento de modelos estatísticos e sistemas de comunicação. E não o vou fazer porque o WHITE NOISE (RUÍDO BRANCO), 2022, escrito e realizado por Noah Baumbach, na minha interpretação, não passa de uma alegoria ao ruído branco da morte, uma outra forma enganadora de dizer que em determinadas ocasiões não há sinais vitais reconhecíveis, o que nos faz lembrar a imagem daqueles ecrãs a fervilhar de pontos brancos e pretos, que vulgarmente designamos por chuva ou grão, e ainda aquele som que mais parece uma fritadeira ao lume, o fffffchiiiii que passados alguns segundos entra pelas orelhas de um pobre mortal como um autêntico suplício. Mais do que um ruído branco, um ruído insuportável. Pior que o piiiii dos mil ciclos.

Ruído Branco
Cr. Wilson Webb/Netflix © 2022

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Para os devidos efeitos, Noah Baumbach escreveu o argumento a partir da adaptação do livro White Noise, de Don DeLillo, publicado em 1985. Não admira pois que o filme se situe nos anos oitenta (podia não o fazer mas fê-lo, e isso possui alguma importância, nem que seja plástica, na definição de certos ambientes), provavelmente para nostalgia dos que os viveram e para reapropriação mais ou menos hype de um passado no seio dos que nasceram depois, por vezes muito depois, rapaziada fascinada por questões de moda e, para o que interessa na estruturação da componente objectiva e subjectiva dos acontecimentos narrados em RUÍDO BRANCO, pelas atmosferas próprias de uma época relativamente conturbada dos Estados Unidos. Estava o republicano e ultra conservador Ronald Reagan na Presidência, ele que já fora governador do Estado da Califórnia.

Ruído Branco
Cr. /Netflix © 2022

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Neste contexto geral, a realização polariza a atenção sobre o papel de um professor universitário, o circunspecto Jack Gladney (personagem interpretada com cínico calculismo por Adam Driver), especialista no percurso político e ideológico de uma figura de má memória como Adolf Hitler. Ele vive numa vulgaríssima casa da chamada classe média, nem rica nem pobre, junto com a sua mulher Babette (infelizmente, quase sempre interpretada em piloto automático por Greta Gerwig), mais um rancho de filhos do casal que falam que se desunham. Aliás, há sequências inteiras em que a cacofonia se sobrepõe a qualquer diálogo digno desse nome. São eles Heinrich (Sam Nivola), Steffie (May Nivola) e Denise (Raffey Cassidy). Pode ser que Noah Baumbach quisesse fazer suar as estopinhas ao montador de som, ou simplesmente quis gerar um cruzamento plural de palavras soltas entre as diversas personagens para multiplicar os pontos de vista sobre os que entram e saem no plano ou então sobre os que não raras vezes permanecem fora do enquadramento. Trata-se de uma perspectiva coral quase ao jeito de algum cinema experimental que, lamento, não me parece resultar na construção de um fluir eficaz das emoções, pelo menos das que se depreendem do conjunto ficcional. Para ajudar a esta festa, na Universidade que dá pelo curioso nome de OVER THE HILL há um outro professor especialista de bizarrias, o afro-americano Murray (Don Cheadle), que logo a abrir vemos a dar uma aula sobre desastres no cinema americano, que ele garante ser matéria de inegável poder de sedução junto dos seus concidadãos. Demonstração, segundo o próprio, do pulsar de morte que invade a alma dos seus semelhantes, ou melhor, o medo da morte que a maioria das pessoas, e logo as personagens de RUÍDO BRANCO, encaram como sendo o motivo maior para o comportamento do mais comum dos seres humanos. Mas o maior desejo de Murray estava por concretizar e era o de colocar Elvis Presley no pedestal em que o seu colega Jack Gladney colocara Adolfo Hitler. Porque, não obstante as diferenças abissais entre os dois homens, há sempre pontos de contacto que se podem estabelecer, como se “prova” numa peculiar aula em que Murray e Jack falam de factos similares na biografia das suas figuras de eleição curricular. E de cavalgada em cavalgada em cima do mote Strangers When We Meet (leiam, por favor, a letra da canção de David Bowie e deixem espaço para a loucura como eu deixo espaço para a análise da loucura subjacente ao que o realizador nos oferece), o filme pula e avança até ao momento fulcral em que um camião cisterna embate num comboio, produzindo uma explosão que dará origem a um gigantesco desastre ecológico, um “graficamente” aterrador AIRBORNE TOXIC EVENT. “Fujam de casa”, ouve-se alto e bom som, porque a nuvem que se forma possui substâncias letais. Mas, pouco depois, já não é bem assim. De reviravoltas sucessivas se faz a fuga dos habitantes da região enquanto o medo se instala e o filme entra numa espécie de sucessão caótica de casos atrás de casos, que umas vezes são controlados e outras escapam ao controlo das autoridades. Curiosamente, estas só aparecem sob a forma de voluntários amadores ou então como sombras no nevoeiro de uma longa noite negra e dias ainda mais negros devido ao céu que parece desenhado para figurar num filme de ficção científica de Série B, vá lá, B+. Escusado será dizer que a família de Jack Gladney e Babette, para além dos apêndices filiais que lhes complicam a vida, irá ainda envolver-se em outras e porventura mais graves complicações a propósito de uns misteriosos comprimidos que a zelosa mãe anda a esconder e que se virá a saber, mais para a frente, serem o motivo da infidelidade marital da senhora (que foi para a cama com um rapaz mal-encarado e mal parido, que fala alemão e vive num motel e que, sobretudo, nos faz pensar que Babette, para além de um pouco aérea e levezinha, possuía um rotundo mau gosto no que diz respeito a parceiros de folia). Para o final fica o melhor, nomeadamente quando Jack e Babette, por razões de força maior que aqui não vou divulgar porque não quero que digam que sou um mentor de spoilers, vão parar a uma instituição hospitalar onde umas freiras, mais uma vez fluentes na língua germânica, nos oferecem uma visão super cínica dos mistérios da fé. Repito, não digo mais nada. Neste caso, garanto que vale a pena assistir a esta surpreendente sequência que antecede um genérico final divertido mas inconsequente, uma fantasia musical rodada no interior de um grande supermercado. Em resumo, um filme que não consegue articular satisfatoriamente a quantidade de materiais recolhidos na complexa obra literária que lhe deu origem, para alguns uma obra infilmável, e que se contenta em seguir um caminho modernaço de aproximação aos conflitos dramáticos de uma pretensa alegoria da sociedade americana contemporânea, e não só. Sim, porque a sociedade de consumo que ali se expõe nas frequentes visitas ao dito supermercado e a uma série de lojas de conveniência, para o melhor e para o pior, já há muito que se perfila e confunde com o sinal e o ruído branco que não são exclusivos do American way of life.

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Ruído Branco
Cr: Wilson Webb/NETFLIX © 2022

Ruído Branco, em análise
Ruído Branco

Movie title: White Noise

Movie description: Simultaneamente hilariante e aterrador, poético e absurdo, comum e apocalíptico, "White Noise" dramatiza as tentativas de uma família americana contemporânea de lidar com as dificuldades da vida quotidiana, ao mesmo tempo que se debate com os mistérios universais do amor, a morte e a possibilidade de alcançar a felicidade num mundo cheio de incertezas.

Director(s): Noah Baumbach

Actor(s): Adam Driver, Greta Gerwig, Don Cheadle, Raffey Cassidy, Sam Nivola

Genre: Comédia, 2022, 136min

  • João Garção Borges - 60
60

Conclusão:

PRÓS: Destaque especial para a reconstituição dos anos oitenta numa Califórnia acossada por um desastre ecológico de proporções gigantescas, que em WHITE NOISE (RUÍDO BRANCO) as equipas dos efeitos visuais e especiais garantiram ser um dos polos mais interessantes de um filme que no geral promove com alguma dificuldade, sobretudo ao nível do argumento e da montagem, a interligação entre o primordial e o acessório. Mesmo assim, apesar das reservas que refiro e que assumo porque sou um crítico exigente para públicos exigentes, penso que esta obra desigual vale uma deslocação ao cinema. Senão, esperem pela estreia na NETFLIX. Não se compara a experiência entre pequeno e grande ecrã, mas porque não?

CONTRA: Na sequência do raciocínio inscrito no campo anterior, apesar dos 136 minutos desta longa-metragem, fica a sensação de que metade do que devia ser dito fica por dizer, e o que vemos segue o modelo de querer introduzir na narrativa uma, e outra, e ainda outra interacção que no fundo não aquece nem arrefece nem acrescenta algo de relevante ao que já sabíamos numa primeira exposição das grandes linhas da matéria ficcional.

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