O encantador realismo mágico nas ruas de Filadélfia |©AMC

Dispatches From Elsewhere, primeiras impressões

“Dispatches From Elsewhere” é a nova produção original dos Estúdios AMC , responsáveis pela criação de conteúdos como “Breaking Bad” (2008). Vimos os primeiros quatro episódios desta série criada por Jason Segel e deixamos agora algumas impressões iniciais. Estreia no AMC Portugal  já a 20 de abril pelas 22h10, com direito a episódio duplo. 

Este artigo não contém spoilers!

Jason Segel é mais do que o amável e curioso Marshall Eriksen que conhecemos de “How I Met Your Mother”. Este novo “Dispatches From Elsewhere” mostra uma vez mais um certo potencial do ator para co-existir  frente e atrás da câmara. Aqui é criador, co-produtor, co-argumentista e até realizador de um dos episódios desta nova aposta televisiva. Não foi este o seu primeiro crédito de escrita, tendo assinado em 2008 o seu primeiro filme,  “Um Belo Par de…Patins” ou no bem preferível título em inglês “Forgetting Sarah Marshall”, uma comédia romântica com inesperado humor, coração e alguma bizarria à mistura. Desde então escreveu vários filmes por ele protagonizados como “Os Marretas” (2011) ou “Espera Aí… Que Já Casamos” (2012), entre outros.

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Esta sua nova aventura criativa regressa a um registo empático e positivo que parece ser imagem de marca. “Dispatches From Elsewhere” segue a história de quatro indivíduos, todos eles muito diferentes e ainda assim capazes de encontrar pontos de contacto inesperados. Acompanhamos Peter (Jason Segel), Simone (Eve Lindley de “Mr.Robot”), Fredwynn (André Benjamin de “American Crime”) e Janice (Sally Field de “Maniac”, “Lincoln” e muito mais) à medida que estes descobrem um conjunto de pistas e puzzles que se transformam num verdadeiro quebra-cabeças. Estas pistas encontram-se escondidas a olhos vistos, camufladas na vida quotidiana que com a existência deste mistério se vai tornar mais estimulante e menos mundana.

Dispatches From Elsewhere Jason Segel
O primeiro episódio introduz-nos o apático Peter |©AMC

Nos primeiros quatro episódios da série vamos acompanhando estes quatro estranhos que se devem unir por um objetivo comum, descobrir o que escondem os mistérios e os desafios propostos pelo “Elsewhere” e descobrir afinal que entidade é esta. Esta descoberta leva-os a explorar um realismo mágico e novas possibilidades que não pensavam estar patentes neste mundo. Em quatro capítulos, os quatro protagonistas são-nos apresentados um a um à medida que a narrativa vai progredindo naturalmente. Apesar de a série se apresentar como uma antologia por parte dos seus criadores, a verdade é que existe um sólido  – embora confuso – fio condutor da acção e aquilo que muda é a nossa percepção dos eventos, à medida que vamos conhecendo as nossas personagens, tão banais quanto extraordinárias.

AMC Portugal Dispatches
Peter e Simone estabelecem uma conexão humana notável em “Dispatches From Elsewhere” |©AMC

A série convida-nos à compreensão das motivações das suas personagens, e acima de tudo à identificação das mesmas como universais – e é este talvez o maior dos seus trunfos. Com alguma fantasia e alguma ficção científica à mistura, “Dispatches From Elsewhere” é bastante centrada em conceitos, ideias, motivos, teorias e suposições acerca da psique humana. Torna-se confusa e difícil de seguir por diversas vezes, mas fá-lo de forma intencional. Tal como os protagonistas, o espectador, com a ajuda da narração enigmática de Richard E.Grant (“Memórias de uma Falsificadora Literária”, é convidado a compreender uma complexa teia de motivações na qual muito pouco é evidente. Por isso não é um conteúdo para todos, mas antes um que requer uma atenção ao detalhe assinalável. Apesar de demorar a dar respostas  – se alguma vez sequer as providenciar – é capaz de manter o interesse. Quanto à capacidade de conduzir a sua alucinada narrativa a fruição, só o final da temporada o ditará.

Peter, Simone, Fredwynn e Janice são – como referi – muito diferentes. Para conseguirem chegar a bom porto com as suas demandas, é essencial que um agradável espírito de entre-ajuda surja entre eles. Cada capítulo permite-nos conhecê-los um pouco melhor, mesmo quando não estamos focados no seu ponto de vista. Temáticas importantes como a ansiedade, depressão, solidão, desadequação social, questões de identidade de género e tantas outras são abordadas com respeito e contenção. Traduzem-se sonhos, expectativas ou desilusões de uma forma extremamente visual.

Recantos maravilhosos não faltam | ©AMC

A série é filmada em Filadélfia e apresenta-nos um mundo belo, colorido. Há que tirar o chapéu aos diretores de fotografia, nomeadamente a D.J. Stipsen – nomeado ao Emmy pelo seu trabalho em “What We Do In The Shadows” (2019). Uma realidade feita de pequenas maravilhas do quotidiano, que com ou sem magia podem ser ignoradas por aquele que se encontre desatento. O mistério guia-nos ao longo dos episódios e tenta estimular a curiosidade, mas o melhor de “Dispatches From Elsewhere” é mesmo os momentos contemplativos e de abstracção que consegue proporcionar.

Muito mais não pode ser dito sem perturbar o desconhecimento que consumir este conteúdo exige. Desejo a todos uma intrigante jornada.

PROMO OFICIAL LEGENDADA: 

Dispatches From Elsewhere
Dispatches from Elsewhere vertical AMC

Name: Dispatches From Elsewhere, primeiras impressões

Description: Quatro estranhos exploram um mistério camuflado na vida quotidiana.

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  • Maggie Silva - 76
76

CONCLUSÃO

Uma série invulgar que se faz muito de pequenos momentos. Transmite um inegável sentimento de satisfação e contentamento e procura melhorar a relação dos protagonistas consigo próprios e com o mundo. Cinismo não tem grande lugar e o mundo parece mais convidativo.

O MELHOR: A inegável humanidade deste conteúdo que valoriza o coletivo acima do individual, a consideração acima da arrogância e instaura a dúvida sem semear ou promover a discórdia;

O PIOR: "Dispatches From Elsewhere" é propositadamente confuso. Será que todas as pontas soltas e sugestivos eventos terão uma resolução satisfatória, ou será que ficarão presas ao campo da suposição? Parece um risco real, mas há que esperar para ver depois da emissão destes 10 episódios;

A narração em voz-off pretende ser enigmática mas acaba por se tornar supérflua e apenas procura comunicar à audiência o que sentir;

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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