Fargo, terceira temporada em análise

Pode ter sido a última vez. Na sua terceira temporada, Fargo recicla várias mecânicas e dinâmicas narrativas que ditaram o sucesso passado da série de Noah Hawley. Preserva-se o insólito e o absurdo, num mundo que converge azares, enganos e pessoas comuns em circunstâncias improváveis.

Noah Hawley, o homem que digita apenas com dois dedos, disse há tempos numa entrevista com Jimmy Kimmel que durante alguns meses teve que alternar. Escrevia um episódio de Legion numa semana, um episódio de Fargo na seguinte. Há cabeças assim. Génio? Aparentemente. Ou isso, ou não precisa de dormir.

Há poucas séries tão peculiares e com uma impressão digital tão própria como a série do FX, vencedora de 5 Emmy e 2 Globos de Ouro. Na sua terceira antologia, Fargo volta a revelar-se um novelo, uma encruzilhada de situações e personagens bem interligadas.

Fargo Ray Emmit

No epicentro deste terramoto de humor negro, acidentes e precipitações, estão os irmãos Ray e Emmit Stussy. Os dois interpretados por Ewan McGregor. E a rivalidade de ambos, gerada após a herança do pai, e tendo por base uma coleção de selos. Tão Fargo. Quando os conhecemos, Emmit é um empresário de sucesso, o rei dos parques de estacionamento do Minnesota. Ray é um agente de liberdade condicional, barrigudo e calvo, que guarda remorsos do irmão com a mesma frequência com que recebe boiões de urina dos seus clientes. Mas há luz na vida de Ray: Nikki Swango (Mary Elizabeth Winstead), uma ex-reclusa desenrascada, sexy e ambiciosa.

Na primeira temporada Lester Nygaard matou a mulher na cave. Na segunda temporada, a cabeleireira Peggy atropelou um homem e levou-o para casa. Desta vez, a ação desenrola-se a partir de um assalto que corre mal. Ray, enraivecido por Emmit não lhe emprestar dinheiro para comprar um anel de noivado para Nikki, chantageia um cliente seu, Maurice LeFay (Scoot McNairy) para que este roube um dos selos do seu irmão. No entanto, drogado e aluado, Maurice perde um papel com a morada do alvo e acaba por assaltar e matar outro Stussy. Sem qualquer ligação aos irmãos rivais, mas sogro da polícia Gloria Burgle (Carrie Coon). Caldo entornado. Com ares condicionados utilizados como armas no primeiro episódio.

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Fargo Carrie Coon

A esta conjugação de equívocos junta-se o facto do império de Emmit ficar repentinamente refém de VM Varga (David Thewlis), um antagonista na linha de Lorne Malvo, e que se faz sempre acompanhar pela dupla Meemo e Yuri.

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A temporada arranca em ritmo lento, à medida que a aranha VM Varga tece os destinos dos irmãos Stussy na sua teia, tendo como constantes obstáculos Nikki Swango e a sempre disposta a ajudar Gloria Burgle. Ao contrário das duas temporadas anteriores, esta não nos agarra da mesma maneira. E quando finalmente dispara – episódios 8 e 9 – acaba por ter o seu clímax cedo demais. É natural o nono episódio de uma temporada de dez ser o pico de intensidade, com o último a preparar ou lançar a temporada seguinte. Mas numa série de antologia convém o ponto final ser emocionante, brutal, e esta terceira vida de Fargo acaba por ter um fim que parece apressado e com algumas decisões difíceis de engolir. Contestáveis, pelo menos. Isto depois de ter acordado, ou de se ter encontrado, tarde.

Fargo VM Varga

Já o casting, voltou a acertar na mouche. E é notável como todos os atores se conseguem adaptar a esta ambiência tão distinta. Ewan McGregor não deslumbra. Cumpre, embora perante um desafio significativo. E Michael Stuhlbarg parece ter nascido no universo Fargo desde o primeiro instante em que o vemos no ecrã. No seu todo, Mary Elizabeth Winstead e David Thewlis acabam por ser os principais destaques, como Nikki Swango e VM Varga. Swango, talvez a personagem que sofre mais, ganha especial interesse quando passa a ter ao seu lado um velho conhecido dos fãs, Mr. Wrench. Já a originalidade de VM Varga começa no facto de ser um vilão bulímico, e sustenta-se no desempenho de David Thewlis, capaz de construir uma personagem repugnante mas cativante, com uma dicção articulada e um palitar de dentes sem igual.

Hawley dá a esta terceira (e última?) temporada pela primeira vez um final ambíguo. No frente-a-frente entre Varga e Gloria, acaba por ser interessante não declarar ninguém vitorioso. Cabe ao espectador julgar a batalha de crenças entre duas personagens opostas. Uma, destrutiva sem deixar rasto. A outra, passiva, ignorada, mas determinada em corrigir tudo à sua volta.

Fargo Who Rules

Um dos pontos negativos a apontar a esta temporada é, estranhamente, a personagem de Carrie Coon. A atriz de The Leftovers, ainda que numa performance ao nível do que nos tem habituado, acaba por ser uma réplica das personagens de Molly e Lou Solverson. Perde pela passividade e invisibilidade que acaba por ter. Aquele incrível shot no primeiro episódio, de caçadeira na mão, torna-se enganador: o que tem em vontade, perde em impacto.

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De resto, Fargo volta a apostar no trabalho a dois (Yuri e Meemo formam uma dupla memorável) e Noah Hawley mantém o seu carácter experimentalista. Desta vez há espaço até para uma animação ao estilo da curta-metragem World of Tomorrow, de Don Hertzfeldt.

Fargo bowling

As referências a outros trabalhos dos irmãos Coen – tão boa a sequência no bowling à The Big Lebowski, um possível purgatório com Ray Wise, Mary Elizabeth Winstead e Goran Bogdan – só valorizam o universo que Hawley tem ampliado. “Who Rules the Land of Denial?” é o ponto alto de uma temporada que tem demasiados ecos e reflexos, inconscientes se calhar, das duas temporadas anteriores, superiores a esta. Boa, mas não tão espetacular.

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Não faz mal se este tiver sido o fim de Fargo. Noah Hawley deixou-se inspirar pelo material que admirava e construiu três temporadas sólidas, aclamadas pela crítica e com elencos carregados de qualidade.

Pode deixar-nos Fargo, mas Hawley continuará bem presente – temos Legion e teremos Cat’s Cradle, a obra de Kurt Vonnegut como mini-série.

Agora vai dormir um bocadinho Noah, que bem mereces.

TRAILER | Visita o pitoresco universo de Fargo

Fargo - Temporada 3
Fargo Poster

Name: Fargo

Description: A rivalidade dos irmãos Stussy origina um assalto que corre mal e um duplo homicídio. Tudo por causa de um selo.

  • Miguel Pontares - 76
  • Daniel Rodrigues - 70
73

CONCLUSÃO

O MELHOR – O casting (David Thewlis e Mary Elizabeth Winstead especialmente). E a capacidade de continuar a ampliar um universo que respeita e admira os Coen, novamente através de um novelo ou encruzilhada de situações e personagens bem interligadas.

O PIOR – A temporada só agarra já perto do fim, e a resolução parece apressada. Falta alguma originalidade a várias personagens (reciclam-se traços e dinâmicas) e uma das protagonistas tem pouco impacto na ação.

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Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.

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  1. Goodfella 12 de Janeiro de 2018

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