Paul Bäumer, interpretado pelo excelente e expressivo Felix Kammerer. ©Reiner Bajo/Neflix

Globos de Ouro 2023: A Oeste Nada de Novo, em análise

O filme de guerra alemão ‘A Oeste Nada de Novo’, de Edward Berger é surpreendentemente, um dos mais vistos de sempre em língua não-inglesa na plataforma Netflix. Além de ser o candidato alemão aos Oscars, é um dos nomeados a Melhor Filme Internacional nos Globos de Ouro 2023. O filme foca-se na história de jovem soldado alemão, que sofre os horrores na linha da frente, durante a Primeira Guerra Mundial.

O filme de guerra alemão ‘A Oeste Nada de Novo’ (‘Im Westen Nichts Neues’), do cineasta Edward Berger (‘Jack’, 2014) é uma daquelas raras obras que consegue conciliar as opiniões da crítica com o passa-palavra dos espectadores. Por isso não admira que se tenha tornado rapidamente num fenómeno de audiências no streaming da Netflix, mesmo não sendo falado em inglês, como é o mais normal. Trata-se de uma nova adaptação do best-seller publicado em 1929, do escritor alemão Erich Maria Remarque (1898-1970). Este livro, e a sua sequela, ‘O Caminho do Regresso’, estão entre as muitas edições que os nazis proibiram e queimaram quando subiram ao poder.

A Oeste Nada de Novo
A história de Paul, um jovem soldado alemão e dos seus camaradas, nas trincheiras da I Guerra Mundial. ©Reiner Bajo/Neflix

Curiosamente esta é a primeira adaptação ao cinema em alemão de ‘A Oeste Nada de Novo’: as outras foram produzidas pela indústria de Hollywood, uma realizada por Lewis Milestone — interpretada por Lew Ayres, Louis Wolheim, John Wray, Raymond Griffith e George ‘Slim’ Summerville — e até ganhou o Oscar de Melhor Filme, em 1930; a segunda data de 1979, foi realizada por Delbert Mann e tinha um grande elenco onde se destacam nomes como Richard Thomas, Ernest Borgnine, Donald Pleasence, Ian Holm, entre outros. Esta nova versão, estreada há pouco mais de um mês na Netflix — começou por passar despercebida, como muitas outras coisas boas devido à crónica ‘desarrumação’ da plataforma — é interpretada por um extraordinário elenco de actores alemães com Daniel Brühl à cabeça: Felix Kammerer, Sebastian Hülk, Albrecht Schuch e Anton von Lucke. O filme, procura contar igualmente com a fidelidade possível à obra original, a história do medo e do desespero de Paul (Kammerer), um jovem soldado alemão e dos seus camaradas, que combateram e muitos morreram inutilmente, nas trincheiras da frente oeste, durante a Primeira Guerra Mundial.

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Paul Bäumer, ainda um jovem estudante do ensino secundário, é levado pelos discursos patrióticos do seu professor e acaba por se oferecer como voluntário, sem saber o que o espera, a servir como soldado na Primeira Guerra Mundial. E com isso vai aprender o que a significa a guerra, na linha de frente. A brutalidade do conflito é assim contada do ponto de vista de Paul Bäumer, interpretado pelo excelente e expressivo Felix Kammerer. O filme não pretende nem ser uma acusação, nem uma confissão. Simplesmente mostra a crueldade da guerra, a insensatez das altas esferas de poder e militares, de como centenas de milhares de homens foram sacrificados num conflito absurdo e brutal. É efectivamente sujo e brutal, sobretudo nas muitas cenas corpo a corpo, cheias de golfadas de sangue e lama, por toda parte. O filme de Berger é muito realista e duplamente arrepiante, tendo em conta até os atuais desenvolvimentos da Guerra na Ucrânia: basicamente, a história não mudou nada. Há cem anos, os jovens iam para a guerra persuadidos por demagogos populistas ou através de meios de propaganda ou manipulação e iam com o maior dos entusiasmos dar o corpo às balas.

A Oeste Nada de Novo
Os horrores da guerra e a dura realidade dessa experiência limite são marcantes neste filme pesado. ©Reiner Bajo/Neflix

No entanto, Berger expande o ainda o filme com um fio narrativo que efectivamente não aparece no livro: as negociações de paz entre alemães e franceses, o Armistício realizado num comboio com as discussões entre os diplomatas alemães — Daniel Brühl que interpreta Matthias Erzberger, curiosamente o Ministro das Finanças da Alemanha de 1919-20  — e os implacáveis altos comandos militares franceses. Esta história verdadeira que aparece em  fundo acaba por aliviar um pouco o espectador do foco, da experiência emocional, e terror dos soldados em combate na linha de frente, diminuindo um pouco a proximidade da guerra e ganhando até suspense. Na verdade, essas negociações no comboio existiram mesmo e foram posteriormente usadas pelos nacionalistas alemães, para culpar Matthias Erzberger e os políticos em geral por terem falhado e perdido a guerra.

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A Oeste Nada de Novo
O filme de Berger é muito realista e duplamente arrepiante, tendo em conta a realidade actual na Ucrânia. ©Reiner Bajo/Neflix Bajo

Aliás, contra a vontade dos militares alemães, que insistiam na possibilidade de uma vitória, o que obviamente não correspondia à realidade. Essa posição acabou de certo modo, por influenciar o futuro e dar origem à Segunda Guerra Mundial. No entanto, as imagens de ‘A Oeste Nada de Novo’ de Edward Berger impressionam sobretudo pela sua encenação realista, o seu imediatismo e principalmente pela sua actualidade, às vezes até difíceis de suportar. ‘A Oeste Nada de Novo’ é de facto um filme pesado e duro. Porém, depois da nomeação nos Golden Globes 2023, o filme do cineasta nascido em Wolfsburg,  Edward Berger, é também o representante da Alemanha — com o titulo internacional de ‘All Quiet on the Western Front’ — na corrida aos Oscar, na categoria de Melhor Filme Internacional. Ainda não foi nomeado, está na longa lista, mas tudo leva a crer que vai lá chegar!

A Oeste Nada de Novo, em análise

Movie title: Im Westen Nichts Neues

Movie description: ‘A Oeste Nada de Novo’, de Edward Berger, quando Paul, de 17 anos, se junta à Frente Ocidental na Primeira Guerra Mundial, o seu entusiasmo inicial é abalado pela dura realidade da vida nas trincheiras e nos campos de batalha.

Date published: 23 de November de 2022

Country: Alemanha, Reino Unido, EUA

Duration: 147 minutos

Director(s): Edward Berger

Actor(s): Daniel Brühl, Felix Kammerer, Albrecht Schuch, Aaron Hilmer

Genre: Drama, Guerra, 2022,

  • José Vieira Mendes - 80
80

CONCLUSÃO:

‘A Oeste Nada de Novo’ é um filme realizado e co-escrito por Edward Berger e esta a nova produção feita a partir da obra de Eric Marie Remarque, volta a adaptar a história de um jovem soldado alemão na Primeira Guerra Mundial. Paul e os seus camaradas assistem na linha da frente à forma como a euforia inicial do combate, se vai transformar num pesadelo de desespero e medo. Os jovens soldados alemães vão ter de lutar pelas suas vidas nas trincheiras e nos campos de batalha, onde serão confrontados com os horrores da guerra e a dura realidade dessa experiência limite. As imagens de ‘A Oeste Nada de Novo’ impressionam sobretudo pela a sua encenação realista, imediatismo e atualidade, às vezes até são difíceis de suportar. ‘A Oeste Nada de Novo’ é de facto um filme pesado, mas muito bem interpretado por um conjunto notável de jovens actores.

JVM

Pros

A notável interpretação dos actores, a encenação realista, suja e manchada de sangue e depois logo a inevitável actualidade do tema se o associarmos à Guerra na Ucrânia.

Cons

São quase 2 horas e meia, em que raramente o espectador descansa do realismo sangrento dos combates,  tornando-o filme bastante ‘pesado’ e duro.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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