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Jane por Charlotte, em análise

A conhecida actriz Charlotte Gainsbourg em ‘Jane por Charlotte’, transformou-se em realizadora, para dirigir um documentário excelente, comovente e pessoal, sobre a lendária Jane Birkin e a relação delas de mãe-filha.

Em ‘Jane por Charlotte’, de Charlotte Gainsbourg é um documentário que combina filmagens antigas e actuais, filmes de super 8 e de telemóvel, fotografias e entrevistas para criar um extraordinário e tocante retrato da relação mãe-filha com Jane Birkin, num filme que tem pouco de biográfico e muito mais de ligações emocionais e afectivas. A recente luta da sua mãe Jane Birkin contra um cancro, parece ter levado Charlotte Gainsbourg a fazer este retrato íntimo e catártico do ponto de vista dos afectos, apresentado na nova secção de Estreias do Festival de Cannes, em Maio passado. A actriz, que se estreia como realizadora, não perde tempo fornecendo factos e detalhes biográficos entre elas as duas. O principal objectivo do filme é dar uma oportunidade a Charlotte Gainsbourg de ‘olhar para si mãe (Birkin) de uma maneira que nunca ousei antes’.

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Quem pensar também que ’Jane por Charlotte’ é um documentário biográfico ou antológico, sobre a grande diva que foi Jane Birkin e que relata a sua complicada vida, os seus amores e excessos, acredite que este filme é exactamente o oposto. A esse propósito há aliás, vários livros sobre a atribulada vida da famosa super-estrela: além de ‘Os Diários de Monkey 1957-1982’, foi publicada entretanto, mais uma fascinante auto-biografia, intitulada ‘Post-scriptum: Le journal intime de Jane Birkin 1982-2013’, onde ela relata apesar da sua incontestável beleza e esplendor de outros tempos, os seus arrependimentos e inseguranças, incluindo como se sentiu na semana em que seu ex-companheiro Serge Gainsbourg (o pai de Charlotte, de que já estava separada), e o seu próprio pai morreram; bem como viver com o desgosto da morte da sua filha mais velha precisamente em 2013, a fotógrafa Kate Barry — filha do compositor John Barry, autor de várias bandas sonoras de 007 James Bond — devido a uma queda do quarto andar do prédio — suicídio por causa de excesso de anti-depressivos — no qual morava em Paris. O filme começa com um concerto no Japão onde Birkin canta ‘Those little things I got from you’, agradecendo a Serge Gainsbourg, enquanto fala para uma assistência ávida com a sua presença e a filha e a neta Jo a observam dos bastidores. A partir daí, fica como definido o tom do filme, que pressupõe que os espectadores já tenham algumas informações, sobre o relacionamento entre Jane Birkin e Charlotte Gainsbourg, — sempre foram mais distantes, do que as outras filhas de Birkin, Kate Barry ou Lou Doillon — para melhor entender essas referências. A primeira pergunta que Charlotte faz à mãe parece um tanto abstrata e egocêntrica, forçando-a questionar-se sobre a sua relação com ela própria, ‘a filha do meio’, que de alguma forma como já se disse, foi diferente da das outras duas filhas. A questão é colocada de uma forma muito inteligente pois permite que Jane desfaça todos os equívocos de Charlotte em relação a Kate e à sua filha mais nova, Lou Doillon. Acima de tudo, permite que a própria realizadora revele também alguns dos seus fantasmas, bem como saber pela boca da mãe, informações sobre si mesma que desconhecia, sem serem ditas abertamente ou tornar-se ela o centro das atenções, no filme; o protagonismo é claramente focado na sua mãe.

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Porém, o filme é tanto sobre a actriz-cineasta, quanto sobre a sua lendária mãe, focando-se sobretudo sobre os laços (mais fortes ou mais fracos, conforme os períodos da vida de ambas — que as unem. As questões são sempre colocadas de uma forma íntima e ao estilo de conversa informal, envolvendo os espectadores, ao ponto de sentirem que estão participando numa conversa privada ou num jantar de família, em vez de uma entrevista ou uma vulgar peça jornalística. Entretanto, o filme muda-se para Nova York, onde Birkin está a fazer um espectáculo e onde Charlotte está a viver temporariamente. Nos camarins, testemunhamos as suas profundas reflexões sobre a ansiedade e o medo do palco. ’Jane por Charlotte’ volta novamente a mudar a direcção para Paris, para o apartamento da rua de Verneuil , onde a realizadora leva sua mãe a visitar a antiga casa de seu pai Serge, que Birkin não visita há cerca 30 anos. O apartamento está atafulhado de peças, e mais parece um museu ou um santuário à memória de Gainsbourg. Obviamente tudo aquilo desperta às duas muitas memórias e traumas antigos. É um dos grandes momentos de intimidade e de emoção do filme, que nos leva também a nós a uma viagem ao passado e ao ‘Universo Gainsbourg’. De acordo com um comentário feito logo à partida pela realizadora, tanto ela, como a sua mãe são pessoas humildes e simples e por isso, ambas recusam-se a enaltecerem o que fizeram ao longo de suas carreiras. Jane Birkin fala sobretudo sobre a passagem do tempo, o envelhecimento a sua normal convivência com as rugas e sobre aquilo que é necessário para combatê-las, além de como sua condição física mudou nos últimos dois anos, após lhe ter sido diagnosticado o cancro.

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Jane por Charlotte
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Charlotte vai tirando belíssimas fotografias a preto e branco, à sua sempre fotogénica mãe, enquanto o filme consegue manter um extraordinário interesse visual, mudando de cenário constantemente; e ao mesmo tempo apresentando ambas, mãe e filha, fazendo coisas juntas ou convivendo com a família (com a filha Jo, de Charlotte e do marido Yvan Attal, que as acompanha quase sempre), em vez de estarem num frente-a-frente de entrevista ou a conversarem sozinhas à mesa. É muito interessante ver como uma super-estrela, na sua desarrumada e caótica — ela tem perna de deitar fora, coisas que lhe despertam memórias,— casa de férias da Bretanha, durante umas férias de Natal, com Birkin fazendo tarefas quotidianas como cozinhar, jardinagem ir às comprar ao comércio local ou a brincar com seus netos. A conversa final é talvez, também uma das mais interessantes do ponto de vista biográfico: ambas, mãe e filha estão deitadas, numa velha cama de ferro envolvidas em lençóis brancos, quando Birkin revela a sua longa dependência em comprimidos para dormir — desde pequena que têm insónias — e também do álcool, explicando como seu estado mental muitas vezes, moldou os seus sentimentos sobre seus relacionamentos com os três homens (John Barry, Serge Gainsbourg, Jacques Doillon) com quem teve filhos. Depois disso há um momento final que resume o filme e o seu desejo de pôr ambas mãe e filha em paz com elas próprias. É comovente, observar com Charlotte faz uma declaração de amor à sua mãe. É  lindíssima tanto em termos de conteúdo como da forma como a faz: uma longa cena da sua mãe ao longe na praia da Bretanha em frente a casa, aproximando-se cada vez mais, e a sua voz baixa, parcialmente encoberta pelo som das ondas e da música. A Charlotte mostra simultaneamente o seu desejo de estar mais perto, o seu amor filial e a dificuldade em falar sobre esse amor. Brilhante! ’Jane por Charlotte’ é um documentário confessional, muito bonito e mais um daqueles filmes que qualquer um de nós gostaria de fazer sobre os nossos progenitores e sobre as suas memórias para a posteridade.

JVM

Jane por Charlotte, em análise
Jane por Charlotte

Movie title: Jane par Charlotte

Movie description: Em ‘Jane por Charlotte’, de Charlotte Gainsbourg é um documentário que combina filmagens, fotografias e entrevistas para criar um extraordinário retrato da relação mãe-filha com Jane Birkin, num filme que tem pouco de biográfico e muito mais de ligações emocionais e afectivas.

Date published: 6 de March de 2022

Country: França, 2021

Duration: 88'

Director(s): Charlotte Gainsbourg

Actor(s): Jane Birkin, Charlotte Gainsbourg, Jo Attal

Genre: Documentário

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  • José Vieira Mendes - 75
75

CONCLUSÃO

Charlotte Gainsbourg revela-se assim além de uma extraordinária actriz e fotógrafa, uma realizadora de cinema com um enorme potencial, sobretudo com este filme ‘Jane por Charlotte’ que é muito mais do que um documentário biográfico, para alimentar a nostalgia dos admiradores de Jane Birkin. 

Pros

O tom de conversa informal e familiar, dando a ideia de participação aos espectadores.

Cons

a falta de informação ou referências à partida sobre esta (muito) especial relação mãe-filha.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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