Najwa Nimri é Alicia Sierra uma das novas personagens da série | © Netflix

La Casa de Papel, terceira temporada em análise

Depois do sucesso das primeiras duas partes, “La Casa de Papel” está de regresso para a penúltima parte. Será que a entrada da Netflix para a produção fez com que a série ganhasse qualidade técnica mas perdesse em conteúdo? Teria Álex Pina composto uma terceira e quarta parte se a série tivesse ficado na Atresmedia?

Atenção, esta crítica contém alguns spoilers!

No início de 2018, “La Casa de Papel” andava nas bocas do mundo. Não existia no planeta quem não cantarolasse o famoso Bella Ciao. Agora, quase um ano e meio depois, o Professor e o seu bando querem começar uma revolução. O problema é que talvez tenha sido uma revolução ‘muito segura.’

A terceira parte começa com a pandilha nos respetivos destinos paradisíacos, onde supostamente gozam dos lucros do maior roubo da história. No entanto, existe sempre um patinho feio e aqui ele continua a ser Tóquio (Úrsula Corberó). Se a sua existência tivesse uma música, esta seria sem sombra de dúvida “Estou Além” de António Variações. Portanto, não contente com a sua ilha de mar azul e areia branca, Tóquio decide acabar com Río (Miguel Herrán) e regressar à civilização. O problema, como era de esperar, é que o jovem, depois de chorar baba e ranho, aceita a decisão, mas não antes de entregar um telemóvel descartável e (supostamente) impossível de localizar. E assim se dá o pontapé de saída para esta nova temporada, que não envolve um novo atraco, mas sim uma revolução!

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Acontece que o dito telemóvel, comprado no mercado negro com a ajuda de Helsinki (Darko Peric), acendeu todos os radares e mais alguns, iniciando a caça ao homem. Río é então preso e torturado e Tóquio vê-se obrigada pedir ajuda ao Professor, que prontamente ativa o resto do grupo. Aliás, o cabecilha parece que estava a aguardar este momento – ou desculpa – para vingar a morte do seu irmão, Berlín (Pedro Alonso). Portanto, Tóquio só lhe fez um favor. Depois de reunir la Familia, ao estilo de “Velocidade Furiosa,” o novo plano é explicado: roubar o ouro do Banco de Espanha e, pelo meio, resgatar Río.

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Desta vez, não se trata de dinheiro, mas de família. | © Netflix

Até aqui ainda podemos estar curiosos e com alguma adrenalina, mas esta rapidamente se esgota com o avançar dos episódios. Conheces o ditado “em equipa vencedora não se mexe”? Pois bem, é um isso que aconteceu com nova temporada de “La Casa de Papel.” Porém, aqui não o dizemos no sentido positivo. Parece que Álex Pina se limitou a copiar todos os elementos de sucesso das primeiras duas partes, apesar do orçamento reforçado. Ou seja, muitas das cenas tornaram-se previsíveis e, sem o fator surpresa, a série perdeu muito. O ‘truque’ sempre foi terminar os episódios com um cliffhanger, o qual por sua vez desencadeava o chamado binge-watching (visualização compulsiva), uma vez que os restantes episódios estão ali, à nossa mercê (um dos problemas/vantagens da Netflix, dependendo da perspetiva). No entanto, nesta temporada, Pina abusou desse elemento.

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Dos oito episódios, só os dois últimos é que realmente têm algum conteúdo. Os restantes são literalmente “para inglês ver,” ou não fosse “La Casa de Papel” a série em língua não inglesa mais vista. Cada episódio tem cerca de 45 min., sendo que só nos últimos 10 a 5 min. é que se desenrola algum tipo de ação, levando à curiosidade para o capítulo seguinte. Para contrabalançar a falta de narrativa, existe de facto uma boa banda-sonora, protamente disponibilizada no Spotify. A verdade, é que o próprio criador nunca projetou uma terceira ou quarta parte. A história do Professor e do seu grupo de assaltantes era suposto ser como ao seu assalto: um evento sem precedentes. No entanto, com a entrada da Netflix, a série não só reformulou o seu formato (ex. duração dos episódios), como também o rumo da narrativa.

Lógico que, se vamos assistir a um novo assalto/revolução e tendo em conta que dos oito membros originais apenas restam seis, existiu uma necessidade de adicionar elementos novos à história e consolidar os membros femininos que se decidiram juntar à festa dos 2.4 mil milhões de euros. Como tal, e começando por estas últimas, temos a ex-inpetora Raquel Murillo (Itziar Ituño), que agora dá pelo nome de Lisboa, e Mónica Gaztambide (Esther Acebo), agora Estocolmo. Somos ainda apresentados a Bogotá (Hovik Keuchkerian) e Palermo (Rodrigo de la Serna), as novas adesões à pandilha. No entanto, a ‘galinha dos ovos de ouro’ desta temporada não se encontra do lado do Professor, mas sim da polícia. Falamos claro da inspetora Alicia Sierra (Najwa Nimri), o melhor da terceira parte.

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Alicia é uma negociadora muito grávida, calculista e intimidante, que de certa forma ocupa o lugar de Raquel, só que ao contrário desta, não tem medo, nem olha a meios para fins. É a única que consegue jogar no mesmo tabuleiro que o Professor e que, muito possivelmente, lhe ganharia. Esta dinâmica apenas perde por o espectador saber de ante-mão o que está realmente a acontecer, algo que não acontecia nas primeiras partes. Se te recordares, muitos dos esquemas só eram desvendados quando Raquel se apercebia deles. O único momento que realmente levanta a dúvida, é a cena com Lisboa no último episódio. Ituño, que interpreta a ex-inspetora, não consegue atingir a mesma presença que nas primeiras duas partes, mas não deixa de proporcionar uma boa evolução à sua personagem. Infelizmente, o mesmo já não podemos dizer das personagens de Corberó (Tóquio) ou Morte (Professor). Talvez pelo próprio argumento estar a jogar pelo seguro, ambos personagens estão um tanto ao pouco estanques, não trazendo nada de novo à série. O Professor parece que perdeu a sua essência e, por consequência, Morte já não tem a mesma capacidade de nos prender ao ecrã.

La Casa de Papel 3
Helsinki e Nairobi protagonizam alguns dos melhores momentos de “La Casa de Papel” | © Netflix

Por outro lado, Alba Flores deu-nos uma Nairobi absolutamente brilhante. Não é que nas temporadas anteriores não o fosse, mas agora teve a oportunidade de a explorar com “E” grande. O elemento responsável pela contagem do dinheiro e por garantir a qualidade do produto, faz parte do triângulo amoroso desta temporada: Nairobi – Helsinki – Palermo. Sendo este último obcecado pelo falecido Berlín, dificulta um pouco a vida a Helsinki, que está completamente perdido de amores. Aliás, é daqui que surge o (nada feliz) novo tema Boom Boom Ciao, a tentativa de Palermo explicar que os gays preferem os casos de uma noite. De igual forma, é este novo personagem que assume o lugar de Berlín dentro do Banco de Espanha. Contudo, Rodrigo de la Serna não consegue ter a mesma presença que Pedro Alonso.

Berlín, Palermo e o Professor, as mentes por detrás do novo assalto | © Netflix

De igual modo, também não nos poderíamos referir a “La Casa de Papel” sem falar de Arturito (Enrique Arce)! O ex-diretor da Casa Nacional da Moeda de Espanha é agora uma verdadeira uma celebridade, um herói da nação e um homem novo (muito mais elegante e aprumado). É com ele que a terceira temporada abre, numa palestra sobre não nos deixarmos tornar reféns de nada. É a ele que a polícia também recorre numa tentativa de perceber quem poderá estar a ocupar o lugar de Berlín, enquanto líder. E que, voluntariamente, acaba por se tornar novamente um refém. A ver vamos se ele não será uma das peças para o grupo do Professor sair inteiro do Banco de Espanha… Ou se não teremos uma nova cidade.

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Em suma, a terceira temporada de “La Casa de Papel” continua a ser divertida e consumida em modo binge-watching pela maioria, mas tornou-se algo previsível, perdendo o seu elemento-chave: a surpresa. Aliás, em comparação com a parte 1 e 2, o nível de buzz também foi muito inferior, apesar de a página de twitter da série já ter agradecido às 34,355,956 contas que, a nível internacional, já viram a nova temporada, tornando-a novamente um dos conteúdos mais vistos.

Esperamos que Álex Pina não tenha tanto medo de sair fora da caixa na quarta parte, que deverá estrear já no próximo ano. Talvez se a preocupação não for tanto utilizar o reforço da Netflix para “que se sinta a magnitude e a credibilidade do que estamos a fazer,” como disse na confirmação da próxima temporada, mas para que “dentro das suas próprias regras [da série],” expressão que também utilizou, tenha liberdade para fazer maior e melhor.

TRAILER | “LA CASA DE PAPEL”

Consideras que esta temporada foi tão boa como as primeiras? Ou concordas com a nossa opinião?

La Casa de Papel - Temporada 3
poster casa de papel

Name: La Casa de Papel

Description: Depois de fugir com um bilhão de euros do FNMT, o professor recebe um telefonema: um dos membros do grupo foi capturado. A única maneira de resgatá-lo e proteger o esconderijo dos outros é reunir todos para realizar um novo assalto, o maior roubo alguma vez pensado.

  • Inês Serra - 65
  • Miguel Pontares - 60
  • Maria João Sá - 55
60

CONCLUSÃO

O MELHOR: Najwa Nimri e Alba Flores. A banda-sonora também merece algum destaque.

O PIOR: A ausência do elemento surpresa, característico das primeiras duas partes. O próprio argumento condicionar a evolução de alguns personagens.

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Comments Rating 5 (1 review)

Inês Serra

Cresci a ir ao cinema, filha de pais que iam a sessões duplas...Será genético? Devoro livros e algumas séries. Fã incondicional do fantástico e do sci-fi. Gostaria de viver todos os dias com o mote Spielbergiano - "I dream for a living"

One thought on “La Casa de Papel, terceira temporada em análise

  • Casa de Papel

    Não concordo. A terceira temporada agarrou – me tanto ou mais que as anteriores
    Uma realização excelente,banda sonora espectacular e óptimos actores Seria de esperar que esta fosse uma desilusão como foi a Guerra dos Tronos,mas pelo contrário, vi a terceira temporada de imediato

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