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Na Praça Pública, em análise

O casal francês Agnès Jaoui/Jean-Pierre Bacri voltam em ‘Na Praça Pública’ para reconstruir, com a ironia que os caracteriza, os pequenos paradigmas e as principais contradições das nossas sociedades modernas.

Desde que estreou o premiado e bem-sucedido ‘O Gosto dos Outros’ (2000), que co-escreveu com Jean-Pierre Bacri, seu cúmplice de sempre, que a cineasta-actriz Agnès Jaoui tem alimentado a paisagem do cinema francês com o seu humor mordaz e desiludido, como agora em ‘Na Praça Pública’, que teve uma antestreia na 20ª Festa do Cinema Francês. E isso assenta na sua capacidade única de observar e dissecar o comportamento dos seus concidadãos, os franceses, mas ao mesmo tempo conferindo a cada um dos seus filmes uma reconhecida dimensão universal e humana. Contudo, a antes disso a realizadora já tinha uma enorme carreira como dramaturga, argumentista e actriz, trabalhando entre outros com Patrice Chéreau, Cédric Klapisch ou Alain Resnais, com quem obteve aliás um Cesar para Melhor Actriz Secundária em É Sempre a Mesma Cantiga (1997). O brilhante argumento deste filme, bem como o de ‘Fumar, Não Fumar’ (1993), são de Jaoui e Bacri e os dois guiões acabaram por ganhar o Cesar para Melhor Argumento. Cinco anos depois do incontornável E Viveram Felizes Para Sempre…? (2013) a dupla regressa com a mesma energia (e quase com a mesma ideia de base) que tiveram nessa história de dois amigos cujos ideais se foram desintegrando ao longo do tempo, na busca da glória e poder, no meio de questões como o choque geracional, a luta de classes e a imigração.

Praça Público
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Neste ‘Na Praça Pública’, Castro (Bacri), é uma estrela de televisão, que se tornou num líder de audiências em declínio. Certo dia Manu (Kévin Azaïs), o seu motorista privado leva-o a uma festa de inauguração de Nathalie (Léa Drucker), sua amiga e produtora de longa data, que se mudou para uma bela casa nos arredores rurais de Paris. Hélène (Jaoui), irmã de Nathalie e ex-mulher de Castro, também é convidada. Quando eram jovens, ambos partilharam dos mesmos ideais, mas o sucesso insuflou Castro de um imenso pragmatismo (ou melhor, cinismo), enquanto Helen parece ter permanecido fiel aos seus ideais humanistas. A filha deles, Nina (Nina Mareuil Castro), que escreveu um livro livremente (ou indiscretamente) inspirado na vida de seus pais, junta-se também a esta festa. Castro assiste impotente (e aparentemente indiferente) à queda inexorável das audiências do seu talk show e Helene tenta desesperadamente impor-lhe uma refugiada afegã como convidada no seu programa de televisão. Enquanto isso, a festa vai decorrendo entre copos e canções de amor…

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TRAILER DE ‘PRAÇA PÚBLICA’

A Na Praça Pública não é o tradicional ponto de encontro na cidade ou um programa de televisão de debate, mas antes um belo jardim privado permanentemente ligado às novas tecnologias que se vai tornar numa espécie de local de encontro social, político e económico de um grupo de personagens-tipo. É assim, que se reunem a uns quilómetros de Paris (trinta minutos por auto-estrada, algo que é insistentemente frisado pela proprietária), um grupo de personagens numa bela casa de campo pertencente a uma amiga de Castro: a impecável Léa Drucker, no papel de uma produtora que passa a vida com o telemóvel preso ao ouvido e cuja a frágil silhueta e o seu jeito de ‘loira agitada’, imersa de um cinismo totalmente assumido e sem escrúpulos. Estes são alguns bons exemplos de um tipo parisiense pretensioso (Boubou), que contrastam largamente com a simplicidade e modo de vida da população local (são estes que acabaram por dar origem aos ‘coletes amarelos’, por oposição aos privilegiados da cidade); enquanto isso um jovem youtubeur (o rapper Yvick Letexier, também conhecido como Mister V) muito seguro de si, parece ter democratizado o acesso à celebridade, contrastando com um apresentador de televisão em decadência, que se considera ainda genial e moderno. Se a personagem de Jaoui anima a festa com a petulância e jovialidade dos seus cinquenta anos e uma forma de estar que insiste em não por fim às suas batalhas humanitárias; pelo contrário Castro/Bacri (de peruca e olhos cavados, mas sempre escondidos atrás dos óculos escuros) mostra posturas juvenis, uma falsa e algo desadequada elegância para a sua idade.

Praça Pública
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Depois há um conjunto de atores notável que complementa a dupla Joui/Bacri, numa lista dos que igualmente o veterano Alain Resnais, escolhe para os seus filmes: Kévin Azaïs, um dos novos valores do cinema francês que traz sua parcela de autenticidade a um motorista que mostra uma amizade fingida, ou a bela luso-descendente Héléna Noguerra (irmã da cantora Lio), em Vanessa, que encontra aqui talvez um papel à sua elegante medida (e quase a fazer de si própria), como jovem namorada de Castro (Bacri). O discurso de ‘Na Praça Pública’ é quase sempre de passagem, passando de um espaço para outro, mantendo os personagens numa constante interacção, dando vida a um grupo de pessoas com diversas e diferentes aspirações, e, que se situam entre a benevolência e sarcasmo, entre a vaidade e o egoísmo. No fundo trata-se de uma comédia humana bem conhecida de todos nós, onde todos os personagens procuram, acima de tudo afirmar-se socialmente, nem que seja às custas dos outros. Mas tudo é construído com uma genial elegância e subtileza.

Praça Pública
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‘Na Praça Pública’ foi escrito durante o período pré-eleitoral em França em 2017, quando os extremos pareciam estar a subir nas sondagens e começavam a nascer no ar as primeiras reivindicações dos ‘coletes amarelos’ e a luta do campo contra a cidade e quando a esquerda caía e a direita se afundava na crise. Por isso,  ‘Na Praça Pública’ é um filme coral que mostra de certo modo o desencantamento de uma geração pós-sessenta e oito que acreditava ter erradicado todo o tipo de demónios: capitalismo, conflitos sociais, descriminação racial e repressão sexual. Usando uma ironia sempre desprovida de julgamento e uma malícia às vezes com um toque de romantismo, para testemunhar um certo tempo do amor livre, este conjunto de personagens acaba no fundo por mostrar-nos um otimismo terno e sedutor. Escolhendo encerrar a sua história com uma reviravolta, surpreendente, tornando-se numa espécie de conto de fadas social e numa inteligente comédia romântica.

JVM

Na Praça Pública, em análise

Movie title: Place Publique

Date published: 19 de October de 2019

Director(s): Agnès Jaoui

Actor(s): Agnès Jaoui, Jean-Pierre Bacri, Léa Drucker, Kévin Azaïs, Héléna Noguerra.

Genre: Comédia, Drama, 2018, 99 min

  • José Vieira Mendes - 80
80

CONCLUSÃO:

O filme para ver mais do que uma vez tal é a riqueza dos personagens e aquilo que eles representam no mundo de hoje e com o que todos nos identificamos.


O MELHOR:
Os diálogos e sobretudo a irónica e azeda personagem de Castro (Jean-Pierre Bacri).

O PIOR: Não sendo negativo, por vezes o ritmo de interacção é tão rápido que torna-se difícil de acompanhar.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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