Narcos, terceira temporada em análise

Contra todas as probabilidades. Depois de duas temporadas em que Wagner Moura sugou todas as atenções e elogios para si, “Narcos” disse adeus ao seu protagonista e ao seu antagonista… e o resultado final foi a melhor temporada até à data.

A reconstrução da ascensão ao poder de Pablo Escobar (Wagner Moura) e respetiva queda fez de “Narcos” uma das séries mais sólidas e consistentes do portefólio Netflix. Numa ficção com laivos de documentário, as duas primeiras temporadas desenvolveram um frente-a-frente entre Escobar e o agente da DEA, Steve Murphy (Boyd Holbrook). O que, por força do maior carisma e brutal desempenho do ator brasileiro, elevou o vilão a anti-herói. Na sombra de Murphy, o Javier Peña de Pedro Pascal fora durante este trajeto a figura nº 3. O sidekick de Murphy.

Quando a segunda temporada terminou com a morte de Don Pablo, era fácil temer que o adeus de Wagner Moura ditasse também o fim dos dias solarengos da série. Mas não. A nova temporada de “Narcos”, que estreou na Netflix no início deste mês e que conta com o português Pêpê Rapazote, virou tudo do avesso. Pedro Pascal – o Oberyn Martell de “Game of Thrones” – colocou o pé um degrau acima e assumiu-se como o novo protagonista, numa temporada que se multiplicou em subplots bem interligados, distribuindo atenções e relevo por um maior número de intervenientes. Destituído o cartel de Medellín, o cartel de Cali emerge colocando debaixo dos holofotes os seus quatro sócios. Os irmãos Rodríguez Orejuela, Gilberto (Dimán Alcázar) e Miguel (Francisco Denis), Pacho (Alberto Ammann) e Chepe (Pêpê Rapazote).

Narcos Cali

Na sua temporada com melhor escrita e realização, “Narcos” deixa de ser uma simples representação do bem contra o mal (embora Murphy e Escobar fossem moralmente acinzentados pelos autores) ao acrescentar um POV muito importante e novo. Jorge Salcedo (Matias Varela), o chefe de segurança do cartel de Cali. Uma personagem que, com total naturalidade e sem esforço algum, garante o espectador ao seu lado. Torcendo e sofrendo por ele e com ele à medida que a ação progride.

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Seis meses. No primeiro episódio, “The Kingpin Strategy”, Gilberto Rodríguez define um prazo até à retirada de cena do cartel de Cali. Amealhar o máximo possível num all-in de meio ano, que dita simultaneamente o tempo que Peña e a DEA têm para encontrar e capturar os quatro patrões. Quatro tentáculos – um dos irmãos a questionar a legitimidade para liderar do outro, Pacho exilado no México, e o “nosso” Chepe a desenvolver a atividade nos EUA.

Narcos Pedro Pascal

Conseguindo momentos de tensão – extraordinária realização sobretudo de Andi Baiz e Fernando Coimbra – que não deixam ninguém respirar e que forçam o consumo compulsivo da série, esta temporada de “Narcos” assemelha-se a “The Wire” na forma como consegue mostrar toda a teia, todo o jogo. Para que isso resulte, utiliza os quatro primeiros episódios como recapitulação, apresentação e contextualização. E de “Checkmate” (episódio 4) em diante sucedem-se os momentos de ímpar intensidade.

A sequência de episódios “Sin Salida”, “Convivir” e “Todos Los Hombres del Presidente” (7, 8 e 9) eleva esta temporada a uma das melhores de 2017. E o derradeiro “Going Back to Cali” serve como resolução e lançamento do próximo capítulo (México?).

Narcos Miguel

Numa narrativa coerente, aditiva, surpreendente e com maior predominância do idioma espanhol comparativamente com as temporadas 1 e 2, todo o elenco merece um elogio pelas dinâmicas criadas e pelo equilíbrio que permite a todos brilhar. É orgânico criar empatia por Pedro Pascal, o que o torna um protagonista mais adequado do que Holbrook. E tanto Pacho como os irmãos Rodríguez dão sequência ao bom trabalho desenvolvido anteriormente, embora com muito maior peso. Já Pêpê Rapazote como Chepe é motivo de orgulho nacional. O ator português de 47 anos, que já se aventurara em “Shameless”, encaixa na perfeição no ambiente de “Narcos”. Ganhou certamente mercado e é particularmente notável o que Pêpê conseguiu fazer com menos tempo de ecrã do que merecia.

Francamente, ninguém nesta temporada se equipara ao portentoso desempenho de Wagner Moura nas duas anteriores. Mas aquilo que se perdeu com o difícil e obrigatório sacrifício do individual, contribuiu para o coletivo. Impossível, ainda assim, não sentir saudades de Escobar em alguns instantes. Sobretudo ao estranhar e entranhar vários elementos do universo renovado nos primeiros episódios.

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Com Andrea Londo e Taliana Vargas a embelezar o narcotráfico colombiano (o défice de desenvolvimento nas personagens femininas é um facto irrefutável, infeliz mas compreensível), este assumir de primeiro plano do cartel de Cali inclui ainda atores com alguma reputação como Miguel Ángel Silvestre (“Sense 8”) e Kerry Bishé (“Halt and Catch Fire”). E neste empowerment até elementos inicialmente supérfluos como a dupla de agentes van Ness e Feistl (Matt Whelan e Michael Stahl-David) crescem a todos os níveis.

Narcos Jorge Salcedo

E é tão instantâneo considerar o filho de Miguel, David, abominável como Jorge Salcedo o subplot mais interessante de todos. Matias Varela, ator sueco filho de pais espanhóis, revoluciona “Narcos” como o intruso num baralho de cartas viciado. Ser-nos dada a perspetiva do chefe de segurança do cartel foge ao hábito de deixar tudo preto e branco. Inteligente da parte de Chris Brancato, Carlo Bernard e Doug Miro dar destaque a um homem de família, moralmente puro que, até virar infiltrado, tudo faz para defender os seus empregadores. Refém do inferno ao qual deseja escapar.

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Ao sair da sombra de Pablo Escobar, “Narcos” apanhou tudo e todos de surpresa com uma das melhores temporadas deste ano televisivo. Quando muitos questionavam a razão de existir uma vida para a série além de Wagner Moura, os autores desafiaram a lógica e esculpiram uma temporada ao nível do melhor que a Netflix já nos deu desde 2013.

O próximo ano obrigará esta equipa a partir do zero novamente. Com outra pressão. O regresso de “Narcos” será pois um dos eventos mais aguardados nas séries de 2018. Conseguirão Brancato, Bernard e Miro atingir o realismo mágico outra vez? Provavelmente sim.

TRAILER | A melhor temporada de “Narcos” tem Pêpê Rapazote

Concordas que esta temporada de “Narcos” foi superior às duas primeiras? O que achaste do trabalho do português Pêpê Rapazote?

Narcos - Temporada 3
Narcos poster

Name: Narcos

Description: Depois da morte de Pablo Escobar, o agente Javier Peña (Pedro Pascal) vira atenções para o cartel de Cali, liderado pelos irmãos Rodríguez, Pacho e Chepe.

  • Miguel Pontares - 88
88

CONCLUSÃO

O MELHOR - Quando parecia impossível, Narcos tornou-se ainda melhor mesmo depois de perder o seu antagonista e porta-estandarte, e mudar o protagonista. A escrita e realização elevaram a fasquia, todas as personagens têm importância e o seu espaço, e os momentos de tensão sucedem-se, não deixando respirar e forçando o consumo compulsivo. Jorge Salcedo é uma personagem extraordinária, e o português Pêpê Rapazote um dos destaques da temporada.

O PIOR - Nada a apontar, embora nos primeiros episódios seja natural e involuntário sentir saudades do Pablo Escobar de Wagner Moura.

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Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.

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