Síndrome de Estocolmo | © Filmes4You

Síndrome de Estocolmo, em análise (II)

O canadiano Robert Budreau, realizou ‘Síndrome de Estocolmo’ um filme maravilhosamente interpretado por Ethan Hawk e Noomi Rapace, que oscila para a comédia e, que conta a bizarra história que deu origem ao termo psicológico Síndrome de Estocolmo.

Estamos  em 1973, na Suécia, e na primavera desse ano passava na televisão sueca os seis episódios de ‘Cenas de Um Casamento’ de Ingmar Bergman drenando o espírito de uma sociedade paradigmática, aparentemente aberta mas ao mesmo tempo com uma faceta fortemente conservadora e calvinista. É neste contexto que se desenvolve a história de ‘Síndrome de Estocolmo’, um filme dirigido pelo realizador canadiano Robert Budreau (‘Born To Be Blue’, 2015), que se têm algo de Ingmar Bergman talvez não seja pura coincidência. No entanto, ‘Síndrome de Estocolmo’ não é sobre o relacionamento e a sexualidade de um casal, mas antes sobre um criminoso simpático e meio-maluco chamado Kaj Hansson (Ethan Hawke), que estranhamente se cruza com Bianca Lind (Noomi Rapace), uma funcionária de um banco no centro de Estocolmo, quando este entra de longa cabeleira postiça, um rádio debaixo do braço e um metralhadora em punho para assaltar a enorme dependência bancária. Bianca, acaba por se tornar a refém principal e o peão das negociações com os poderes constituídos, na tentativa de anular o assalto ao banco e o sequestro. Só que Bianca torna-se muito mais do que a refém principal e o seu relacionamento com o assaltante neste acontecimento de certo modo bizarro vai dar origem aquilo que conhecemos hoje da psicologia como o ‘Síndrome de Estocolmo’. Trata-se de uma complexa questão psicológica que se pode resumir mais ou menos em bom português a: ‘quanto mais me bates mais gosto de ti’. Efectivamente o filme é baseado numa história — publicada aliás em tempo num artigo intitulado ‘The Bank Drama’ de Daniel Lang, na revista New Yorker em 1974 —, mas baseada em factos verídicos. Budreau mantém a estrutura da história praticamente intacta reduzindo o número de reféns talvez por razões de facilitar a produção, e exagerando (mas bem…!) na inspiração vinda do cantor norte-americano Bob Dylan, — por curiosidade recentemente premiado com o Prémio Nobel de Literatura pela Academia Sueca, — na altura um grande símbolo de rebeldia — na Suécia e em todo o mundo — e que cola na perfeição com a extravagante figura de Kaj Hansson (Ethan Hawke). 

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TRAILER DE ‘SÍNDROME DE ESTOCOLMO’

Voltando à história do assalto ao banco, as exigências e intenções de Kaj são estranhamente desproporcionadas, colocando o dinheiro do assalto ao banco em segundo plano. Embora exija um milhão de dólares americanos em dinheiro, duas pistolas, um carro de fuga igual ao Mustang 302, guiado por Steve McQueen em ‘Bullitt’; e por último quer que o seu amigo Gunnar Sorensson (Mark Strong) saia da cadeia e seja levado ao banco, para que possam fugir juntos. Em suma, Kaj é uma daquelas figuras patéticas que aparecem ocasionalmente nos filmes ou na televisão (outros por razões mais trágicas, infelizmente nos telejornais), que acham que merecem pelo menos ter um minuto de fama: um desejo humano relativamente recente que alguns têm, de se tornarem imortais e conhecidos por algo mais do que são na realidade. Tal como acontece com a maioria dos anseios patéticos das personagens dos dramas clássicos, em ‘Síndroma de Estocolmo’ roçamos a comédia, com Hawke a pular para o papel como se estivesse saltando para a sela de um cavalo, com a sua roupa à Lucky Luke.  Um dos grande méritos do filme de Budreau começa logo por ver um actor tão bom e tão versátil com Hawke numa extraordinária interpretação. Se há coisa que neste momento confortaria Kaj na sua situação, seria por exemplo, uma conversa tranquila com o reverendo Toller, o tortuoso e rigoroso personagem tão bem interpretado por Ethan Hawke em ‘No Coração da Escuridão’ (2017), de Paul Schrader.

Síndrome de Estocolmo
Parecia à partida improvável a química entre Ethan Hakwe e Noomi Rapace, mas acaba por funcionar em pleno. | © Filmes4You

Por outro lado, se houver uma mulher que possa abalar e contrastar com a vingativa Lisbeth Salander, trazida à vida em primeiro por Noomi Rapace em ‘Os Homens Que Odeiam As Mulheres’ (2009), será sem dúvida a personagem de Bianca: uma mulher mansa de fisionomia, recatada no vestir, com uns grandes óculos fora-de-moda, através dos quais olha para Kaj, durante os agitados momentos de ameaças de morte do criminoso, que acaba por se deixar fascinar também pela força do olhar da mulher. É nessa troca de olhares, observações fortuitas e desconexadas, que como espectadores sentimos o crescimento do tal Síndrome de Estocolmo, em vez de nos deixarmos levar simplesmente pelo enredo, mais ao menos comum de um clássico filme de assalto a um banco. Gunnar chega, conforme o pedido, escondem-se no cofre do banco, juntamente com Bianca, a sua colega Klara (Bea Santos) e um improvável cliente chamado Elov (Mark Rendall), que estava no local quando o tiroteio começou. Sob a pressão do cerco, a comunhão entre reféns e captores adquire uma nova intensidade. Ambas as partes demonstram uma profunda desconfiança em relação às autoridades no exterior, especialmente em relação ao comissário da polícia (Christopher Heyerdahl), que comanda as operações de resgate. Na verdade, Budreau não se preocupa muito com as figuras secundárias deixa-as pairar. O que interessa são sem dúvida Bianca e Kaj e o seu desenvolvimento no drama, e sua simbiose chega ao rubro quando os dois — a cidadã honesta, bem-casada e com filhos pequenos, e o desesperado à parte dos restantes caem avidamente nos braços um sobre o outro, quase como se tivessem fome de amor.

Síndrome de Estocolmo
É bom ver um actor tão versátil com Hawke numa extraordinária interpretação, com Mark Strong como secundário. | © Films4You

No filme de Budreau, sem praticamente cenários exteriores passa-se no interior do banco, e assistimos ainda e curiosamente a uma Bianca presa, falando ao telefone com o então primeiro-ministro sueco, Olof Palme (Shanti Roney) — mais tarde barbaramente assassinado e que tem alimentado muitas conspirações —, assegurando-lhe que Kaj não é violento. Curiosamente na gravação da conversa original, que constam dos arquivos policiais — e que assistimos numa cena do filme — na verdade uma refém feminina fala com Palme, o então líder da nação, que também se vê de uma forma mediática envolvido nas negociações para a libertação, tratando-se por ‘querida Olof’ e ele a ela por ‘querida’. Nos anos setenta a Suécia era aparentemente um sinónimo de tolerância liberal, mas ainda assim, imagine-se a também mais ou menos por essa altura a sequestrada herdeira rica Patty Hearst que depois se tornou guerrilheira ao serviço dos sequestradores, falando com o Presidente Nixon tratando-o por ‘Dicky, querido’. Ainda assim e apesar das grandes contradições da sociedade sueca foi mais ou menos assim, como no filme de Budreau, que se passou este caso de Estocolmo. Naquele cofre do banco aconteceu um misterioso contágio de almas que se tornou um síndrome. Por mais divertido e absurdo que seja este ‘Síndrome de Estocolmo’,  enão é uma obra-prima do cinema, diverte-nos e deixa-nos sem dúvida um pouco mais sábios, quanto mais não seja em relação à origem teórica do tal ‘quanto mais me bates, mais gosto de ti’. E afinal de contas, vê-mos um filme que também poderia até perfeitamente, pelo seu teor psicológico e obsessivo da relação homem-mulher, uma obra de Ingmar Bergman.

Síndrome de Estocolmo, em análise
Síndrome de Estocolmo

Movie title: Stockholm

Date published: 2019-08-12

Director(s): Robert Budreau

Actor(s): Ethan Hawke, Noomi Rapace, Mark Strong, Christopher Heyerdahl, Bea Santos, Mark Rendall, Ian Matthews, John Ralston

Genre: Drama, Crime, 2018, 92 min

  • Cláudio Alves - 60
  • José Vieira Mendes - 75
  • Catarina Novais - 68
68

CONCLUSÃO:

‘O Síndrome de Estocolmo’ é um drama divertido centrado num absurdo evento, num atrapalhado herói, interpretado por Ethan Hawke, uma espécie de Robin Hood sueco, que o torna muito mais próximo da vertigem da farsa do que do drama de assalto, menos violento e fatal do que por exemplo ‘Um Dia de Cão’, (1975) de Sidney Lumet.

O MELHOR: São absolutamente brilhantes as interpretações de Ethan Hawke e de Noomi Rapace, aliás como a mais do que improvável química entre eles;
.

O PIOR: O pior mesmo é pensar que desta situação tão absurda possa nascer um complexo.

JVM

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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