"Síndrome de Estocolmo" | © Films4You

Síndrome de Estocolmo, em análise

Síndrome de Estocolmo” conta a história de um célebre assalto a um banco, mas torna a trama numa comédia de absurdos e enganos, com Ethan Hawke no centro de tudo.

No dia 23 de agosto de 1973, um homem chamado Jan-Erik Olsson tentou assaltar o maior banco da capital sueca, Estocolmo. Com a ajuda de força bruta e uma arma de fogo, Olsson tomou vários reféns e instalou o pânico em Norrmalmstorg, no centro da cidade. O sequestrador acabou por deixar que várias pessoas saíssem do banco, permanecendo com quatro reféns, e exigiu que o seu amigo e parceiro do crime Clark Olofsson fosse levado ao banco, juntamente com 3 milhões de coroas, várias armas, coletes à prova de bala e um método de fuga rápida.

Segundo o que se sabe, os dois criminosos tentaram evitar episódios de violência com os reféns e até chegaram a cantar com eles, criando um ambiente em que as suas vítimas tinham mais medo das ações da polícia do que dos homens que efetivamente as estavam a aprisionar com a ameaça de uma bala. Ao fim de cinco dias, a situação resolveu-se e ambos os homens foram presos. Ninguém morreu e só mesmo alguns agentes policiais ficaram com feridas de alguma gravidade, mas nada disso é a razão pela qual esta história ganhou fama.

sindrome de estocolmo critica
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A relação peculiar que se gerou entre os reféns para com seus captores foi estudada e apelidada como Síndrome de Estocolmo, uma condição psicológica onde indivíduos cativos sob o controlo de outros se afeiçoam aos agressores que os mantêm presos. Trata-se de uma ligação irracional quando considerada no contexto de uma negação forçada da liberdade individual. Convém dizer, que, hoje em dia, já vários estudiosos e organizações de relevo não aceitam o diagnóstico de Síndrome de Estocolmo como algo medicamente legítimo. Isso não impediu que o termo ganhasse projeção e poder na cultura popular.

Tão célebre é esta ideia de reféns tornarem-se defensores dos sequestradores que é surpreendente que nenhum filme tenha, até agora, sido feito sobre o evento. Já houve alguns esforços de dramatização por parte de pequenas produções da televisão sueca, mas “Síndrome de Estocolmo” de Robert Budreau marca a primeira vez que a história do assalto de Jan-Erik Olsson chega ao grande ecrã. É claro que, sendo este um projeto americano, temos de aceitar algumas boas adaptações do facto histórico. Talvez a alteração mais marcante, neste caso, seja mesmo a personagem principal.

Em “Síndrome de Estocolmo”, o assaltante não é Jan-Erik Olsson, mas sim um sueco que cresceu nos EUA e se comporta como um cowboy rebelde e meio incompetente saído de um western de Hollywood. O seu nome é Lars Nystrom, mas mais valia ser Ethan Hawke. Dizemos isto, pois a figura histórica foi tão radicalmente transfigurada à imagem e estilo de Hawke, que o ator está praticamente a interpretar uma versão da sua persona de estrela de cinema. Isto não é necessariamente uma fragilidade do filme, pois o jogo tonal que Budreau está aqui a desenvolver certamente precisa de uma presença carismática no centro da narrativa, alguém magnético, mais próximo de uma celebridade do que de um criminoso de outros dias.

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O realizador já havia antes trabalhado com Hawke no fabuloso “Born to be Blue” e é na direção do ator que ele mais brilha. Não que tenha havido muita direção. Budreau parece ter dado carta branca a Hawke e simplesmente construiu o filme em volta da sua energia caótica. Um rasgo de violência facilmente se desmancha num pequeno espetáculo de comédia desajeitada, um epíteto de desespero mostra vulnerabilidade, mas também suscita um toque de ameaça genuína. É algo fascinante de ver e é mais ou menos fácil deixarmo-nos levar pelo seu apelo e charme, quase esquecendo a amoralidade das suas ações.

Este jogo de afinidades entre espectador e audiência reflete debilmente a potencial união entre os trabalhadores do banco e os homens armados. Trata-se de uma dinâmica de interesse que se baseia no modo como estamos predispostos a ver este tipo de figura como um herói nas nossas narrativas cinematográficas. Enquanto audiência torcemos por Lars, torcemos pela sua vitória, mesmo que saibamos que está errada e que o que ele está a fazer aos reféns está errado, não obstante quão simpático ele possa parecer.

De certo modo, é pena que Budreau não seja um cineasta mais ambicioso ou disposto a tomar riscos. “Síndrome de Estocolmo” podia ter sido uma perversa e desconcertante exploração destas relações entre espectador e personagem, entre refém e captor, mas o filme nunca se atreve a olhar o seu protagonista com muita incisão. A câmara está sempre distante do seu sujeito, mesmo em grande plano, como se não quisesse violar a pátina carismática com medo das complicações que poderiam surgir se se vislumbrasse o que está por baixo da máscara charmosa.

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No que diz respeito às personagens secundárias, o filme parece ter pouco interesse nelas, mesmo na trabalhadora do banco a que Noomi Rapace dá vida e que se pode considerar como uma coprotagonista. Estas presenças existem para auxiliar o espetáculo que é Ethan Hawke e para forçar os acontecimentos históricos a adotarem a forma de uma comédia de absurdos. O problema é que o humor raramente funciona, a não ser quando se foca na personagem principal e, mesmo aí, os jogos tonais nem sempre resultam. Parte do problema é o estilo aborrecido da obra, uma estética displicente que parece refletir um cineasta que coloca o filme nos ombros do elenco e se esquece que o cinema é uma arte audiovisual.

Não que “Síndrome de Estocolmo” alguma vez seja completamente aborrecido. Mesmo quando parece um telefilme pouco original com um elenco em piloto automático à exceção do protagonista, o filme nunca entedia. Infelizmente, nada disso se deve ao bom trabalho dos cineastas, mas sim à insanidade da história real e seus detalhes rebuscados.  Mesmo estando deturpada, a narrativa factual é tão fascinante que um filme feito à sua base pode ser um poço sem fim de mediocridade sem deixar de entreter o espectador. Oxalá algum dia, outro cineasta pegue nesta história e lhe faça justiça.

Síndrome de Estocolmo, em análise
Síndrome de Estocolmo

Movie title: Stockholm

Date published: 2019-08-07

Director(s): Robert Budreau

Actor(s): Ethan Hawke, Noomi Rapace, Mark Strong, Christopher Heyerdahl, Bea Santos, Mark Rendall, Ian Matthews, John Ralston

Genre: Drama, Crime, 2018, 92 min

  • Cláudio Alves - 60
  • José Vieira Mendes - 75
68

CONCLUSÃO:

“Síndrome de Estocolmo” atreve-se a olhar para um dos assaltos a bancos mais famosos da Europa e a tornar a história numa comédia meio absurda. Ethan Hawke está sempre pronto a oferecer um espetáculo à audiência, mas seria benéfico para o filme ter mais ideias que simplesmente apontar a câmara para o ator principal.

O MELHOR: Ethan Hawke.

O PIOR: Quanto o filme acaba por depender do seu ator principal, desleixando-se noutros aspetos, nomeadamente o rigor formal (ou falta dele) e o elenco de figuras secundárias.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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