Star Wars: Os Últimos Jedi, em análise

O episódio VIII subverte vários dogmas e procura romper em absoluto com o passado. “Star Wars: Os Últimos Jedi” não rentabiliza o tempo e as suas personagens e dá-nos ação com vários momentos épicos, mas menor substância do que seria desejável.

A abrir, uma confidência. Escrever sobre cinema, criticar e avaliar é naturalmente um exercício complexo. Subjetivo. Uma análise que reflete a experiência proporcionada pelo trabalho (neste caso) de milhares. Hoje, a sociedade precisa de classificar tudo, de transformar arte em número, e cada vez mais de escolher um lado.

“Star Wars: Os Últimos Jedi” tem sido bem recebido pela crítica, e dividido abruptamente os fãs. Talvez por consequência das narrativas alternativas que nascem em fóruns, amadurecendo durante dois anos; talvez graças à tendência que temos para tudo extremar – cada vez menos deixamos o filme respirar em nós e, numa cultura de imediatismo, parece só existir a obra-prima e o falhanço, e nada no espaço entre ambos.

Star Wars - Crait
Star Wars: Os Últimos Jedi – Crait

Nunca é fácil escrever sobre “Star Wars”. O motivo é simples: é incomparável a sensação que aquela mítica frase terminada em quatro pontos e substituída depois pelo logotipo da saga e pela inolvidável banda sonora de John Williams provoca. Sentimento misto de antecipação, enquanto corre pelo ecrã um texto que até escrito a Comic Sans seria lenda, e saudade, daqueles VHS da trilogia original.

Quando foi anunciado que Rian Johnson assumiria o episódio VIII, as expectativas dispararam. Era difícil, sem chegar aos Villeneuves e Nolans desta vida, deixar a Força em melhores mãos do que as do responsável por “Brick”, “Looper – Reflexo Assassino” e por um certo episódio de “Breaking Bad”.

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A Força despertou no episódio anterior, e embora fosse notória a colagem a “Uma Nova Esperança”, Abrams soube equilibrar passado e presente. Semeou várias questões (a identidade de Snoke, o passado de Rey, o conflito de Kylo Ren) e fez o espectador preocupar-se com Rey (Daisy Ridley), Finn (John Boyega) e Kylo (Adam Driver). Passaram dois anos, e a Internet multiplicou-se em teorias (sentir-se-ão os realizadores de SW, pós-Lucas, limitados criativamente pelo canon?).

Star-Wars - Luke Skywalker
Star-Wars: Os Últimos Jedi – Luke Skywalker (Mark Hamill)

“Star Wars: Os Últimos Jedi” tem um mérito indiscutível. É um filme com 2h e 32 minutos que não parece longo. Pontuado por um humor que nem sempre acerta nos tempos, é simultaneamente um bloco de ação sem parar e um episódio que deixa a narrativa central praticamente parada no mesmo sítio. Muita energia gasta, pouca substância. A nível de qualidade, está infelizmente mais próximo das prequelas do que da trilogia original (IV, V e VI), o que talvez se explique pelo carácter formulaico presente noutras áreas do império Disney. Filmes fáceis de mastigar, inequívoco entretenimento, mas fáceis de esquecer quando deitamos fora o balde de pipocas à saída.

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Cuspidas algumas críticas, importa enumerar aquilo porque “Star Wars: Os Últimos Jedi” será lembrado. Mas primeiro, um contexto. “Os Últimos Jedi” isola Rey num treino com Luke à la “O Império Contra-Ataca” e aproxima-a de Kylo explorando o conflito interior de ambos. Dá mais tempo de ecrã a Poe (Oscar Isaac) e atira Finn, BB-8 e a novata Rose para aquele que é, à superfície, o objetivo principal do filme – uma nave a arranjar maneira de fugir do alcance de outra.

O período passado por Finn e Rose em Canto Bight não sabe a “Star Wars”, e é escusado comparar quão custoso foi o treino de Luke Skywalker com Yoda, desta versão com Rey e Luke. É certo que a história pouco progride e que as personagens são pouco desenvolvidas, parecendo desaproveitadas, mas “Os Últimos Jedi” serve o propósito que abraça em subtexto: romper em absoluto com o passado.

Star Wars - Kylo Ren
Star Wars: Os Últimos Jedi – Kylo Ren (Adam Driver)

E o filme é sempre melhor quando tem no ecrã Luke, Rey e Kylo. Rian Johnson conduz de forma habilidosa a dupla Kylo e Rey entre os dois lados da Força, e oferece-nos um dos combates mais badass de toda a saga quando estes colaboram. Visualmente, vários planos seguem direitinhos para o hall of fame de “Star Wars”. Os bombardeamentos depois do sacrifício de Paige, uma nave destruída à velocidade da luz e guarnecida por um silêncio brutal, e Luke diante de toda a armada em Crait. Uma vénia a quem teve a ideia de criar um planeta de solo vermelho, coberto por sal.

Entre as personagens apresentadas neste capítulo, destaque apenas para DJ (Benicio del Toro), senhor de jogo de cintura numa galáxia dividida. Holdo e Rose são pontos menos fortes, servindo esta última para verbalizar uma das mensagens do filme e uma ideia que este ano já víramos em “Mulher-Maravilha”. Qualquer coisa na linha de “vamos vencer esta guerra não a lutar contra o que odiamos, mas a salvar o que amamos”.

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As principais questões que transitaram de “O Despertar da Força” como o verdadeiro poder, papel e a identidade de Snoke, e o parentesco de Rey, ou são ignoradas ou respondidas de forma a poderem ser reconfiguradas no episódio IX. Kylo Ren sai reforçado como a personagem mais complexa e interessante da nova geração, assumindo-se como verdadeiramente imprevisível e fazendo-nos torcer por uma redenção que se calhar até nunca existirá.

É indiscutível o assumir de riscos e a ousadia de “Star Wars: Os Últimos Jedi”. Há vários momentos que fogem àquilo que seria tradição e previsível, e parte da ousadia pode facilmente ser confundida com desrespeito por um passado religiosamente intocável para muitos.

Nostalgia à parte, o mais recente capítulo de uma saga sem paralelo na história do cinema subverte muita coisa. Mas embora nos diga que o falhanço é uma lição fundamental, como um todo não deve ser visto como tal.

TRAILER | “STAR WARS: OS ÚLTIMOS JEDI”

Gostaste do episódio VIII, “Star Wars: Os Últimos Jedi”? Em que lugar o colocarias entre os vários filmes da saga?

Star Wars: Os Últimos Jedi
Star Wars Os Últimos Jedi Poster

Movie title: Star Wars: Os Últimos Jedi

Director(s): Rian Johnson

Actor(s): Daisy Ridley, Mark Hamill, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac

Genre: Ação, Aventura, Fantasia

  • Miguel Pontares - 75
  • Ângela Costa - 90
  • Rui Ribeiro - 90
  • João Fernandes - 70
  • Cláudio Alves - 78
  • Marcos Mendes - 85
  • Daniel Rodrigues - 60
  • Catarina Oliveira - 65
  • José Vieira Mendes - 70
  • Luís Telles do Amaral - 80
  • Marta Kong Nunes - 65
75

CONCLUSÃO

"Star Wars: Os Últimos Jedi" assume riscos e subverte dogmas, podendo a sua ousadia ser confundida por muitos fãs com desrespeito pelo passado. É um bloco de ação e entretenimento sem parar que, no entanto, pouco faz evoluir a saga em termos de personagens e respostas.

O MELHOR: Kylo Ren sai reforçado como a personagem mais interessante da nova geração. "Os Últimos Jedi" vive os seus melhores momentos quando tem no ecrã Luke, Rey e Kylo. Vários planos (Luke diante da armada da Primeira Ordem em Crait) e cenas (a colaboração entre Kylo e Rey, uma nave destruída à velocidade da luz e acompanhada por um silêncio letal) seguem direitinhos para o hall of fame de SW.

O PIOR: Infelizmente, está mais próximo das prequelas do que da trilogia original. O humor sai por vezes ao lado, o período passado por Finn e Rose em Canto Bight acrescenta pouco e, salvo uma ou outra excepção, as personagens e a narrativa pouco avançam.

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Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.

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