14º IndieLisboa | The Challenge, em análise

The Challenge é uma orgiástica experiência audiovisual sobre as fantasias de luxo , excesso e opulência que se abatem sobre o deserto do Qatar durante um torneio anual de falcoaria.

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Dois pares de olhos viram-se para cima em busca ou perseguição de algo. Na banda-sonora, uma elaborada sinfonia composta por Francesco Fantini e Lorenzo Senni ressoa a alto e bom som, mas só chega ao seu operático píncaro quando a imagem dos olhos corta para um plano geral daquilo que parece ser um hangar cheio de falcões. De repente, o que poderia ser uma prosaica documentação do comportamento de animais fechados em cativeiro, torna-se numa dança de movimento aéreo acompanhado pelo dramatismo sedutor da música. A câmara nunca se move durante os minutos que demora até que os créditos iniciais do filme terminem a sua apresentação sobreposta ao ballet voador em cena. É assim que começa o mais opulento e fabuloso documentário a marcar presença no 14º IndieLisboa, The Challenge.

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Muito resumida e secamente, o filme do italiano Yuri Ancarani é uma apresentação cinematográfica de um torneio de falcoaria organizado no meio do deserto do Qatar e assistido por alguns dos sheiks mais ricos do Médio Oriente e seus muito dispendiosos animais de desporto. Tal descrição, no entanto, está longe de transmitir a avassaladora realidade do filme em questão que de expositivo pouco tem, preferindo mostrar-se ao público como uma espécie de orgiástica celebração audiovisual do luxo subjacente a toda a situação anteriormente descrita. Neste mundo, a riqueza tem a capacidade de alterar a própria matéria da realidade, tornando a aridez vazia do deserto no palco para uma ópera mesclada com conto de fadas ancestrais e cheios de magia.

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Só para se ter uma ideia do que estamos a falar quando nos referimos a opulência e ao poder transformador do luxo, ponderemos sobre o plano que segue imediatamente a abertura sinfónica do filme. Aí, vemos uma paisagem arenosa rasgada a meio por um paralelepípedo negro que parece ter saído diretamente de 2001: Odisseia no Espaço. A pretensiosa referência cinematográfica confere logo à imagem uma certa importância auto inflacionada, mas a sua peculiar beleza revelam as preocupações epicúrias do seu realizador. É praticamente impossível negar a qualidade estética do plano, mas o seu conteúdo, assim como a composição simétrica (uma recorrência obsessiva que marca quase todas as cenas do filme) acabam por tornar o belo em algo estranho. Algo a ser contemplado em admiração embasbacada, mas simultaneamente alienante pela sua indiscritível natureza.

Nesse sentido, muito crédito tem de ser dado à divinal fotografia tingida a ouro de Jonathan Ricquebourg, cujas composições e capacidade para exacerbar o luxo e dramatismo cromático das imagens ajuda The Challenge a alcançar esse tão delicado equilíbrio entre o belo e o bizarro. É claro que o toque de Ancarani não deve ser menosprezado. O humor do filme, por exemplo é inequivocamente o fruto da sua idiossincrática visão documental, onde o luxo é levado ao exagero absurdo sem que seja transmitido qualquer tipo de julgamento moral. Por exemplo, veja-se as insólitas sequências em que acompanhamos a travessia de um sheik pelo deserto num Lamborghini com uma chita, o animal mais veloz da Terra, no banco do passageiro, ou a ironia de um grupo de falcões, maravilhas voadoras, a ser transportado num jato privado, equipado com pedestais bordados para os pássaros repousarem.

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Retratados com menos humor, mas não por isso menos absurdas, são as imagens de um grupo de motoqueiros milionários a atravessarem o deserto em Harley Davidsons banhadas a oiro. O sol refletido na carroçaria, o ribombar rugido dos motores e a paisagem de oiro e lápis lazúli que serve de cenário a este espetáculo de luxo sem limites resulta numa passagem de cinema que transcende o absurdo da sua premissa e se torna em algo quase lírico. Trata-se de uma depuração de conteúdo em estímulos audiovisuais de tal modo sedutor que o espetador é embalado no seu feitiço. É tal o potencial hipnotizante deste festim cinematográfico que, caso perguntassem ao espetador o que é mais belo, o rugir de um veículo motorizado e a Vitória de Samotrácia, a resposta seria certamente feita em concordância com o Manifesto Futurista de Marinetti. Ou seja, viva a beleza do motor!

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Quando The Challenge se começa a focar mais no torneio em si e não no seu prelúdio de viagens e negócios feitos em iphones de oiro, o filme perde alguma da sua energia, abrindo as portas a reflexões potencialmente desconfortáveis para os seus criadores. Afinal, no meio da competição internacional do IndieLisboa, onde há mais do que um projeto que jura fidelidade à gramática politizada do cinema de realismo social, esta orgia de luxo e opulência, por muito poética que seja, pode parecer quase amoral. Como já mencionámos, Yuri Ancarani tende a evitar posições de julgamento sobre os seus sujeitos, mas não deixam de haver curiosas escolhas representacionais da sua parte, a mais clara das quais é o modo como o realizador se recusa a personalizar os vários milionários em questão, reduzindo-os a pouco mais que adereços na mise-en-scène.

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Essa leve desumanização estetizante é de particular interesse se a compararmos ao modo como, efetivamente, a tradição ancestral da falcoaria, encarada por estes homens, parece um meio pelo qual o dinheiro tem o poder de tornar animais vivos em objetos de deslumbramento desprovidos de qualquer tipo de vitalidade. Se estes sheiks tornam os falcões, os animais, os servos, em manifestações objetificadas do seu poder económico e incompreensível luxo, então o realizador faz o mesmo aos corpos dos milionários. Como final pontada de humor levemente subversivo, a última cena do filme é a mais inesperada cena de ação dos últimos tempos, retratando a perseguição de um pombo por um dos falcões em competição. Toda a aventura aérea é filmada por uma câmara presa ao animal, dando-nos a sua perspetiva subjetiva. Esse é um privilégio que Ancarini nunca concede aos seus protagonistas humanos embalsamados na rarefeita fantasia da sua própria riqueza.

 

The Challenge, em análise
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Movie title: The Challenge

Date published: 13 de May de 2017

Director(s): Yuri Ancarani

Genre: Documentário, 2016, 69 min

  • Claudio Alves - 88
88

CONCLUSÃO

The Challenge é um espetáculo operático de luxo e fantasia sob a forma de um documentário acerca da falcoaria no Médio Oriente e as muitas relações de poder patriarcal que proporciona. Está também cheio de inesperado humor e uma imprevisível perseguição aérea para pôr o coração aos pulos e desorientar o espetador na hora de despedida do filme.

O MELHOR: Nos anos áureos do cinema americano dos grandes estúdios, os maiores épicos e grandiosas extravagâncias musicas muitas vezes tinham direito a uma overture, complementada com um abrir das cortinas de veludo e alguma da música mais opulenta que Hollywood podia fornecer. The Challenge e a sua extraordinária abertura recordam tais excessos do passado cinematográfico num contexto completamente diferente, mas não por isso menos extravagante.

O PIOR: Abstração estilizada alcançada em muitas das passagens do filme poderá ser, para muitos espetadores, uma barreira de alienação intrespassável no que diz respeito à apreciação positiva do filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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