The Leftovers, a terceira temporada em análise

The Leftovers, série aclamada pela crítica mas ignorada por muitos espectadores, chegou ao fim. No seu adeus, a série da HBO (transmitida em Portugal no TVSéries) deixa-nos um desafio: conseguiremos nós, desta vez nós, seguir em frente e lidar com a perda de uma série assim?

Ao longo de três temporadas, The Leftovers amadureceu. Criada por um dos autores de Lost, Damon Lindelof, teve sempre presente uma brutal sensibilidade para abordar emoções e uma tremenda coragem na condução da sua narrativa. Na caminhada entre a fé e o ceticismo, o bizarro e o profundo, a realidade e a ficção.

Encostou as personagens e os espectadores à parede, e perguntou. Como sobreviver? Como reagir? Como é possível adaptarmo-nos a um mundo que viu desaparecer, sem explicação, 2% da sua população?

Leftovers

Para quem nunca viu The Leftovers, esse é o ponto de partida. Um acontecimento inexplicável faz desaparecer, aleatoriamente, 2% da humanidade. Qualquer coisa como cento e quarenta milhões de pessoas. No entanto, o foco dos autores nunca foi trabalhar o fenómeno em si, mas sim o luto, a noção de família, a capacidade (ou não) de seguir em frente, e a procura de respostas.

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As duas temporadas anteriores foram bem diferentes. Aliás, esteve sempre no ADN da série a ousadia de agitar toda a realidade dos protagonistas, num abanão gerador de progressivos ajustes e assimilações.

No centro, Kevin Garvey (Justin Theroux), chefe da polícia de Mapleton, a ex-mulher Laurie (Amy Brenneman) e os dois filhos. Ao núcleo Garvey juntar-se-ia mais tarde Nora Durst (Carrie Coon), uma mulher que perdera o marido e os dois filhos no dia traumático, o seu irmão Matt (Christopher Eccleston) e, na segunda temporada, a família Murphy.

A primeira temporada foi porventura a menos forte. Pesada, quase depressiva. Mas essencial para apresentar o tema, o mundo das personagens e impor o tom.

Leftovers Kevin

Na segunda temporada, Lindelof e Perrotta atiraram quase todas as personagens para Jarden, a cidade-milagre, e nasceu uma obra-prima. Uma verdadeira montanha russa de emoções, pautada por muito mistério e pela menor linearidade temporal a contar a história.

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E nesta terceira e última temporada, nem Mapleton nem Jarden. A ação passa-se maioritariamente na Austrália. E, ao longo de oito episódios, The Leftovers dá uma verdadeira aula de como fazer televisão. Todos os detalhes pensados e executados com precisão e coerência, mediante a invulgar natureza da série e o arco das suas personagens.

Será difícil encontrarem muitas séries de 2017 capazes de manter um nível tão alto como o que esta terceira temporada apresenta. The Leftovers, série capaz de transformar o espectador em marioneta, suscitando dúvidas, inspirando teorias, convertendo céticos em crentes. E vice-versa.

Leftovers Kevin

Algo especialmente relevante – nesta temporada não há episódios para “encher”. E a intensidade dramática serve um novo propósito. Nas primeiras seasons as personagens procuravam perceber como viver num mundo que acabou para muitos. Nesta, Kevin, Nora e companhia tentam aprender a viver num mundo que, afinal, não acabou. E não deixam nada por dizer.

Sempre com a extraordinária banda sonora de Max Richter presente, estamos a falar de uma série capaz de dedicar um episódio a uma busca espiritual contextualizada numa viagem de barco onde decorre uma orgia em tributo a um leão.

Estranho? Sim, muito estranho. Surreal, por vezes.

Nora Durst

Há quatro episódios muito acima da média. “G’Day Melbourne” e “Certified” os mais completos. “The Most Powerful Man in the World (And His Identical Twin Brother)” é o regresso a um submundo que marcou a temporada anterior. E o derradeiro “The Book of Nora”, sem ser épico, é satisfatório; e fica em aberto o que era suposto ficar.

Boa escrita, incríveis diálogos, a capacidade constante de fazer algo nunca visto, e alguns dos planos mais bonitos da televisão recente. The Leftovers junta a tudo isto um elenco absurdo, de tão perfeitos que são os desempenhos dos seus atores.

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Entre eles, e numa temporada de resolução que volta a recorrer a curtos flashbacks com a originalidade, pertinência e astúcia que todas as séries deviam ter, Carrie Coon é quem mais brilha. A sua Nora Cursed deixará saudades, como a personagem mais rica desta bíblia.

Oxalá que Carrie Coon – a atriz cujo monólogo encerra a temporada, e que faz poesia ao descrever asfixiada, perdida, vulnerável e infantil, uma memória de uma bola insuflável num estádio – ganhe os prémios que merece. Ou seja, todos.

The Leftovers HBO hbo the leftovers leftovers nora GIF

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Depois de Lost, Damon Lindelof subiu a fasquia com The Leftovers. Numa época em que muitas séries perdem qualidade ao cruzar o limite razoável de temporadas, é bom termos sido presenteados com 3 temporadas numa trajetória crescente.

Neste remate, entre nostalgias e fantasmas, fica um paradoxo: podemos não ter respostas, mas é importante que deixemos de ter perguntas.

Não vai ser fácil. Mas segue-se um inevitável novo começo para os fãs.

TRAILER | Despede-te de The Leftovers

The Leftovers - Temporada 3
The Leftovers Poster

Name: The Leftovers

Description: Quando 2% da população mundial desaparece abruptamente e sem explicação, os sobreviventes procuram entender e aceitar o que aconteceu.

  • Miguel Pontares - 89
89

CONCLUSÃO

O MELHOR - The Leftovers é o reflexo de uma equipa em que toda a gente sabe o que está a fazer, e fá-lo com qualidade e visão. Concretamente, destaque para os desempenhos dos atores, sobretudo Carrie Coon; para a mestria a trabalhar o conflito e a resolução das principais personagens, e ainda a incrível banda sonora de Max Richter.

O PIOR - O menor foco na "loucura" de Kevin, e o pouco tempo dedicado a Jill e Tommy. O último episódio, embora bastante bom, não é uma despedida épica ao nível de episódios anteriores.

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Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.

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