"101 Dálmatas" | © Disney

Cruellas do Passado | 101 Dálmatas (1961)

Antes de explorarmos a nova encarnação de Cruella de Vil, vamos dar uma olhadela às outras aparições dessa vilã na História do Cinema. Tudo começa com o clássico de animação Disney, originalmente estreado em 1961. A obra foi um grande sucesso de bilheteiras e até valeu ao estúdio uma nomeação para os prémios BAFTA. Podes encontrar o filme na Disney+.

Em meados dos anos 50, a autora britânica Dodie Smith teve uma conversa meio acesa com uma amiga. Depois de ver os belíssimos dálmatas da escritora, a outra mulher terá comentado que os cães fariam um bonito casaco de pele. Perturbada pela ideia, mas também inspirada, Smith concebeu uma história infantil centrada no conflito de uma família de dálmatas e a pérfida senhora que quer tornar seus cachorrinhos num casaco. Assim nasceu a história dos “101 Dálmatas” e não demorou muito até que os estúdios Disney comprassem os direitos para a obra.

Foi nos anos que se seguiram à produção de “A Bela Adormecida” que a Disney criou a sua adaptação dos “101 Dálmatas”. Em certa medida, a aventura canina serviu de contraponto ao conto-de-fadas medieval, tanto a nível narrativo como estético. Em primeiro lugar, falemos da componente mais formal e tecnológica. Acontece que, em 1959, desenvolveu-se a tecnologia que permitiria fotocopiar os desenhos dos animadores diretamente nas folhas transparentes de celuloide. Anteriormente a tal inovação, havia todo um departamento que se ocupava de passar os esboços em lápis a tinta, de os limpar, pintar e copiar para os acetatos que seriam depois capturados pela câmara.

cruella 101 dalmatas
© Disney

Toda essa técnica mais clássica resultava no tipo de visual polido de filmes como a já referida “Bela Adormecida”, “Cinderella”, “Pinóquio” e outros que tais. A fotocopiadora, apesar de cortar custos e aumentar a rapidez de produção, tinha um estilo muito diferente. Linhas curvas não registavam tão bem, pelo que era preciso desenhar as personagens com formas mais angulares. Além disso, os contornos pretos das figuras podiam ser muito rudes, quase sujos, parecendo-se mais com esboços a lápis do que ricas ilustrações. Em cinema, especialmente em animação, a forma e o conteúdo são indissociáveis e, no caso de “101 Dálmatas”, a imagem dita a história.

Esta nova animação fotocopiada não se adequava aos contos ancestrais que até então tinham sido o principal foco dos filmes Disney. Também não ficavam bem num registo demasiado sério, ora romântico ou sepulcral. Portanto, era preciso arranjar uma narrativa moderna e cómica, uma história que fosse beneficiada pela animação vanguardista ao invés de prejudicada por ela. Os “101 Dálmatas” não só se encaixa muito bem nesta nova era da animação Disney, como tira proveito das novas liberdades conferidas pela técnica. Animar as pintas de mais de uma centena de cães dálmatas seria um pesadelo com o modo de pintura tradicional. Com as fotocopiadoras, isso já não era um problema.

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E assim surge a 17ª longa-metragem animada dos estúdios Disney, um milagre de economia dramática que consegue contar toda a sua história nuns parcos 79 minutos. Desde uma sumária introdução que nos deixa ver o mundo através dos olhos de um dálmata londrino, Pongo, até à perseguição automóvel do clímax, tudo se move a ritmo veloz sem, no entanto, parecer apressado. Além disso, a comédia é um sucesso, cheia de piadas físicas e críticas à cultura popular que, devido à sua astúcia, ainda são relevantes em 2021. O melhor, contudo, são as personagens perfeitamente delineadas em termos de texto e desenho. Dálmatas e seus donos, toda a sociedade canina de Inglaterra e os criminosos, todos eles são criações fabulosamente memoráveis.

Contudo, como o nome deste artigo indica, estamos aqui para falar sobretudo da vilã da fita. Da anedota de festa para o livro e depois para o grande ecrã, a amante de casacos de pele que viu nos dálmatas a matéria-prima para um casaco é Cruella de Vil, monstro intemporal. Depois de Anita e Roger, donos de Pongo e Perdita, se recusarem a vender-lhe a ninhada dos seus cães, a vil mulher jura vingança e engendra um plano de rapto e chacina. Quando uma rede de solidariedade animal resulta no desfazer de seus planos, ela mesmo assim não desiste. De pérfida socialite, ela converte-se em harpia endoidecida. Como que possuída por um demónio, ela é Belzebu atrás do volante e um dos mauzões mais icónicos, divertidos, e genuinamente assustadores da Disney.

cruella 101 dalmatas
© Disney

Tudo nela é como a roldana bem oleada de um relógio Suíço, elementos separados unidos numa perfeição mecânica. O desenho da criatura impressiona pela sua retilinearidade esquelética. Alta e sinuosa, ela é como uma coluna entortada e encimada por uma caveira aguçada. A coroa de cabelo bicolor é a faceta mais reconhecível, mas são os movimentos da esguia Cruella que lhe conferem o seu memorável impacto. Nela, os rabiscos do lápis fotocopiado ganham o potencial de uma magia maligna, linhas rasuradas dando a impressão que ela se desfragmenta à medida que grita e vitupera. O animador Marc Davis foi quem concebeu tais gestos desenhados, uma final glória cinemática antes do artista transferir os seus talentos para o mundo dos parques de diversão.

Tão estrondosa é esta vilã que quase nos esquecemos dos heróis de quatro patas. Felizmente, para equilibrar a balança cinematográfica, Pongo e Perdita, seus filhotes e amigos, são uma delícia de personagens. Amorosos e caricatos, eles são, paradoxalmente, o elemento mais sério da película. No cosmos de “101 Dálmatas”, os animais é que sabem e os humanos são absurdos. Cruella, em toda sua perfídia, transcende esse absurdo para se tornar numa encarnação do Mal que é tão cruel quanto banal. Talvez seja por isso que ela tanto persiste na memória do espetador. Maléfica, Ursula, Jafar e tantos outros vilões da Disney parecem tão distantes da realidade que sua maldade não apoquenta. Cruella, pelo contrário, parece-nos horrivelmente verosímil, possível, provável, até na sua forma animada.

Os 101 Dálmatas, em análise
cruella 101 dalmatas

Movie title: One Hundred and One Dalmatians

Date published: 26 de May de 2021

Director(s): Clyde Geronimi , Hamilton Luske, Wolfgang Reitherman

Actor(s): Rod Taylor, J. Pat O'Malley, Betty Lou Gerson, Martha Wentworth, Ben Wright, Cate Bauer, David Frankham, Frederick Worlock, Lisa Davis, Tom Conway, Tudor Owen

Genre: Animação, Aventura, Comédia, 1961, 79 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

“101 Dálmatas” é um clássico Disney que realmente merece essa honra. Cómico e económico, o filme é um estrondoso sucesso de animação. Não só temos aqui um exemplo de avanços tecnológicos no cinema, como a introdução de uma das maiores vilãs na história do grande ecrã.

O MELHOR: Cruella, seu desenho vil e lendária personalidade. Isso e o visual inovador desta animação de fotocopiadora.

O PIOR: Há uma certa misoginia implícita na vilania de Cruella De Vil. Seu pecado principal parece ser a vaidade e o gosto pelas coisas fúteis da vida. Uma pena, mas isso não é suficiente para manchar o filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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