"Cruella" | © Disney

Cruella | O estilo e os figurinos do novo filme

A nova versão de “Cruella” é um dos filmes com mais estilo deste ano cinematográfico. A história da vilã Disney torna-se numa guerra da moda em plena Londres dos anos 70. Entre o punk e o glamour, os figurinos são as verdadeiras estrelas deste filme que podes encontrar no Disney+.

Em 2016, aquando da sua segunda vitória nos Óscares, a figurinista britânica Jenny Beavan foi receber o prémio numa indumentária que nada tinha que ver com o glamour das estrelas à sua volta. Longe de parecer uma diva da carpete vermelha, Beavan tinha mais o aspeto de uma artista punk despreocupada com os maldizeres alheios. Com um casaco de cabedal, calças pretas e cabeleira emaranhada, ela lá aceitou o Óscar pelo seu trabalho na obra-prima pós-apocalíptica Mad Max: Estrada da Fúria. As revistas de moda trucidaram-na, mas a indústria cinematográfica pouco se preocupou. Afinal, Beavan já há muito havia provado ser uma mestra da sua arte.

Quiçá a rebeldia do gesto até serviu para lhe conquistar mais fãs. Coincidência ou não, depois de uma carreira cheia de prestigiados filmes de época feitos com orçamentos medianos, a figurinista começou a trabalhar numa série de projetos mais variados e melhor pagos. Neste período, a artista forjou uma relação profissional com a Disney, criando os guarda-roupas para “Christopher Robin” e “O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos”, e ceifando muitos elogios mesmo quando os filmes eram maltratados pela crítica. Contudo, esta crescente liberdade artística e faustoso financiamento raramente se cruzaram com a veia rebelde de Beavan.

cruella figura de estilo
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Por isso mesmo, “Cruella” representa um culminar na carreira da cineasta, um píncaro de fausto e criatividade liberada pela opulência Disney e uma premissa que faz da moda o centro da narrativa. O realizador Craig Gillespie e sua equipa de argumentistas perpetuaram a ideia de Cruella De Vil enquanto designer de moda que já havia sido imaginada para o remake de 1996 e sua sequela. Só que, ao invés da história se passar na contemporaneidade, “Cruella” translada a narrativa para o final da década de 70. A famosa vilã da Disney já não é uma socialite com um amor monstruoso pelas peles, mas sim uma órfã que tenta vingar no mundo da moda londrina. Longe de ser uma mulher de gostos conservadores, ela é agora uma inovadora punk rock.

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O filme começa nos anos 60, quando Cruella, ainda conhecida como Estella, era ainda uma criança com cabelo bicolor e uma atitude problemática. É fascinante ver como Beavan traça as origens do estilo rebelde nesta modelo em miniatura, empregando técnicas que, apesar de vistosas, estão dentro das capacidades de uma menina. Ela vira casacos ao contrário e rabisca no forro com caneta, rasga lapelas e torna-as em arneses presos por alfinetes. O preto-e-o-branco já dominam e essa paleta cromática irá manter-se na idade adulta, com alguns apontamentos de escarlate e ouro velho. É ainda na meninice que ela testemunha a morte da mãe durante uma festa dada pela famosíssima Baronesa von Hellman.

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Apesar da situação trágica, é nessa noite que a pequena Estella descobre a sua vocação. Ao observar as confeções em estilo Rococó que desfilavam na mansão da Baronesa, a menina decidiu tornar-se designer de moda. Ao longos dos anos, crescendo em Londres como uma ladra intrépida, essas ambições nunca esmoreceram. Também o seu talento costureiro continuou a desenvolver-se. Com os seus amigos Jasper e Horace, Estella fez do estilismo uma arma do crime, engendrando disfarces elaborados para os esquemas do trio. A montagem é rápida, mas Beavan cria uma série de conjuntos tão divertidos como glamourosos. Trata-se do figurino enquanto paródia da moda dos anos 70, com padrões garridos e malas da Louis Vuitton a rematarem o trajado.

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Resumindo muito a história, Estella acaba a trabalhar para a Baronesa e, em segredo, torna-se sua rival. Assumindo o alter-ego de Cruella, a nossa nova consagrada anti-heroína revela-se uma verdadeira deusa da provocação estilística. Neste paradigma, Jenny Beavan concebeu uma luta de titãs, contrapondo a alta-costura escultórica da Baronesa com a decadência renegada de Cruella. Para Emma Stone, a figurinista teve de criar 47 visuais diferentes, traçando a evolução da personagem através das transformações de indumentária. Num filme como “Cruella”, a roupa é tudo. Antes de desenhar o que quer que fosse, contudo, Beavan começou o trabalho de figurino com peças vintage dos anos 70.

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A designer vivia em Londres na altura pelo que se recorda bem das roupas usadas pelas elites sociais e culturais. Vivienne Westwood, a marca Bodymap, as criações de Alexander McQueen no virar do milénio e o estilo da cantora Nina Hagen foram algumas das referências que Beavan usou para encontrar o visual de “Cruella”. Depois disso, vieram coleções de peças antigas que a atriz foi experimentando até se encontrar uma linha estilística a seguir. Apesar da história da moda ser a origem de tudo em “Cruella”, Beavan levou as personagens principais para fora dos limites do facto e da realidade. Em certa medida, tanto Cruella como a Baronesa existem fora da linearidade histórica. Mais do que pessoas reais, elas são desenhos animados materializados.

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Interessantemente, segundo Beavan, no filme final, Stone só usa uma única peça vintage. Os restantes fatos foram todos criados de raiz. Por sua vez, o espólio acumulado pela figurinista foi usado para as roupas dos extras e figurantes no fundo das cenas, salientando ainda mais como Cruella parece existir numa dimensão separada dos restantes plebeus. Há até o facto de que, para alguns dos looks, foi preciso magia digital para realizar o que o guião pedia. Quando o ícone Disney aparece no baile monocromático da Baronesa vestida de escarlate, ela enverga uma capa branca que se esfuma numa pluma de fogo rápido. O vestido por baixo foi inspirado numa criação de Charles James, seda descosida e reconstruída até parecer as nervuras de uma árvore fustigada.

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Numa montagem em que Cruella interrompe os muitos eventos sociais da Baronesa, Beavan chegou a cobrir Stone num grande vestido de baile feito de retalhos e papel dobrado. O efeito final parece saído de um aterro e assim emerge da bagunça deixada por um camião-do-lixo. Noutro momento dessa sequência, a protagonista usa peças mais militaristas, com cavalos de brincar presos aos ombros para criar efeitos retorcidos. Uma saia enorme em tule rosa e vermelho serve para cobrir a limusina de sua inimiga e uma faixa grafitada anuncia que o passado está fora de moda, ultrapassado, acabado. Outro figurino é feito de pneus refeitos em forma de casaco e calças de motoqueira cobertas de lantejoulas. Mais do que uma estilista, ela afirma-se na cena como uma estrela de rock.

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À medida que o filme avança e Estella vai perdendo noção de si no alter-ego de Cruella, os seus figurinos revelam linhas mais afiadas e agressivas. Para espicaçar a rival, ela veste um casaco pintado para parecer as peles dos dálmatas da Baronesa. Noutras ocasiões, as linhas retas e ângulos agudos de costuras e apliques servem para evocar a silhueta cadavérica da vilã animada. A certa altura, ela veste um casaco de vinil preto que só lhe cobre metade do torso. A outra metade é uma camisa branca, refletindo a cabeleira bicolor que tanto marca a iconografia de Cruella. O seu último conjunto até tem uma capa presa às mangas que a faz parecer uma espécie de morcego antropomorfizado. Elegante, mas monstruosa, a Cruella deste filme ainda não é um demónio da moda, mas Beavan desenhou-a como um potencial precedente da figura imortalizada por Glenn Close nos anos 90.

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A Baronesa não tem tantos figurinos como a protagonista, mas Beavan ainda criou 33 conjuntos diferentes para a atriz Emma Thompson, desde a elegância de flashbacks tenebrosos até ao brilho estilo drag queen das cenas finais. Os figurinos da Baronesa, em contraste com os da personagem principal, devem mais à Casa Dior que ao glam rock e movimento punk. Feitos em tecidos muito estruturados, as silhuetas são exageradas e, em alguns casos, até incluem golas armadas que remetem para glórias isabelinas. Para Jenny Beavan, que nunca se interessou muito em moda, o desafio de vestir tal personagem foi grande, mas ela enfrentou-o de cabeça erguida. Interessantemente, a estética da personagem só se estende até às coleções da Baronesa em certa medida.

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Apesar do estilo pessoal ser démodé, as criações comerciais têm os olhos postos no futuro, incluindo um vestido com peplum campanulado e crisálidas a fazerem de missangas brilhantes. Numa reviravolta divertida, não obstante toda esta opulência, Beavan continua a ser uma rebelde e a sua escolha do figurino preferido do filme nada tem que ver com o glamour punk de Cruella. De facto, é o fatinho de ratazana que ela costurou para um Chihuahua zarolho. Esse sim, é a sua mais amada criação para a Disney. Quem sabe, se Beavan ganhar um terceiro Óscar, talvez mencione o ator canino no seu discurso. Uma coisa é certa, a nomeação já parece estar assegurada.

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Qual dos 47 figurinos que Emma Stone vestiu em “Cruella” é o teu favorito?

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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