"O Rei David" | © Curtas Vila do Conde

Curtas Vila do Conde 2021 | Competição Internacional 9

Confrontações com a morte e estudos de personalidades complicadas marcam o fim da Competição internacional do Curtas Vila do Conde 2021. Até ao fim do mês, estas curtas-metragens estão disponíveis online.

curtas vila do conde zonder meer critica
© Curtas Vila do Conde

ZONDER MEER de Meltse Van Coillie

Todos nos deparamos com a Morte. Essa é uma das poucas constantes da vida, uma das experiências que se podem considerar realmente universais. No seu mais recente filme, obra que passou na Berlinale antes de chegar ao Curtas Vila do Conde, a cineasta belga Meltse Van Coillie explora o primeiro encontro de uma criança com a Morte. Prendendo-nos à perspetiva infantil, “Zonder Meer” segue a pequena Lucie, cuja família está de férias num parque de campismo. Acontece que, certo dia, um menino desaparece. Todos presumem que ele tenha morrido afogado e as buscas pelo corpo continuam no lago local. Gradualmente, o espectro da tragédia afugenta os campistas e a paisagem estival vai-se esvaziando de Humanidade. Passado um pouco, até a família de Lucie está pronta para sair dessa terra manchada pela Morte.

O aspeto mais brilhante de “Zonder Meer” é quanto tudo isto se passa na periferia da imagem, algo que a mise-en-scène reforça pelo uso de composições muito baixas e pouca profundidade focal. Estamos sempre ao mesmo nível que Lucie e sabemos somente aquilo que ela ouve e que a afeta. Tal como os adultos fogem do local, progressivamente sufocados pelo horror do que se passou, também a menina vai sendo possuída por um sentimento que nem ela sabe bem articular. A criança pode ainda não saber bem assimilar o transtorno da morte juvenil, mas entende que algo grave se passou por osmose familiar, empatia inocente. Lembrando os filmes de Jane Campion, Van Coillie trabalha num registo de espaço negativo, delineando a obra a partir daquilo que é escondido, mantido fora do alcance da câmara.

No final, essa abordagem resulta em conclusão inesquecível, quando a meninice imita o fado terrível em jeito de brincadeira e o espetador tem que enfrentar a natureza tenebrosa de um vazio, da ausência.

curtas vila do conde noir soleil
© Curtas Vila do Conde

NOIR-SOLEIL de Marie Larrivé

Há décadas que os grandes mestres do cinema são atraídos a Pompeia e suas visões de morte imediata. Os cadáveres preservados nas cinzas vulcânicas do Vesúvio são um tenebroso portento, representando o instante em que a vida acaba materializado numa pose eterna. Nos anos 50, Rossellini fez bom uso dessa imagética no seu Viagem a Itália, e, em pleno século XXI, Marie Larrivé apela aos mesmos ícones mórbidos numa curta de animação. “Noir-Soleil” começa quando os movimentos naturais nas entranhas do vulcão fazem com que o mar se mova. No tumulto geológico, um corpo outrora preso num túmulo aquoso sobe à superfície. Será esse morto que vai atormentar os protagonistas desta animação para adultos. Eles são Dino, um homem de meia-idade, e Victoria, sua filha adulta.

Acontece que os investigadores pensam que o corpo poderá ser o pai de Dino, um homem que há muito se tem como desaparecido. Assim sendo, lá regressa o filho à terra paterna, lar de traumas e fantasmas de abusos passados. Por sugestão sussurrada e pitorescas imagens, Larrivé vai desenterrando um elo atormentado entre pai e filho. Testemunhamos tal processo pela perspetiva de Victoria cujas deambulações turísticas por Pompeia criam uma forte rima temática entre os mortos do passado e os vivos do presente. Em “Noir-Soleil” e não só, o que aconteceu em dias esquecidos jamais deixará de atormentar aqueles que o experienciaram. Podemos tentar ignorar, fingir que as cicatrizes mentais não existem, mas o passado acaba sempre por nos apanhar.

o rei david le roi david curtas vila do conde critica
© Curtas Vila do Conde

O REI DAVID de Lina Pinell

Com 42 minutos, “O Rei David,” ou “Le Roi David,” é um dos filmes mais compridos na competição do Curtas Vila do Conde 2021. Esta obra da francesa Lila Pinell bem podia ser estendida até uma longa-metragem, dando mais espaço para explorar a personalidade abrasiva da sua protagonista. Ela é Shana e conhecemo-la numa consulta médica em que se discute a possível rinoplastia. Acontece que, depois de uma discussão com o namorado, a jovem ficou com um septo desviado e agora procura a desculpa para remodelar todo o edifício nasal. Quando o médico indica que esse nível de cirurgia cosmética não será coberto pelo plano de saúde, a nossa heroína desaventurada explode em indignação, vibrando com a petulância de uma criança carrancuda. Ao longo do filme, esta dinâmica repete-se uma e outra vez, um ciclo vicioso de infantilidade adulta.

Seria fácil retratar Shana como uma caricatura insuportável, mas nem Pinell nem sua atriz principal, Eva Huault deixam que isso aconteça. Ao invés, as cineastas pesquisam os limites da delusão e quanto a ação antissocial deriva de uma desenfreada corrida para fugir ao passado. Espontâneas visões do David titular despertam memórias que Shana gostaria de esquecer e vamos assim entendendo mais sobre esta menina que parece nunca ter crescido mentalmente depois da adolescência. Apesar de seguir a linha do realismo social, com filme em película e formato 4:3, há um certo gosto pela estilização colorida. Essa faceta acentua-se lá para o final de “O Rei David”, permitindo a todos os envolvidos explorarem novos aspetos do quotidiano caótico da personagem. Huault é excelente nessas notas derradeiras, deixando-nos curiosos para ver o que aconteceria a Shana se a narrativa lhe desse chance real de mudar, evoluir, de acreditar nos planos que ela tanto elabora como mentiras a si própria.

Lê Também:
A Volta ao Mundo em 80 Filmes

Até dia 1 de Agosto, podes ver todos estes filmes na plataforma online do festival Curtas Vila do Conde 2021. Não percas esta oportunidade!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *