Curtas Vila do Conde 2021 | Competição Nacional 3

Do Ribatejo a Trás-os-Montes, a competição nacional do Curtas Vila do Conde 2021 oferece-nos visões melancólicas e absurdezes evocativas. É uma seleção variada e aliciante que recomendamos com entusiasmo.

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© Curtas Vila do Conde

TERCEIRO TURNO de Mário Macedo

Na zona industrial a norte do Porto, um jovem sai do turno e cai no chão. Os colegas à volta não sabem o que fazer, podem por um cinto, algo com que o ajudar. O nosso protagonista está a ter um ataque epilético e é quando olhamos para a sua cara angustiada contra o fundo escuro do chão, que o realizador Mário Macedo nos revela o título da obra. “Terceiro Turno” começa com um bang, mas depressa esvai essa energia numa meditação sobre juventude em crise e sem rumo. Sinopses mencionam uma espécie de limbo e quiçá essa é a melhor descrição para o estado do rapaz. Nem no céu ou no inferno, ele vive na apatia de um dia-a-dia mortiço, sem vitalidade e sem esperança que algo melhor se avizinhe.

A fotografia de Miguel Santa e Tiago Carvalho, a montagem de Luís Costa e Paulo Carneiro – todos esses elementos servem para fragmentar a vida do protagonista numa série de ações inanas, conversas com pais off-screen, amigos que nunca olham nos olhos. Ao ritmo de uma marcha fúnebre, observamos o suplício de uma vida mergulhada num poço de desespero. De facto, apesar de oferecer poucas ideias novas ou nos surpreender com imagens memoráveis, “Terceiro Turno” vale pela atmosfera melancólica que evoca, algo imersivo e sufocante, como água gélida que nos enche os pulmões e roube a vida. Só na estrada, sozinho e ao volante, é que o rapaz e seu filme parecem acordar, atravessando a paisagem a alta-velocidade. Quiçá ele esteja a tentar fugir de si mesmo.

 

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© Curtas Vila do Conde

CARTA BRANCA de António-Pedro

Mais do que um filme concreto, “Carta Branca” é uma coleção de possibilidades, visão caleidoscópica de todos os filmes podia ser, mas não é. Tudo começou quando António-Pedro foi confrontado com esse tesouro tão desejado pelo artista – a carta branca. Encomendado pelo município de Alcanena, no Ribatejo, “Carta Branca” nasceu do esforço do criativo sem limites. A ideia base é a de celebrar, talvez promover, a região, sua cultura e população. Só que, na versão final, a obra é mais espera Beckettiana do que anúncio institucional. Espera-se que um filme coeso surja, mas o que se manifesta são só ideias soltas. Atenção que isso não é algo mau. Na verdade, da perpétua indecisão, “Carta Branca” formula uma experiência bem divertida.

Fala-se de tudo um pouco nesta fita, desde a indústria das peles até às arrelias de um cineasta que ama a película, mas é pressionado a escolher a opção mais económica do digital. Julgando pelas brilhantes misturas de fotografias e vídeo granular, podemos afirmar que o realizador ganhou essa discussão. É tudo feito com tanto humor que até duvidamos que tudo seja tão espontâneo quanto é apresentado. Enfim, a autenticidade do engenho em nada define a sua qualidade. O foco disperso de “Carta Branca” lá nos vai embalando nessa odisseia em busca do filme que nunca se manifesta e, pelo caminho, homenageia tudo aquilo que a promoção tradicional iria encobrir. Desde a personagem de Cid Manata até às paisagens ribatejanas, “Carta Branca” soa a piada, mas, na verdade, é uma carta de amor.

 

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© Curtas Vila do Conde

OSO de Bruno Lourenço

Algures no noroeste transmontano, tem sido visto um urso. Contam-se histórias de avistamentos, trocam-se anedotas e suspeitas, teorias, dúvidas, sonhos também. Será que existe? Será que é um urso? Será humano? Saltando de perspetiva em perspetiva, “Oso” faz-nos um retrato da comunidade rural e da paisagem natural, precipitando breves pinturas de solidão, pequenos murais de pessoas em busca de companhia. Da população, uma rapariga afigura-se protagonista, narrando o seu pensamento num texto simples, direto, quase que deliberadamente artificial não fosse a candura da palavra. Ela é Rita, interpretada por Sofia Pires, e é sua voz que dá forma a uma fita deambulante. Guardiã da floresta, ela tudo observa com uma perspetiva lacónica, como que flutuando por cima dos conflitos narrativos.

Também há um especialista pelo meio, um figurino enganador e muito mais. Contudo, para aqueles que tenham interesse em ver “Oso”, deixamos alguns segredos por revelar. No ponto médio entre etnografia e a fábula absurdista, o realizador Bruno Lourenço vai encantando o espetador, surpreendendo-o com os caminhos variados que o filme toma. Depois de uma década a trabalhar regularmente com mestres do cinema português contemporâneo como Miguel Gomes e João Nicolau, é interessante ver o que pode ser influência alheia no trabalho do realizador. Pelo menos, o novo filme de Bruno Lourenço está muito bem integrado no universo cinematográfico que O Som e a Fúria e seus mais leais colaboradores têm vindo a forjar nestes últimos anos. Ou seja, se te interessas pelo nosso cinema nacional, Bruno Lourenço é capaz de ser um nome a ter em atenção. Mal podemos esperar para ver como o seu estilo se desenvolve na cadeira de realizador.

Não percas a nossa cobertura do Curtas Vila do Conde. Aproveita e descobre também a oferta online deste festival em tempos de pandemia. Há excelente cinema disponível nessa seleção, incluindo as três curtas aqui analisadas.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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