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Doclisboa 2021 | Corpos Líquidos 2, em análise

Assistimos, no Pequeno Auditório da Culturgest, a mais uma sessão de curtas inserida na temática “Corpos Líquidos”, neste que é um DocLisboa 2021 dominado pela pluralidade de temáticas e pontos de partida para a reflexão artística. Esta sessão específica, “Corpos Líquidos 2” volta a emitir no dia 31 de outubro, pelas 14h00, recuperando temáticas poderosas e intemporais. 

“Corpos Líquidos” é uma secção do Doclisboa 2021 que levanta algumas questões pertinentes, tais como: de que forma é que os nossos corpos foram sendo interpretados ao longo do tempo, perante fés e filosofias distintas? Como podemos conciliar os aspetos materiais e imateriais do nosso “eu”? De que forma é que a nossa relação com o meio envolvente transforma a nossa percepção de “self” e contribui para a construção identitária? Estas narrativas parecem querer teorizar que o nosso “eu” é mutável, influenciável pelas condicionantes externas e, em último caso, múltiplo na sua natureza. Ou pelo menos assim o sugere a descrição desta ambiciosa programação.

Neste programa constituído por quatro curtas, viajamos pelo Haiti, Itália, Rússia e Brasil para descobrir rituais, religiões e crenças fulcrais para a constituição de um “eu” que transcende as próprias noções de corpo. Da subjetividade de género, à temática da fertilidade, passando pela interpretação de diversas divindades, assim se faz “Corpos Líquidos 2”. 

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RED MASISI 

2021 • HAITI, EUA • 22’
Doclisboa 2021 red masise
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Realização: Jefferson Kielwagen, Marcos Serafim, Steevens Siméon

O título do filme, “Masisi” remete-nos para a palavra utilizada no Haiti, com um sentido pejorativo, para descrever homens que são considerados pouco masculinos – como por exemplo pessoas não binárias, transgénero ou gay. Estes indivíduos são  tipicamente marginalizados, rejeitados, e é na performance religiosa do vudu que acabam por encontrar santuário.

A pequena curta “Masisi Wouj” representa as suas performances inspiradas não só pelo vudu como pela arte drag. O ativista natural do Haiti, Sanba Yone, encontra-se no centro da acção. procurando através desta obra cinematográfica prestar uma homenagem queer aos deuses venerados na tradição popular deste país.

Mais que uma curta-metragem, este é um ensaio performantivo, uma obra experimental valorosa que respeita, com todo o corpo e alma, os sujeitos retratados. “Red Masisi” destaca-se através da sua rara representação daquilo que é a experiência LGBTI fora da cultura ocidental, representando um mundo que se encontra, por norma, nas sombras. Aí reside o verdadeiro poder da curta, que se insere simultaneamente na secção “Riscos” do Festival Doclisboa 2021, entrando em diálogo com um conjunto de obras que procuram questionar os seus próprios limites.

Nota: 80/100

AUTOFRIA 

2020 • ITÁLIA • 32’

doclisboa corpos liquidos
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Realização: Anton Vidokle

“Autotrofia” transporta-nos, uma vez mais nesta sessão de “Corpos Líquidos 2” do Doclisboa 2021, para o reino do ritualismo. Desta vez documenta-se um antigo ritual pagão que procura cultivar a fertilidade e celebrar a passagem das estações. O ritual é concretizado junto de uma árvore tão alta que quase não parece pertencer a este mundo.

E, assim, subitamente vêem-se também explorados os escritos de Chekrygin e Vernadsky, os quais estudam a dimensão ecológica do Cosmismo Russo. Qual é a sua premissa? Procurar um desenvolvimento sustentado que faça com que o ser humano deixe de consumir outros organismos vivos para sobreviver e que, tal qual as plantas, passe a obter o seu alimento diretamente a partir do sol.

A curta metragem foi filmada numa pequena vila idílica no Sul de Itália. “Autotrofia ” remete-nos para uma forma de  cinéma vérité, uma vez que as personagens mergulham num contexto verdadeiro da vida, para aqui refletirem acerca do ciclo da vida, renovação das estações e consciência ecológica. Tal como é tão frequente no formato documental hoje em dia (quando é que não foi o caso?), a ficção e o documentário andam de mãos dadas nesta obra artística, a qual se organiza em torno de uma discussão quasi-científica e que coloca em causa as certezas do reino dos humanos.

Este esforço experimental é de louvar pela sua envolvência entre a povoação local de Oliveto Lucano e as filmagens, bem como pela bela banda-sonora de Alva Noto e pelo carácter inovador das técnicas fílmicas empregues pelo cineasta e restante produção.

Nota: 75/100

RUMI X PHANTASM 

2021 • FILIPINAS • 10’

RUMI X PHANTASM  DOC
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Realização: Khavn

“Rumi X Phantasm” é uma curta obra oriunda das Filipinas, baseada na obra literária  “Materiais Auxiliares para Ensino de Filipino”, da autoria de Kelly Sta. Ana Nicolas.

A narrativa compõe-se de vários fragmentos, aparentemente caóticos, os quais acompanham as aventuras de Gunam-gnam (Rumi) e Guni-guni (Phantasm). Para lá de invulgar, “Gunam-gunam X Guni-guni”  – no original, evoca quase a atmosfera de um filme de terror, mas um povoado por crianças. A obra fala de humanidade, do difícil caminho rumo à sua preservação e apresenta vários segmentos visualmente empolgantes, especialmente mais perto do seu final.

Vence pelas técnicas diversas de filmagem, pela incorporação inesperada da animação e também pela intensidade temática e capacidade de, em poucos minutos, transmitir uma elevada angústia existencial. Esta obra feita por crianças  – mas não necessariamente para crianças – é o exemplo perfeito de tudo o que o engenho consegue atingir em tempos de confinamento.

 

EXU YANGÍ

2021 • BRASIL • 20’

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Realização: Henrique Cartaxo

“Eshu Yangi” não é, nada mais nada menos, do que um encontro com Exú, uma popular divindade afro-brasileira. Tal comunhão vê-se aqui representada nesta obra experimental através de um conjunto de leituras, memórias, reflexões metafísicas e representações de imagens caseiras e despojadas. Mais um exemplo de uma obra de arte produzida em confinamento, numa altura em que a própria crença nas instituições se punha ao teste no Brasil.

Esta divindade representa a comunicação e linguagem, assumindo-se assim como mensageira entre as restantes divindades e a humanidade. Vista como uma divindade inclinada para a protecção, tanto do indivíduo como do coletivo, não é estranho que esta seja interpelada durante um período tão complexo. Aí reside a pertinência desta pequena obra documental brasileira. A reflexão do estado de espírito de um povo, num determinado momento-chave no tempo.

Nota: 70/100

A 19ª edição do Doclisboa continua até dia 31 de outubro, tal como a nossa cobertura. Quanto a “Corpos Líquidos 2”, regressa à Culturgest no último dia do festival e pelas 14h00. 

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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