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Doclisboa 2021 | Distopia, em análise

“Distopia”, de Tiago Afonso, inserida no Doclisboa 2021, na Competição Portuguesa, é uma obra que vence pelo seu casamento perfeito entre reflexão e urgência, pela sua impecável capacidade de se focar, nas palavras do realizador, na noção de “menos é mais”, conseguindo apresentar, numa pequena longa-metragem de pouco mais de uma hora de duração aquele que foi um cuidado trabalho de investigação sociológico realizado ao longo de década e meia. 
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 Por norma, por “distopia” compreendemos um lugar ou estado imaginado, sítio no qual as condições opressivas são quase caricaturalmente duras e onde os seres humanos vivem em privação de recursos, liberdades sócio-políticas, entre outras carências. Falamos do oposto absoluto da Utopia, ou seja, o lugar ou estado ideal onde a harmonia inegável reina – a tão elusiva felicidade e bem-estar em estado puro.

No cinema e na literatura, a rica tradição distópica é quase monopolizada pelo reino da ficção científica – “Blade Runner”, “The Matrix”, “Metropolis”, “1984”, “Brazil” – o que não falta são exemplos emblemáticos destas tão imperfeitas sociedades, na sua maioria futuristas e que começaram a ser pensadas no início do século XX – no apogeu da modernização e perante a mudança de paradigma, à entrada da era tecnológica recebida com cepticismo.

 

Contudo, por muito que seja esta a herança que o termo “distopia” evoca, não é isso que este filme que integra a Competição Portuguesa da 19ª edição do Doclisboa nos vem oferecer, antes, a distopia aqui é sociológica e, igualmente temível, realista e fundada em fenómenos que têm pouco ou nada de fictício, fantasioso ou fantástico. Os longos créditos iniciais providenciam as bases para um cinema de intervenção baseado nos ensinamentos e sociólogos incontornáveis que estudaram os fenómenos que dizem respeito à cidade. Quem tem direito a usufruir do seu espaço público, que critérios de urbanização privam ou não o cidadão deste mesmo conjunto de direitos, quais os efeitos perversos do fenómeno da gentrificação – que não dá nome ao filme mas bem podia dar.

Quiçá demasiado auto-explicativos para alguns cineastas mais poéticos, Tiago Afonso, contudo, não tem qualquer pretensão na forma como exibe esta sua cópia zero de um filme que anda a aperfeiçoar desde os seus 29 anos de idade (já caminha na casa dos 40). Segundo avançou na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, parece que foi a própria força das circunstâncias  – e da repetição de fenómenos – que impediu que este trabalho se visse concluído mais cedo, um trabalho que acompanha verdadeiramente, da forma mais objetiva possível para a lente tendenciosa do cinema, os eventos em torno da desocupação de alguns dos bairros ditos mais problemáticos do Porto, durante a altura em que Rui Rio se sentava na cadeira de Presidente da Câmara.

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Ao longo de treze anos, de 2007 a 2020, esta distopia social retrata a alteração estrutural da mudança do tecido social de bairros do Porto. Neste caso, existe um foco tripartido em focos distintos de intervenção: o desmantelamento do acampamento da comunidade cigana do Bacelo, a destruição das torres do Bairro do Aleixo e ainda a resistência dos feirantes da Vandoma. Em comum, em todos os cenários distintos, assistimos a um cenário destrutivo que se faz de expulsões, demolições e realojamentos.

O realizador procura ilustrar, sem qualquer intuito de exploração do seu objeto fílmico, aquilo que os media esqueceram ao relatar estes casos recorrendo a um ângulo capaz de apaziguar a opinião pública e desvalorizar  a percepção de todos os subsequentes problemas sociais que surgiram a partir destas reformas da cidade, formas nítidas de exclusão das classes mais baixas e metodologias eficazes para as banir para fora do centro urbano. Depois desta viagem cinematográfica, algo é certo, o espectador não voltará, de certo, a simplificar a questão dos bairros “problemáticos” dos centros citadinos. Aqui se encontra o cinzento e se rejeita uma interpretação linear destes fenómenos.

Por fim, louva-se uma vez a capacidade de síntese do autor. Depois de mais de uma década a filmar, é impressionante que se apresente um filme com apenas uma hora de duração, com um ritmo apropriado e que nunca estica demasiado uma única cena nem se entrega a tendências melodramáticas, tal como Tiago Afonso defendeu, com mérito, após a apresentação desta obra. Que a contenção aqui empregue seja vista como palavra de ordem, em “Distopia” tudo é sumo, pertinente, urgente.

“Distopia”, uma obra valorosa e com intenções puras e intervencionistas, volta a exibir no Doclisboa 2021 no dia 29 de outubro, pelas 10h30 da manhã, no Grande Auditório da Culturgest. 

Distopia, em análise
distopia snap

Movie title: Distopia

Movie description: Ao longo de treze anos, de 2007 a 2020, o filme acompanha a mudança no tecido social da cidade do Porto. Demolições, expulsões e realojamentos que afectam a comunidade cigana do Bacelo, a população do Bairro do Aleixo e os vendedores da Feira da Vandoma.

Date published: 25 de October de 2021

Country: Portugal

Duration: 62'

Director(s): Tiago Afonso

Genre: Documentário

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  • Maggie Silva - 85
85

Conclusão

“Distopia” é acima de tudo um pedaço vivo de cinema de resistência que, de forma inteligente, soube dar tempo ao tempo, de forma a narrar a sua história urgente da forma mais completa possível.

Pros

  • A intenção honrosa e intervencionista do realizador;
  • A capacidade de contenção, que ditou que numa hora fosse exposto, de forma regrada, o material filmado ao longo de mais de uma década e em múltiplas  circunstâncias;
  • A tentativa nítida de tentar alcançar a tão impossível objetividade no cinema documental;

Cons

  • Beneficiaria de uns 20 minutos adicionais de conteúdo, por muita auto-contenção positiva que se tenha demonstrado;
  • Muitas são as intenções de cinema de intervenção aqui, mas falta quiçá um pouco de poética visual;
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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