©Cinema São Jorge/ Doclisboa

Doclisboa ’22 | Cinephilia Now: Part II

Em 2022, a secção riscos do Doclisboa apresenta a trilogia “Cinephilia Now”, uma longa viagem cinematográfica que ilustra na perfeição como o cinema pode ser encontrado em qualquer parte. Examinamos agora “Cinephilia Now: Part II”, que contou com exibição única a 8 de outubro, na sala 3 do Cinema São Jorge. 

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“Cinephilia Now: Part II” teve estreia internacional exclusiva no Doclisboa, tendo sido esta a primeiríssima exibição em sala da trilogia completa fora do Japão, o seu país de origem. “Cinephilia Now: Part II – Fellowship to Cast the Ring“, inserido na secção “Riscos” do festival, alude aos esforços coletivos não apenas necessários para a exibição de cinema mas também (naturalmente) para a criação da própria arte cinematográfica.

Nesta segunda parte, que soma mais 104 minutos ao tempo total do documentário, o realizador e investigador Sasaki Yusuke amplia o campo de visão da sua obra e coloca perguntas mais vastas. Na primeira parte de “Cinephilia Now”, havia focado os seus esforços de entrevistas e cobertura essencialmente nas salas de cinema oficiais e não oficiais que permitem aos habitantes de Tottori, a Prefeitura menos populosa do Japão, desfrutar da arte cinematográfica.

Agora, Yusuke procurou conhecer aqueles que em Tottori dão corpo à 7ª arte. Desta forma, encontrou-se com vários cineastas e documentaristas independentes. À medida que comunica com estes vários indivíduos, o realizador vai também questionando a sua própria relação com o cinema, a sua cinéfilia e o seu instinto criador.

E se na primeira parte desta série o conceito de ‘exibição cinematográfica‘ fora explorado de forma bastante ampla, centrando-se acima de tudo nas relações entre membros de uma comunidade e a forma como estes interagem com um objecto fílmico, também aqui a criação de cinema será interpretada de forma bastante lata.

Sasaki Yusuke tem conhecimento de projetos de cineclube locais, universitários, explora também coletivos artísticos que desenvolvem várias expressões de audiovisual. Fala com alunos, com professores, com cineastas e com organizadores de eventos de cinema e de artes. Dialoga com arquivistas que procuram conservar a memória individual de pessoas anónimas através do restauro de filmes pessoais e amadores antigos, gravados em 8mm.

Acima de tudo, o que extraímos das longas conversações presentes em “Cinephilia Now: Part II – Fellowship to Cast the Ring” é uma vontade genuína não só de partilhar a paixão pelo cinema, como preservar e cultivar tudo aquilo que possa ser definido como cinema. Este conceito acaba por se tornar bastante livre, incluíndo o registo de memórias pessoais para a posteridade e ultrapassando assim grandemente os limites por vezes impostos pelo cinema narrativo de ficção.

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Para os intervenientes desta obra, o cinema está em todo o lado. Tendo em conta o ar algo austero de Tottori, banal e pouco movimentado, é muito interessante testemunhar como Sasaki Yusuke consegue extrair aos sujeitos entrevistados tantas observações pertinentes acerca da vida e da arte.

Tal prende-se com a sua imensa paciência para ouvir e para estar (verdadeiramente) presente junto dos seus entrevistados e entrevistadas. Todavia, esta terna presença de documentarista leva-nos também aos aspectos menos positivos de “Cinephilia Now: Part II”, que são exatamente os mesmos que havíamos assinalamos na primeira parte.

O documentário é excessivamente vagaroso e, ao invés de se popular de poderosas imagens do cinema, preenche o nosso olhar apenas com snapshots do quotidiano, à medida que as pessoas entrevistadas pintam um quadro bem mais estimulante através das suas palavras. A única breve exceção é uma curta seção animada, a qual se pauta por muitos estilos de animação. A experimentação está ao rubro neste segmento, a coesão nem tanto.

Um maior trabalho com o arquivo e uma maior capacidade de edição poderiam ter tornado “Cinephilia Now: Part II” numa obra mais rica do ponto de vista visual e narrativo, mas a sua humanidade e pertinência enquanto reflexão sobre a cinéfilia são inegáveis. Por isso, decidimos prosseguir para a terceira parte – também ela apresentada em projeção única no Cinema São Jorge.

TRAILER | CINEPHILIA NOW: PART II – FELLOWSHIP TO CAST THE RING

Cinephilia Now: Part Ⅱ – Fellowship to Cast the Ring, em análise

Movie title: Cinephilia Now: Part Ⅱ – Fellowship to Cast the Ring

Movie description: “Fiz a linha de comboio de San’in e dirigi-me ao centro de Tottori, o foco da segunda parte da série. Durante a viagem, encontrei-me com muitos cineastas e documentaristas independentes. Sem se deixarem perturbar por convenções, procuravam formas de expressão com raízes na comunidade. Ao falar com eles, reflecti sobre onde me encontrava na minha viagem. Por entre a névoa que me rodeava, comecei a ver o meu próximo destino.” Sasaki Yusuke

Date published: 14 de October de 2022

Country: Japão

Duration: 104'

Author: Sasaki Yusuke

Director(s): Sasaki Yusuke

Genre: Documentário

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  • Maggie Silva - 71
71

CONCLUSÃO

“Cinephilia Now: Part Ⅱ – Fellowship to Cast the Ring” continua a procurar a exibição cinematográfica não tradicional e comunitária na prefeitura com menor população do Japão, mas lança-se agora também na busca pelas narrativas pessoais e locais que motivam a criação artística.

Pros

  • Os exercícios criativos que são promovidos por diversos habitantes da Prefeitura de Tottori, e que aqui contribuem para imortalizar pedaços banais de quotidiano e preservar não são a memória coletiva deste local como a individual;
  • Uma sequência animada que, embora oscile em termos de qualidade estética, vem acrescentar alguma diversidade visual a um filme que se torna algo monótono no que diz respeito à escolha de enquadramentos e ângulos de filmagem.

Cons

  • A tal monotonia e encadeamento pouco urgente do tempo de filme. Aqui, uma mão um pouco mais firme na montagem poderia ter beneficiado a obra e quem a vê.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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