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Doclisboa ’22 | Cinephilia Now: Part I, em análise

A 20ª edição do Doclisboa caracteriza-se, como é habitual, por uma grande diversidade de programação. Em 2022, a secção “Riscos” pauta-se por gestos cinematográficos que honram a história do cinema. “Cinephilia Now: Part I” integra-se no âmbito desta programação, respondendo à pergunta “onde ver cinema?”. 

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Cansado da típica questão que atormenta todos os cinéfilos, “o que é cinema?“, as circunstâncias da vida do realizador japonês Sasaki Yusuke levaram-no antes, pela força da necessidade, a questionar “onde ver cinema?“. É esse o ponto de partida para a longuíssima jornada de “Cinephilia Now”, que decorreu na sala 3 do Cinema São Jorge entre os dias 7 (sexta) e 9 de outubro (domingo), numa exibição em três partes de uma obra documental composta por quase seis horas.

Muito vagarosamente, Sasaki Yusuke guia-nos através de uma viagem orientada por e para cinéfilos. “Cinephilia Now” é uma obra documental para lá de exaustiva e que dedica muito tempo a cada um(a) dos(as) seus(as) intervenientes. Não é surpreendente que Yusuke seja investigador e professor universitário. Aliás, foi essa mesma vocação que acabou por contribuir para a edificação de “Cinephilia Now”.

O autor deste filme deixou Tóquio em 2016, depois de por lá viver durante vários anos, mudando-se para a cidade de Tottori, onde foi convidado a lecionar na universidade. A sua paixão, profissional e pessoal, prende-se com o cinema. É, em suma, um verdadeiro cinéfilo. Mas o que é que acontece quando um cinéfilo se muda de uma metrópole como Tóquio para a Prefeitura de Tottori, a área com menos densidade populacional de todo o Japão?

Em Tottori, na cidade “âncora”, a maior da Prefeitura, e em toda a área, só existem três cinemas. Como cineasta e investigador que dedica a vida ao cinema, Sasaki Yusuke parte em busca de resposta à questão:onde está o cinema e onde o podemos vivenciar“?

A primeira parte de três, “Cinephilia Now: Part I”, procura, acima de tudo, os espaços físicos de exibição cinematográfica dentro dos limites cidade de Tottori. Aqui, Yusuke, nas suas próprias palavras, procurou pioneiros do cinema que adoram a 7ª arte e que procuram oportunidades para sua comunidade local a vivenciar.

A beleza de “Cinephilia Now: Part I” é que Sasaki Yusuke encontra uma única sala comercial decrépita na cidade de Tottori, repleta de memórias de outrora, mas localiza espaços de exibição não tradicionais que se multiplicam um pouco por toda a cidade. Depressa compreende que estes espaços são alimentados por uma comunidade curiosa, interessada e por um meio artístico muito mais pleno e rico do que a paisagem de Tottori pudesse fazer crer à primeira vista.

Cinephilia Now: Part I Doc
Nas ruas de Tottori |©Festival Internacional de Roterdão

Isto porque a própria cidade de Tottori tem uma paisagem banal, urbana mas despojada de grande artefacto, parecendo sempre ligeiramente parada no tempo. Todavia, os intervenientes do filme, com inúmeras pessoas entrevistadas no ano de 2019 para esta primeira parte, tornam a cidade mais colorida. Aqui reside o principal trunfo de “Cinephilia Now: Part I”, a sua sobeja humanidade. Ficamos a conhecer, com grande detalhe, a história de todos os exibidores e exibidoras independentes e amadores(as) da cidade de Tottori que, com maior ou menor regularidade, mais ou menos décadas de experiência, se unem pela sua paixão pela arte e exibição cinematográfica.

Sem ser precioso ou excessivamente nostálgico, o filme valoriza bastante a experiência coletiva da sala – ou antes – a partilha de uma exibição coletiva de cinema, numa época em que o consumo de produtos audiovisuais se torna cada vez mais individualizado. Yusuke cria uma imagem ampla da história da exibição cinematográfica em Tottori, mas acima de tudo regista quem contribuiu para essa história. Por isso, este filme sente-se, acima de tudo, como um documento antropológico e histórico.

Do ponto de vista artístico, “Cinephilia Now: Part I”, bem como as duas seguintes partes, enche menos as medidas. Para além do desenvolvimento do documentário ser lento e cíclico, algo que se sente em particular na terceira parte, o que realmente está ausente são as grandes imagens do cinema.

Os entrevistados e as entrevistadas falam de filmes, memórias cinéfilas, memorabilia importante para a construção dos seus imaginários. As suas palavras pintam-nos retratados vivos e repletos de detalhes. Todavia, Yusuke limita-se a percorrer Tottori com a sua câmara, filmando as ruas através de longos tracking shots, à medida que procura avidamente locais de exibição cinematográfica ou pontos geográficos que, em tempos, serviram esse propósito.

Quanto aos muitos intervenientes, ouvimos as suas entrevistas mas raramente vemos as suas faces, deambulando antes pela cidade, sempre à procura de manifestações cinematográficas por entre a mundanidade das ruas de Tottori. Apesar do estilo escolhido pelo realizador ser interessante de início, torna-se cansativo ao final destes primeiros 100 minutos de filme (e sem dúvida monótono depois de concluída a visualização da terceira longa-metragem).

“Cinephilia Now: Part I”, um filme humano sobre a relevância comunitária da arte do cinema, teve estreia mundial no Festival de Roterdão, em 2021 (em formato online devido à pandemia). Com o Doclisboa ’22, exibe pela primeira vez no contexto de sala – algo importantíssimo se considerarmos a sua temática, tão oportuna depois da inesperada era de isolamento social.

TRAILER | CINEPHILIA NOW: PART I – SECRETS WITHIN WALLS NO DOCLISBOA ’22

Cinephilia Now: Part I - Secrets Within Walls, em análise

Movie title: Cinephilia Now: Part I - Secrets Within Walls

Movie description: Na primavera de 2016, deixei Tóquio, onde vivera três anos, e mudei-me para Tottori, depois de aceitar um trabalho na universidade. Na prefeitura, só há três cinemas: na zona oriental, central e ocidental de Tottori. Enquanto cineasta independente, investigador e escritor sobre filmes, isso era um grande problema. Onde está o cinema? Onde o podemos vivenciar? Fui para a rua à procura de ecrãs.

Date published: 12 de October de 2022

Country: Japão

Duration: 103'

Author: Sasaki Yusuke

Director(s): Sasaki Yusuke

Genre: Documentário

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  • Maggie Silva - 71
71

CONCLUSÃO

“Cinephilia Now: Part I – Secrets Within Walls” não deslumbra os sentidos enquanto peça de cinema, mas afirma-se como um documentário relevante acerca das várias formas de experimentar a 7ª arte coletivamente.

Pros

  • A grande humanidade presente na criação de  Sasaki Yusuke, um documentarista generoso e que cede a palavra aos intervenientes que participam no seu filme;
  • O interesse da temática para qualquer cinéfilo ou cinéfila – o que é que acontece quando os equipamentos não existem, mas a vontade persiste? O engenho eleva-se, claro está!

Cons

  • O estilo de filmagens, monótono e desprovido de risco. Em vez de mostrar, uma e outra vez, as mesmas cenas da vida quotidiana de Tottori, porque não exibir clipes dos filmes e momentos da história que vão sendo mencionados pelos entrevistados?
  • Um grave problema de edição, ou de falta de edição, que não é assim tão evidente nestes primeiros 104 minutos de filme, mas que se torna progressivamente mais claro nas seguintes partes deste “Cinephilia Now”.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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