"Chico: Artista Brasileiro" | © Globo Filmes

DocLisboa ’19 | Chico: Artista Brasileiro, em análise

Chico: Artista Brasileiro” é exibido no DocLisboa como gesto de protesto contra um regime brasileiro que procura silenciar aqueles que ousam criticar a ditadura.

Apesar de ter estreado no Brasil em 2015, o documentário “Chico: Artista Brasileiro” chegou às manchetes só este ano. A sua presença mediática deveu-se a um escandaloso ato de censura por parte da Embaixada do Brasil no Uruguai. Acontece que o Festival de Cinema Brasileiro de Montevideo queria exibir a cinebiografia do cantor Chico Buarque de Holanda, mas a Embaixada interveio, ligando ao exibidor a pedir que o filme não fosse exibido. Muito se escreveu sobre o assunto que, no contexto político atual, é um de muitos atos de supressão cultural e artística por parte das autoridades brasileiras nesta nova era com Bolsonaro no poder.

Ver o filme no contexto de tais controvérsias pode ser tanto uma bênção como um problema. Por um lado, a dimensão ativista e subversiva da obra de Chico Buarque é assim salientada e as referências que o documentário faz ao seu poder polémico ganham novo peso. Por outro, este é um exercício biográfico bastante convencional, um filme inofensivo que é mais elegia passiva que propaganda galvanizadora. O facto de “Chico: Artista Brasileiro” ter sido deste modo censurado diz muito mais sobre aqueles que desejam apagar a existência da obra do que diz sobre o projeto cinematográfico em si.

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© Globo Filmes

Não que o filme esteja desprovido de valor. Muito pelo contrário, de facto. Para fãs do artista titular, esta será uma agradável montra para o legado e talento do seu ídolo, contando a história da vida de Chico ao mesmo tempo que nos oferece maravilhosas prestações das suas melhores melodias. Trata-se de um concerto filmado a dançar com uma biografia típica, dando azo a uma sinfonia que não surpreende, mas também não desaponta. Uma clara qualidade do engenho é a presença do próprio cantor em frente à câmara a contar a sua vida para nós.

Nesse sentido, este retrato do artista brasileiro eleva-se acima de outros projetos do realizador Miguel Faria. Há muito humor nas reminiscências de Chico Buarque, há charme e há melancolia também. Veja-se como nos rimos quando os testemunhos do protagonista e Maria Bethânia se encontram num momento em que a cantora se ri de si mesma. Na época, ela não acreditava que um homem pudesse escrever tão bem sobre perspetivas femininas e isso fá-la sorrir em retrospetiva. Também há o humor de uma montagem de censuras arbitrárias e impiedosas que usa o documento textual como fonte de humor histórico.

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As passagens do seu livro “O Irmão Alemão” também são particularmente comoventes, sombreando a homenagem lacrimosa do documentário com a dor da perda e de oportunidades não aproveitadas. Note-se que Faria tem a sabedoria de encerrar o filme com uma destas passagens, efetivamente marcando a obra como uma pintura emocional mais do que como uma factual exposição de estéreis informações e dados triviais.

Com isso dito, as reminiscências do artista e as entrevistas de testemunho, acompanhadas de filmagens de arquivo e muitas fotos antigas, nunca chegam aos calcanhares do concerto cinemático. Pelo menos, assim é em termos formais. Nessas partes, o documentário tende a cair na displicência estética e no tédio. As informações são preciosas e a paixão com que são dadas dá para admirar. Contudo, o filme comete o crime mais comum neste subgénero documental. Referimo-nos ao modo como o projeto se propõe a falar de uma personalidade inovadora sem, por seu lado, se atrever a sair da regra e da mais básica solução artística.

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© Globo Filmes

Nas cenas de concerto, “Chico: Artista Brasileiro” abre as asas e voa, exibe-se em todo o seu esplendor. Tudo começa na escuridão, mas as luzes de cena começam rapidamente a rasgar a penumbra e definir o espaço de atuação. Cores fortes pintam o ecrã e geometria cenográfica compõe um quadro musical que deleita o olho tanto quanto seduz o ouvido. A certa altura, o fundo é mesmo um eco de Mondrian, elevando a música deste artista ao patamar do museu, mas também ao do teatro. Tais momentos dão mesmo vontade de ver Faria a orquestrar todo um espetáculo musical para a câmara ao invés deste híbrido que nem é um concerto perfeito nem uma biografia inspiradora.

Enfim, “Chico: Artista Brasileiro” é um justo e apto retrato de Chico Buarque de Holanda. Pode não ser cinematograficamente tão virtuoso como ele é musicalmente, mas isso seria pedir uma obra-prima e essas são raras. Contentamo-nos com o que aqui temos e com o furor que tem provocado. Curiosamente, para uma obra envolta em tanto discurso politizado, é uma nota de frustração que marca as lembranças do artista sobre a sua persona enquanto ativista e ícone da esquerda brasileira. Quando ele se tornou nesse ícone, passou a receber mais aplausos quando entrava em palco do que quando saía. Um trago agridoce numa odisseia de sucesso e triunfo, um toque de abrasão numa biografia que prefere celebrar e não fazer perguntas difíceis.

Chico: Artista Brasileiro
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Movie title: Chico: Artista Brasileiro

Date published: 18 de October de 2019

Director(s): Miguel Faria Jr.

Genre: Documentário, 2015, 115 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

“Chico: Artista Brasileiro” é uma cinebiografia comum que anda de mãos dadas com uma soberba homenagem musical a Chico Buarque de Holanda. A controvérsia em volta do documentário não se justifica totalmente pelo seu conteúdo, sendo que a sua censura diz mais sobre o regime brasileiro do que diz sobre o comentário político da obra.

O MELHOR: Os muitos números musicais, pintados em cores fortes e vozes eletrizantes. Isso e o encadeamento tragicómico de “Vetado”.

O PIOR: As ações de censura que têm sido levantadas contra o filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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