DocLisboa Eldorado critica

DocLisboa ’18 | Eldorado, em análise

Eldorado” compara a problemática dos refugiados com a crise humanitária que se seguiu à 2ª Guerra Mundial. Este é um dos filmes mais importantes e urgentes da atual edição do DocLisboa.

Em “Eldorado”, o mais recente filme de Markus Imhoof, o realizador passa parte da sua narração a ponderar sobre uma idiossincrasia da sua infância. Quando era pequeno, o cineasta suíço-italiano tinha dificuldade em entender o uso da palavra “eu”. Para ele, “eu” era algo que se referia somente à sua pessoa e era estranho que todos os outros também falassem enquanto “eu”. Tal dilema pode parecer uma dessas absurdezas da infância, mas, no contexto deste documentário sobre crises de refugiados, a incapacidade de reconhecer o individualismo do “eu” em outros que não o próprio torna-se numa ilustração de uma crise de empatia.

Isto pode não ter a aparência de um grande problema humano, mas, ao colidir com tal falta de empatia com uma emergência humanitária, temos a receita perfeita para o desastre, para uma iluminação do lado mais egoísta e monstruoso do ser humano. Afinal, será possível rejeitarmos tão abertamente e de modo tão violento os refugiados que presentemente chegam à Europa se considerarmos cada um deles como vidas individuais e tão preciosas como a nossa? Há quem diga que o problema não é esse, que existem outras causas subjacentes e isso é certo, mas ignorar a nossa incapacidade de olhar para os refugiados como seres humanos é apenas mais uma maneira de espalhar o veneno da ignorância.

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Um argumento profundamente pessoal sobre uma crise internacional.

Muita da primeira metade de “Eldorado” passa-se em navios militares que resgatam refugiados africanos perdidos nas águas do Mediterrâneo. Aí, o cineasta documenta o modo como as autoridades tratam essas pessoas em desespero como gado, estandardizando de tal forma o modo como os tratam que os centros de triagem parecem matadouros industriais e os campos de alojamento ganham a qualidade assustadora de prisões, ou mesmo jardins zoológicos. Isso é o que Imhoof consegue filmar, pois em várias ocasiões os seus esforços são bloqueados. Primeiro são os militares e as outras autoridades que lhe cortam o acesso, depois são os próprios refugiados.

Pelo caminho, contudo, Imhoof lá vai capturando essas imagens a que já muitos de nós estão habituados. Embarcações a rebentar de gente, corpos perdidos nas ondas do mar, porões forrados a humanidade e pessoas que fugiram à miséria a serem postas atrás das grades enquanto seus guardas se elogiam a si mesmos pela sua caridade. Por várias vezes, se fala em paraíso, de como estas pessoas procuram o paraíso e estão dispostas a arriscar a vida para fugirem ao inferno de onde vinham e encontrar a promessa paradisíaca na Europa. Contudo, este continente só lhes tem a oferecer o purgatório.

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O cineasta não se fica pelos navios e campos de acolhimento em modelo de prisão. “Eldorado” salta do país para o qual Imhoof emigrou, Itália, para aquele que o viu nascer, a Suíça. É nesse país que tanto se orgulha do seu isolacionismo que o realizador filma uma família somali a ser apanhada sem passaportes num comboio. Imhoof documenta o processo pelo qual os seus bens são revistados, a venenosa burocracia que decide que os vai deportar de volta para Itália e, num dos momentos mais dolorosos do filme, a angústia de uma menina que começa a atirar com coisas contra a parede quando percebe o fado da sua família.

Não que a Suíça tenha muito para oferecer aos refugiados. Em cidades que acolhem estas pessoas, a comunidade abriga-os em bunkers subterrâneos que mais parecem prisões, bem longe da vista dos cidadãos suíços que não sejam voluntários caridosos. As localidades mais ricas, pagam multas exorbitantes para não terem de acolher ninguém e, em certos casos, o Estado paga a alguns dos refugiados para voltarem ao seu país de origem como acontece com um agricultor senegalês. Numa entrevista com um juiz suíço, Imhoof chega mesmo a filmar o momento em que o oficial da justiça sorri ironicamente e se vangloria do facto de nunca ter decidido a favor de um africano, nem mesmo em casos de indivíduos que tinham sofrido esclavagismo ou sido vítimas de tráfico sexual.

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A Europa não é o paraíso que muitos refugiados procuram. É o purgatório, talvez até o inferno.

Ao longo de toda esta reportagem, Imhoof vai replicando, talvez de modo acidental, o modo como muitas das autoridades veem o fardo dos refugiados. Suas composições refletem a massa de gente e raramente se preocupam com a definição de presenças individuais. De certo modo, isto é uma boa ilustração da dimensão da crise, mas não deixa de tornar a estética do filme num discurso concetual em ativa contradição à tese patente na narração e montagem.  Somente no contexto de entrevista, onde “Eldorado” cai em fórmulas banais do documentário jornalístico, é que essa coletividade é quebrada em favor da especificidade individual

Enfim, este não é um filme com uma estética particularmente inovadora. O que tem é uma estrutura bem arriscada que tende a ser mais incoerente e desastrada que funcional. Falamos do facto que, em nome de dar uma perspetiva unicamente pessoal ao documentário, o realizador emparelha a crise atual dos refugiados com reminiscências da sua infância. Aí, numa Europa arruinada pela guerra, a sua família acolheu uma jovem chamada Giovanna que vinha de Itália. Contudo, a menina refugiada, que se tornou parte da família, acabou por ser vítima da mesma burocracia desumana que ainda se faz sentir agora. Ela foi forçada a voltar para Itália, onde morreu ainda jovem.

Diz-se que a História se repete e assim é, sempre em ciclos imparáveis e a Humanidade, na sua loucura e estupidez, está sempre a cometer os mesmos erros. Em tempos uma refugiada italiana procurou abrigo, agora o governo italiano age contra aqueles que procuram abrigo da fome, do terrorismo, da tirania. Já no fim de “Eldorado”, um apelo à empatia cheio de imperfeições que vibra com urgência e angústia pessoal, Imhoof refere como a marinha italiana mudou de tática desde que ele começou as filmagens. Ao invés de resgatarem os refugiados e tentarem trazê-los a Itália, estão a apanhá-los ainda perto do Líbano, com a ajuda de mercenários e antigos traficantes. As pessoas que eles intercetam acabam muitas vezes nas prisões libanesas. Eles vieram à procura de salvação, mas a Europa recusa-se a lhes conceder isso. Nem lhes dá o purgatório, só mesmo um inferno e a desumanidade.

Eldorado, em análise
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Movie title: Eldorado

Date published: 26 de October de 2018

Director(s): Markus Imhoof

Genre: Documentário, 2018, 90 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO

“Eldorado” é um documentário cheio de imperfeições que compara a crise de refugiados propulsionada pela 2ª Guerra Mundial com a atual problemática dos refugiados vindos de África e do Médio Oriente. Através de uma exploração pessoal em conjunto com pesquisa jornalística feroz, o filme faz um apelo urgente à empatia e aponta o dedo à intolerância e ao egoísmo da Europa da atualidade.

O MELHOR:
A incoerência dos dois filmes colados um no outro. Isto pode parecer uma fragilidade, mas a fricção entre o presente e o passado é de onde muita da complexidade do filme acaba por florescer.

O PIOR: Alguns problemas no discurso concetual subjacente a certos mecanismos estéticos são infelizes. O pior, contudo, será o modo como o cineasta se recusa a explorar mais a fundo questões raciais e étnicas que influenciam muita da reação popular a estes refugiados dos nossos tempos.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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