"Eu Não Sou Pilatus" | © Kussa Productions

DocLisboa ’19 | Eu Não Sou Pilatus, em análise

Para quem pensa que Portugal é um país onde o racismo é escasso e pouco intenso, “Eu Não Sou Pilatus” é um balde de água gelada que vem acordar para a realidade. O filme integra a competição internacional do DocLisboa.

Aqui pela Magazine.HD raramente escrevemos sobre curtas-metragens. Mesmo nas nossas coberturas de festivais, tendemos a privilegiar a discussão sobre longas, até porque é mais fácil encher uma página com pensamentos sobre um filme de hora e meia do que sobre um fragmento de dez minutos. Contudo, de vez em quando, lá se destaca uma obra que merece uma celebração especial. Quer seja pela sua temática ou pelo seu engenho, há curtas que merecem ser levadas à ribalta e ser consideradas em par com esforços mais temporalmente compridos.

“Eu Não Sou Pilatus” mais do que merece algum pensamento crítico, mesmo que só tenha uns parcos 11 minutos. O filme é assinado por Welket Bungué, grande ator luso-guineense que já deve ser uma cara bem conhecida dos cinéfilos que frequentam festivais. Vejam-se, por exemplo, os papéis secundários que ele interpretou em “Joaquim” e “Corpo Elétrico”. Aqui, no entanto, ele nunca mostra a cara ou faz ouvir a sua voz, preferindo conceber a expressão através da montagem e da sonoplastia. Ele transfigura vídeos do Facebook, disseca-os e expõe, faz deles matéria-prima para um retrato lacerante de uma sociedade apodrecida com a pestilência do racismo.

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© Kussa Productions

Mais especificamente, Bungué usou, como base para o seu trabalho, dois vídeos distintos. Um deles revela as agressões policiais no Bairro da Jamaica no Seixal, situação que chamou a atenção dos media para preconceitos endémicos nas autoridades portuguesas, mas depressa foi esquecido em prol de tópicos mais “interessantes” – provavelmente futebol. O outro é uma nojenta narração filmada nos Restauradores, onde se vê um aprisionamento em série de indivíduos pretos e se ouve o comentário de uma supremacista branca que se orgulha de ser lisboeta.

A mera mostra dos dois vídeos já seria uma potente acusação cinematográfica contra a passividade da sociedade nacional para com o racismo português, um crime de associação pela inação. No entanto, Bungué não se fica pelo simples emparelhar dos vídeos ou pela inclusão portentosa de textos refletivos. O realizador, como nós já dissemos, disseca estes pequenos filmes digitais e remonta-os. O que podia ser mais um vídeo de choque que nos passa despercebido num scroll rápido pelas redes sociais, torna-se numa canção hedionda, num loop de loucura.

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Longe de poupar o espectador ao horror das imagens e ideias à vista, o cineasta repete as frases mais marcantes e fá-lo num compasso arrítmico e alterante. Vozes são distorcidas pela velocidade e gritos de terror e indignação são punhais que nos espicaçam na sala de cinema. Se o primeiro vídeo suscita compaixão e vergonha, o segundo é fúria calcinante que faz propagar. Isso e risadas desconfortáveis, pois é difícil por vezes confrontar o veneno que vai na cabeça de muitos, sua hipocrisia e absurdista retórica do ódio.

A narradora racista faz um direto para os seus seguidores do Facebook e até se desculpa com condescendência aos amigos pretos que poderá ter. Segundo ela, não se quer ser racista, mas quando confrontada com a criminalidade de pessoas de ascendência africana não há alternativa senão culpá-los da degradação social. Portugal é dos portugueses e os portugueses são brancos. Estes estrangeiros que se infiltram deviam era ser apanhados e mandados para a terra deles, junto com outros sujeitos não civilizados.

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© Kussa Productions

A certa altura é difícil distinguir as lágrimas de fúria que sai dos olhos e a bílis de asco que sobe pela garganta. Se o grande cinema é aquele que nos consegue suscitar reações violentas, então este “Eu Não Sou Pilatus” é uma obra-prima da mais alta categoria. Tão potente é o feito que agradecemos a sua brevidade. O filme é como uma bala disparada por um mecanismo perfeito, onde todas as partes têm a sua específica função e nada é desperdiçado ou supérfluo. Até os seus ocasionais excessos experimentais se desculpam pois não se estendem além do sustentável. “Eu Não Sou Pilatus” não é cinema agradável e muito menos de fácil consumo. No entanto, trata-se de uma obra importante e, além dessa componente social, é ainda um estupendo exemplo de arte democratizada.

Com inteligência e criatividade, um par de downloads e uma conta de Facebook, pode nascer um manifesto contra o racismo português. “Eu Não Sou Pilatus” grita contra o espectador e tenta sensibilizá-lo, mas também tem a benesse de um confronto com a racista que tudo grava. Durante o seu discurso em prol da polícia e da Lisboa antiga sem pretos, a narradora é confrontada por jovens que passam na rua. A nossa fúria é a delas, e seu ultraje é um pequeno raio de esperança de que Portugal pode ser um país belissimamente diverso ao invés de um antro de conservadorismo pós-colonialista. Uma salva de palmas para Welket Bungué.

Eu Não Sou Pilatus, em análise
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Movie title: I Am Not Pilatus

Date published: 2019-10-25

Director(s): Welket Bungué

Genre: Documentário, 2019, 11 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

“Eu Não Sou Pilatus” é um murro no estômago de 11 minutos, onde se vê o horror de um Portugal racista que, longe de ser um pesadelo ilusório, é uma realidade crua. É um manifesto anti ódio em forma de filme.

O MELHOR: O trabalho de montagem.

O PIOR: As distorções sonoras são um pouco amadoras, mesmo que admiremos a sua audácia.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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