Westwood: Punk, Icon Activist critica doclisboa

DocLisboa ’18 | Westwood: Punk, Icon, Activist, em análise

Vivienne Westwood é um dos nomes mais importantes na História da moda britânica e agora é o objeto de estudo de um dos filmes em exibição no DocLisboa.

Há um prazer perverso em ver “Westwood: Punk, Icon, Activist” com o conhecimento que Vivienne Westwood, o objeto de estudo deste documentário assinado por Lorna Tucker, detestou o projeto. Na verdade, a lendária designer de moda, acusou o filme de ser medíocre, o mais temível de todos os insultos pois tende a ser arremessado contra criações que não têm a decência de ser boas ou genuinamente terríveis. É uma palavra que vive no limbo e que transmite uma ideia de banalidade insonsa que não podia ser mais diferente da imagem mental que o nome de Vivienne Westwood invoca em qualquer pessoa com um leve conhecimento sobre a moda inglesa do último meio século.

Musselinas rasgadas, máscaras de BDSM, suásticas e cruzes invertidas, o epíteto do punk e o requinte tresloucado de um grand corps setecentista, modelos a desfilarem nuas com chupa-chupas gigantes, uma coroa de retalhos e uma crinolina à mostra. Assim é o universo Westwood, uma maravilha de subversão e audácia, rebeldia comercializada e contradições explosivas. Contudo, neste documentário, nada melhor sintetiza o sol no centro deste cosmos estilístico que uma composição simétrica, uma cenografia de artifício afetado e a figura de uma mulher rabugenta sentada desconfortavelmente numa poltrona forrada a veludo. Ela é Vivienne Westwood, a figura triplamente caracterizada do título, designer lendária e uma pessoa que só vê aborrecimento na reminiscência do passado.

Westwood Punk Icon Activist critica doclisboa
É bastante óbvio que Vivienne Westwood não tem paciência ou interesse em ser entrevistada.

Ela fala repetidamente do seu aborrecimento, tanto no contexto das entrevistas que claramente não quer fazer, como quando se refere ao homem que a trouxe acidentalmente para o mundo da moda. A fricção entre entrevistada aborrecida e entrevistadora frustrada é tão intensa que quase vemos faíscas no ecrã, mas há humor a ser encontrado no antagonismo. Afinal, que outra resposta senão o riso podemos ter face ao desespero da realizadora a tentar falar dos Sex Pistols com a designer que acha que não há nada mais desinteressante para discutir. Enfim, ela ri-se. Talvez Tucker se tenha apercebido que a relutância de Westwood diz muito mais sobre ela do que uma exploração biográfica de cinco horas poderia alguma vez dizer.

Uma coisa é certa, Vivienne está aborrecida em frente à câmara. Aborrecida, frustrada e em irritadiço nervosismo que parece tanto florescer do seu desinteresse em participar na feitura do documentário como numa fobia de estar parada. A designer que tantas vezes fez das passerelles de Paris um palco para o seu entusiasmo ginástico não aguenta estar quieta. Mesmo a nível mental e criativo, a quietude, a imobilidade, parece afirmar-se como o grande inimigo. A certa altura, o fim de uma relação que durava há décadas é justificado com uma alegação de estagnação intelectual. Vivienne está sempre a seguir em frente, a mudar e evoluir, do punk para Watteau, e não aguenta quem a tente parar, quer seja um amante ou uma modelo tornada realizadora.

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Quando Tucker lá consegue convencer a designer a falar do punk, o que nos chega aos ouvidos é o relato anti sentimental de uma tragédia de jovens perdidos na hipocrisia de uma revolução que nunca o foi. Uma tentativa de subverter os valores de uma sociedade burguesa que acabou por ser tornada em comodidade comercial e arma com a qual o establishment podia provar seu suposto liberalismo. Não era um ataque, mas uma distração e, pela sua parte, Vivienne Westwood não parece ter nenhuma noção romântica sobre o movimento, a época ou o seu papel no meio de tudo isso. Como é evidente, podemos acusar a própria designer de ser uma peça chave na engrenagem da comercialização do punk, mas, para ela, tratou-se de mais uma necessidade de se mover e seguir em frente.

Enquanto outros se agarravam às ilusões idealistas da rebeldia punk, mentindo a si mesmos sobre a relevância e efeito do seu protesto, Westwood chegava a Paris e vestia os panteões do capitalismo com a sua moda anarca. Em talk shows britânicos, as audiências podiam rir-se dos seus trabalhos, ela podia estar na banca rota de um dia para o outro, mas se continuasse a seguir em frente tudo estava bem. Foi esse ímpeto que a levou ao sucesso conseguido num modelo empresarial independente, mas que, mesmo assim, a perturba. Afinal, para alguém que necessita de fazer, de trabalhar, cuja metodologia envolve por as mãos na massa e tornar o atelier num laboratório de experimentação, a grandiosidade da marca é quase como uma ameaça existencial, uma paralisia na forma de interesses publicitários.

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Vivienne Westwood é um poço de fascinantes, contradições, um mistério cativante.

Essa ambivalência do sucesso enquanto fonte de infelicidade e inação é uma das muitas ideias com que “Westwood: Punk, Icon, Activist” se debate, mas, pelo final, parece não ter tido tempo ou interesse em desenvolver nenhuma dessas auspiciosas possibilidades. A designer em si não ajudou em nada, mas a realizadora é culpada de subverter a natureza do seu objeto de estudo de um modo que fascina tanto pela sua ousadia como pelo passo em falso que representa. Cada melodia melosa em piano ou aparição de um talking head vulgar ganha a aparência de um ataque direto à designer alérgica à banalidade tipificada por tais mecanismos. Com isso dito, “Westwood: Punk, Icon, Activist” não é medíocre.

As suas falhas são demasiado interessantes para isso e seus rasgos de glória demasiado brilhantes. Como testemunho da obra e trabalho da designer, o filme é pouco mais que uma elegia barata e sem vida, mas como estudo sobre a personalidade no centro de um império acidental, temos aqui um artefacto de valor. É na contradição que se encontra esse dito valor, no modo como Tucker consegue capturar os paradoxos de Westwood, mesmo quando não os explora ou explica. São impressões curiosas e fugazes, talvez até acidentais, mas portadoras de um poder que transcende a figura de uma entrevistada que não quer falar sobre nada relevante e a banalidade de um documentário esteticamente enfadonho.

Falamos da incongruência que vive na imagem de uma t-shirt propositadamente rasgada a ser tratada como o mais delicado dos artefactos históricos por uma curadora do Victoria & Albert Museum. Há algo de absurdo nas luvas brancas em comunhão com o algodão manchado e a desfiar, entre a reverência estudiosa e a provocação juvenil da cruz suástica e versos punks impressos no tecido. Para o seu segundo marido e diretor artístico, Andreas Kronthaler, Westwood parece ser um mistério que o encanta. Face ao que vemos dela, do seu trabalho e lenda neste documentário, é difícil não entender o companheiro da designer. Que maravilhosa contradição é Vivienne Westwood, punk, ícone, ativista, uma t-shirt rasgada nas mãos de uma curadora apaixonada e a sujeita relutante deste filme imperfeito, mas não medíocre.

Westwood: Punk, Icon, Activist, em análise
Westwood: Punk, Icon Activist critica doclisboa

Movie title: Westwood: Punk, Icon, Activist

Date published: 21 de October de 2018

Director(s): Lorna Tucker

Genre: Documentário, 2018, 83 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO

Imperfeito, problemático, mas com interesse, “Westwood: Punk, Icon, Activist” é um retrato limitado e contraditório de Vivienne Westwood que tanto ganha como perde pelo desinteresse antagónico que a designer tem pelo projeto cinematográfico.

O MELHOR: As contradições de Westwood e o modo, quase acidental, como o documentário as ilustra e ilumina. Veja-se, por exemplo, a sua condecoração com o OBE e subsequente título de dama e sua coexistência com a rebeldia política da designer.

O PIOR: A banda-sonora insultuosamente banal e o modo como o filme tanto negligencia a faceta ativista de Vivienne Westwood.

CA

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