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LEFFEST ’18 | Dovlatov, em análise

Dovlatov” é um docudrama biográfico russo que esteve em competição na Berlinale e agora chega a Portugal como parte da programação do Lisbon & Sintra Film Festival.

Leningrado em novembro de 1971 é um mundo de olhos traiçoeiros, ouvidos atentos, sussurros que se perdem no burburinho e figuras anónimas que se perdem no nevoeiro. A névoa é constante, cobre edifícios imponentes e apaga o rumo daqueles que pelas ruas cinzentas caminham. O espaço urbano é tornado abstração indefinida e tudo é esbatido e abafado, como um segredo passado por alguém que tem medo de ser ouvido pelas autoridades.”Dovlatov”, o mais recente filme de Aleksey German Jr., não só incorpora essa névoa nos seus requintados visuais como também a evidencia em todos os seus elementos, desde a estrutura do texto até às prestações do elenco.

Putativamente, o filme representa uma tentativa de documentar seis dias na vida de Sergei Dovlatov, o homem que se viria tornar num dos escritores russos mais populares do mundo somente depois da sua morte em 1990. Antes de tais honras póstumas, contudo, Dovlatov era um escritor em constante luta contra um sistema social, político e literário que inibia e reprimia o seu trabalho. Quando o filme o encontra em finais de 1971, ele sustenta-se com trabalho meio jornalístico meio poético para um jornal empresarial que pouca liberdade lhe dá em termos criativos.

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O nevoeiro é constante, tanto a nível visual como metafórico.

Nesta metrópole soviética perdida no tempo, Sergei Dovlatov está longe de estar sozinho, havendo todo um ecossistema de artistas frustrados em eterna espera pelo dia em que os seus trabalhos serão publicados ou expostos publicamente. À medida que a câmara de German se desdobra em plácidas danças serpentinas pelo interior de cafés fumarentos e escritórios frios vamo-nos apercebendo da monumentalidade desta a massa de indivíduos entorpecidos pela espera sem fim. Parece que entrámos numa peça de Becket, não fosse a geral inexistência de diálogos interessantes.

Muito se fala do horror do compromisso artístico e da concessão, de como os interesses comerciais e estatais são castração para a voz criativa, de como a figura do artista é um mártir que se agarra corajosamente à virtude da sua integridade. Maior santidade não há que essa integridade e quem se for vender, é o maior Judas de todos. Ou seja, clichés, clichés e mais clichés que certamente ilustram um panorama de repressão cultural soviética, mas que, ao mesmo tempo, representam uma entediante redundância quando inseridos na amorfia estrutural deste filme desprovido de rumo.

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Tal como a sua câmara German vagueia pelos ambientes requintadamente recriados com base no facto histórico, mas raramente o seu olhar se interessa por algo verdadeiramente revelador. Quando isso acontece, parece que o cineasta está numa pressa para excisar tal imagem do filme, com medo que a sua repentina qualidade pictórica ponha em destaque a geral mediocridade do resto, onde figurinos parecem sempre demasiado imaculados e todo o frame sofre de uma plasticidade inerente a um desinspirado registo digital. Entenda-se que “Dovlatov” é um filme de grande rigor formal e virtuosismo técnico, mas tais mostras de competência cinematográfica em nada implicam um bom discurso estético.

Somente no panorama do som é que o filme consegue lá desencantar alguns laivos de inspiração. Festas das elites intelectuais e eventos industriais rotineiros são autênticas tapeçarias de conversas sobrepostas, mescladas num miasma de vozes dissonantes que está sempre a sugerir realidades fora do campo de visão do espectador. Quando o perigo de conversas serem ouvidas por um informador ambicioso é sempre uma constante na mente de todas as pessoas em cena, tal qualidade sónica é uma estonteante ferramenta de imersão sensorial e materialização dos conceitos subjacentes ao texto.

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Quando o potencial de um filme é derrotado por uma série de más decisões.

Por um lado, há que admirar o modo como German potencialmente sacrifica o interesse visual em prol de uma paisagem sonora feita principal elemento dramatúrgico. Contudo, a mediocridade da sua conceção visual em nada demonstra uma deliberada submissão face ao som. De facto, é precisamente na qualidade polida dos visuais que floresce a sua falta de qualidade e textura. Nunca cremos totalmente neste mundo, pois toda a sua realidade parece demasiado curada pela mão de um diretor artístico incapaz de dar às superfícies o ar de algo vivido. Tal comparação pode ser cruel e injusta, mas face aos filmes profundamente táteis do seu pai, estes esforços de Aleksey German são particularmente dececionantes.

Leitores atentos há de reparar que quase nada foi aqui dito sobre Sergei Dovlatov, a figura que dá nome ao filme e sua suposta raison d’être. A justificação de tal lacuna encontra-se no modo como “Dovlatov” não nos diz nada de relevante sobre o escritor, sendo incapaz de invocar a maravilha da sua escrita e cometendo até o crime de o anonimizar com uma caracterização banal de um artista incompreendido. A prestação amorfa e sonambulística de Milan Maric. É certo que o ator está a dar vida a uma figura alienada e condenado à inação, mas tal dinâmica entre a personagem e seu mundo não tinham necessariamente de ser replicadas entre o intérprete e a audiência que nele busca uma ancora humana dentro desta narrativa.

Com tudo isto dito, é impossível dizer que “Dovlatov” é um filme sem méritos. Além da sua evocativa sonoplastia, o filme também se pode gabar de um punhado de sequências arrebatadoras. Um sonho, por exemplo, faz com que as escolhas visuais coalescem pela primeira vez num gesto cinematográfico que transcende a polidez banal. Por outro lado, um atropelamento fatídico é tornado, por meio de um dos muitos longos takes do filme, num pesadelo de desumanidade coletiva tão mais monstruoso pela total falta de drama e emoção com que é encarado tanto pela câmara como pelas suas testemunhas. “Dovlatov” não desaponta por falta de qualidade, mas sim porque está a rebentar com o potencial para ser muito mais do que, no fim, revela ser.

Dovlatov, em análise
Dovlatov critica leffest

Movie title: Dovlatov

Date published: 20 de November de 2018

Director(s): Aleksey German,

Actor(s): Milan Maric, Danila Kozlovsky, Helena Sujecka, Artur Beschastny, Elena Lyadova, Anton Shagin, Svetlana Khodchenkova, Piotr Gasowski, Eva Gerr, Hanna Sleszynska

Genre: Biografia, Drama, 2018, 126 min

  • Cláudio Alves - 60
  • José Vieira Mendes - 65
63

CONCLUSÃO

“Dovlatov” é um exercício ambicioso rico em rigor formalista e boas intensões. Contudo, a amorfia crónica que parte da conceção visual e infeta tanto texto como performance acaba por consumir o organismo do filme e reduzi-lo à mediocridade que é tão mais medíocre pelas suas sugestões sussurradas de grandeza.

O MELHOR: Uma mentira à volta de “Lolita”, um sonho de ansiedade paternal e a paisagem sonora de uma sociedade paranoica.

O PIOR: A falta de ímpeto dramático ou complexidade psicológica no retrato que o filme se propõe a fazer de Sergei Dovlatov.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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