Ray & Liz critica leffest

LEFFEST ’18 | Ray & Liz, em análise

Ray & Liz” é um exemplo de realismo britânico em modo autobiográfico, onde Richard Billingham exuma a memória do seu passado. O filme está em competição no LEFFEST.

Richard Billingham é um artista britânico cuja carreira e cujo sucesso são indissociáveis da sua exploração de dois grotescos humanos. Um deles é Ray, um alcoólico de classe baixa de figura magra e que, na sua velhice, passa os dias enfiado na cama do seu lúgubre apartamento num complexo social para famílias com poucos recursos. Liz, ex-mulher de Ray, representa o segundo grotesco de Billingham, uma mulher obesa, com os braços cobertos de tatuagens, um cigarro sempre pronto na mão e um puzzle não muito longe para que ela se possa entreter. Nos anos 90, exposições focadas nestas figuras foram acusadas de explorarem de forma gratuita a miséria dos seus sujeitos, de serem exercícios em choque fácil, de demonizarem a pobreza e tantas outras problemáticas.

Contudo, também causaram furor e assinalaram Billingham como um dos grandes cronistas fotográficos de uma classe baixa esquecida ou deliberadamente ignorada pela boa gente da Grã-Bretanha. No meio da controvérsia e admiração que rebentaram e continuam a rebentar em volta do trabalho fotográfico de Billingham, há sempre um fator mitigante que complica muitas das críticas mais agressivas que são arremessadas contra o artista. É que os dois grotescos que tanto protagonizam o seu trabalho mais célebre são os seus pais e o mundo de degredo colorido que eles habitam constitui aquele em que o fotógrafo nasceu, cresceu e aprendeu a olhar o mundo.

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Uma exumação nostálgica ou um exorcismo de traumas infantis?

Tal componente pessoal tende a pintar a possível natureza chocante dos seus esforços fotográficos com uma pátina de contradições pessoais, a doçura de um homem a recordar a inocência da pequenice em precária comunhão com os ressentimentos de um adulto a confrontar a prova do abuso e negligência que moldaram a sua juventude. No contexto desta crítica de cinema, é importante considerarmos assim o trabalho fotográfico de Richard Billingham, pois, na sua primeira longa-metragem, ele dramatizou essas mesmas fotografias dos pais. “Ray & Liz” chegou a começar a sua existência sob a forma de uma curta-metragem que dramatizava o livro de fotografias “Ray’s A Laugh”.

O espectro da curta persiste na obra finalizada, tendo agora a natureza de uma narrativa de encaixe, uma moldura evocativa que nos contextualiza vagamente as reminiscências do passado que compõem a maior parte da fita. De forma muito resumida, “Ray & Liz” começa por nos mostrar a metade masculina do seu casal titular a viver sozinho, envelhecido e dependente de um fornecimento regular de bebidas alcoólicas de dúbia qualidade. Durante estes interlúdios fechados no apartamento esquálido de Ray, o filme vai-se desdobrando em flashbacks prolongados que no fim constituem duas sequências separadas.

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A primeira documenta uma tarde em que Ray e Liz levaram Richard às compras e deixaram o seu irmão mais novo na companhia do tio com deficiências cognitivas. O babysitter incompetente, que tem a alcunha de Lol, é rapidamente manipulado pelo inquilino dos Billingham que o leva a embebedar-se e depois encena um tableau de catastrófica irresponsabilidade. Inevitavelmente, isto acaba com Liz a bater no cunhado com o salto do seu sapato enquanto os filhos olham horrorizados.

Chegado o segundo devaneio pelas ruas tortas da memória, o irmão mais novo de Richard volta a ser negligenciado. Agora ele dorme ao relento e é ignorado pelos pais que nem se apercebem da sua ausência tão preocupados estão com a bebida, com os puzzles, com cigarros reciclados e o ritual de telefonar a conhecidos em busca de alguma esmola. Ambos os flashbacks provêm da juventude do realizador, mas tanto ele como Ray quase não aparecem neles, como que se submetendo à condição de espectros a observar dois dias perfeitamente banais na vida do clã Billingham, primeiro numa casa apertada e depois num apartamento ainda mais infeliz. Acabamos por ficar com a ideia que o que estamos a ver não é uma memória, mas sim um fragmento casual da vida, uma exumação de texturas e emoções reprimidas que não levam a conclusão nenhuma, mas sugerem muito.

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O rigor formal em cena é deveras impressionante.

Talvez por essa espectralidade ou pelos laços afetivos de Billingham para com as suas personagens, “Ray & Liz” é um kitchen sink drama estranhamente desprovido de uma autoridade condenadora atrás das câmaras. Nunca sentimos, enquanto espectadores, que Billingham está aqui a desenterrar segredos da família e a criticar de forma cáustica os ambientes que o viram crescer. O exercício em si é demasiado franco para tais dramas moralistas, sendo quase seco e antidramático no melhor sentido dessa ideia. O que temos aqui é um primo afastado dos teatros de memória filmados por Terence Davies. Só que aqui a Londres do pós-guerra é substituída por Birmingham no tempo de Thatcher e a abstração hipnótica da memória é substituída por especificidade material in extremis.

Billingham e a sua equipa criativa, com especial destaque para o diretor de fotografia Daniel Landin, reconstroem com exatidão as realidades da sua juventude, mas filmam-na num registo estilístico que em nada tem que ver com as fotografias do realizador. Ao invés de emoções relembradas, “Ray & Liz” parece viver de toques e superfícies, da chuva que se acumula na moldura de uma janela aberta, nas moscas que pousam em paredes cobertas com papel descascado, num cigarro precariamente segurado sobre uma colcha áspera. O resultado é uma manta de retalhos feita de impressões sensoriais, que quase conseguem sugerir o cheiro dos ambientes do passado de Billingham.

Esse foco nos sentidos como veículos da lembrança e não na emoção, confere ao filme um certo rigor que tanto distancia o espectador como o convida a encarar o que vê à sua frente com uma cabeça fria e um olho nos padrões sociais e humanos aí revelados. Se formos muito generosos, quase poderíamos posicionar “Ray & Liz” como um dos grandes estudos da cultura britânica atual, ao virar o olhar para um passado não muito distante, onde a vida de um casal caricato já em si provava ser um sintoma de problemas nacionais muito maiores que esta esfera de demência doméstica.

Há algo de sinistro no modo como Liz prefere chorar e destruir uma cassete às escondidas do que admitir que podia estar errada na sua fúria prévia. Há algo de trágico na imagem de um coelho a ser passeado num carrinho de bebé, quando uma criança está desaparecida e ninguém ainda deu por isso. Há algo de estranhamente íntegro e comovente no miasma de raiva, tristeza, nostalgia, remorso e ocasional choque que vive na beleza pictórica que Billingham se atreve a encontrar nos escombros da juventude perdida, a sua e a dos seus pais.

Ray & Liz, em análise
ray & liz critica leffest

Movie title: Ray & Liz

Date published: 20 de November de 2018

Director(s): Richard Billingham,

Actor(s): Ella Smith, Justin Salinger, Patrick Romer, Tony Way, Sam Gittins, Richard Ashton, Michelle Bonnard, James Eeles, James Hinton, Andrew Jefferson-Tierney

Genre: Drama, 2018, 108 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO

“Ray & Liz” é um surpreendente gesto autobiográfico do fotógrafo Richard Billingham. Ilustra a recordação do passado com um olho atento ao detalhe e um coração que se recusa a glorificar ou demonizar os pais negligentes do autor.

O MELHOR: A atenção obsessiva dada a pormenores dos ambientes domésticos.

O PIOR: Alguns momentos mais chocantes têm algo de juvenil. O suprassumo exemplo disto será a instância em que um cão come o vomitado de um homem que bebeu tanto que ficou inconsciente.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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