A realizadora não se esqueceu de agradecer a Joana Santos. ©Festival de San Sebastián/Divulgação

EFA 2026 | “Valor Sentimental”, “Sirât” e Laura Carreira foram os vencedores da noite

A Europa voltou a provar que ainda filma para gente crescida e desta vez fê-lo em grande, em Berlim. De uma família emocionalmente implodida em “Sentimental Value” a um pai a atravessar um fim do mundo em “Sirât” e a uma trabalhadora portuguesa esmagada por um armazém neoliberal em “On Falling”, os EFA 2026 foram tudo menos neutros.

Os EFA 2026 ou Prémios do Cinema Europeu 2026,  mostraram ontem à noite, em Berlim, que o continente continua a apostar num cinema adulto, político e teimosamente humano. E no meio deste mapa emocional e geopolítico, lá estava uma portuguesa, Laura Carreira, a fazer aquilo que muitos políticos não fazem: dizer “não” ao neoliberalismo em directo, num palco europeu.

Pub
EFA 2026
Laura Carreira a agradecer o prémio. ©Foto do streaming EFA 2026

Uma gala-ensaio numa Europa em curto-circuito

A 38.ª edição dos EFA 2026- European Film Awards decorreu este sábado na Haus der Kulturen der Welt, em Berlim, estrategicamente plantada no centro da temporada de prémios, algures entre os Golden Globes e as votações para os Óscares. A mudança de calendário não é um detalhe: a Academia Europeia de Cinema quer deixar de ser nota de rodapé e passar a ser referência clara no mapa anual do cinema. Em vez do clássico mestre de cerimónias com one-liners recicladas, houve curadoria. Mark Cousins transformou a gala num ensaio fílmico ao vivo: excertos de filmes, fragmentos de histórias, vozes, perguntas, silêncios, mais cinefilia do que entretenimento formatado, mais olhar do que fogo-de-artifício. A questão que pairava sobre a noite era simples e difícil ao mesmo tempo: “Porque é que ainda amamos o cinema?” Numa era em que Hollywood acredita que o mundo só se move ao ritmo dos super-heróis e das receitas de bilheteira, a pergunta entra como pequeno acto de rebeldia. Entre prémio e prémio, vieram os recados. Gaza, Irão, medo da erosão democrática, ataques à liberdade de expressão, a responsabilidade de uma cultura europeia que, mesmo cansada, ainda não abdicou da consciência. A noite foi menos “show” e mais assembleia emocional de um continente em tensão permanente, mas que insiste em defender uma ideia de humanismo, pelo menos quando acende o projector.

VÊ TRAILER DE “VALOR SENTIMENTAL”

Pub Ad Banner

“Sentimental Value”: seis prémios e uma família em ruínas

O grande vencedor da noite dos EFA 2026 foi o filme norueguês “Valor Sentimental” (Sentimental Value), de Joachim Trier – candidato óbvio a uma vaga nos Óscares de Melhor Filme Internacional – que saiu de Berlim carregado com seis estatuetas: Filme Europeu, Realização, Argumento (Trier e Eskil Vogt), Atriz (Renate Reinsve), Ator (Stellan Skarsgård) e Música Original (Hania Rani). Trier regressa ao seu território natural: pessoas à beira do colapso, casas cheias de memórias mal arrumadas, silêncio a ocupar mais espaço do que as falas. Gustav Borg (Skarsgård), realizador que há anos deixou de filmar e, já agora, de ser pai, volta a Oslo depois da morte da ex-mulher para enfrentar as duas filhas e a velha casa de família, onde tudo ficou em suspenso: mágoas, ressentimentos, fragilidades. Não há grandes pedidos de desculpa, nem reconciliações de novela. O pai não chega com um monólogo redentor, as filhas não distribuem perdão em modo “terapia de grupo”. A casa, essa, continua a ver e ouvir. O cinema entra como tentativa tardia de remendo: Gustav decide fazer um filme com aquela matéria-prima íntima, como se filmar fosse, ao mesmo tempo, confessar e tentar compreender. Trier recusa a fantasia do “cinema cura tudo”: aqui as imagens iluminam, expõem, mas não apagam. Fica a ideia incómoda de que entender não é o mesmo que reparar, e que a ferida do abandono não é coisa que desapareça nos créditos. Que esta história pequena, contida e emocionalmente exigente tenha levado o principal prémio europeu num ano em que a indústria americana continua agarrada aos universos partilhados, é um sinal claro: o cinema europeu não está interessado em tratar o espectador como adolescente permanente.

VÊ TRAILER DE “SIRÂT”

Pub

“Sirât”: cinco prémios no fim do mundo

Se “Valor Sentimental” dominou o lado emocional e dramático dos EFA 2026, “Sirât”, de Óliver Laxe, tomou conta da vertente sensorial. O filme arrecadou cinco prémios técnicos – Fotografia (Mauro Herce), Montagem (Cristóbal Fernández), Direção de Elenco, Som e Direção de Arte, confirmando aquilo que as imagens já gritavam: estamos perante um objecto feito para ser sentido na pele. Laxe leva-nos para um território onde o mundo parece já ter acabado, mas continua teimosamente em movimento: deserto físico e espiritual, rave techno como banda-sonora do colapso, corpos em transe a atravessar um cenário que é metade peregrinação, metade pesadelo. “Sirât” não está muito preocupado com a narrativa clássica; prefere ser experiência, rito, embate. Há vento, poeira, máquinas à beira da falência, figuras humanas que parecem sobreviventes de algo que nunca chega a ser explicado. Os prémios técnicos fazem todo o sentido: é no som que o filme nos arranca do lugar; é na fotografia que cada plano se transforma num retrato terminal; é na montagem que somos puxados para dentro de um ritual que não controlamos. No meio do entusiasmo, uma frase vinda de uma das equipas técnicas acabou por sintetizar a noite: “vida longa ao cinema valente e livre”. Não há melhor slogan para colar na porta da Academia Europeia de Cinema.

VÊ TRAILER DE “ON FALLING”

Pub

“On Falling”: uma portuguesa contra o neoliberalismo implacável

Entre gigantes, dos EFA 2026 apareceu um filme que chega sem estrondo, mas sai a ecoar: “On Falling”, de Laura Carreira, vencedor do Prémio Discovery – Prix FIPRESCI. É a consagração oficial de uma cineasta que prefere a observação à gritaria, e que transformou um armazém de encomendas num pequeno campo de batalha contemporâneo. O filme acompanha Aurora (Joana Santos), portuguesa emigrada na Escócia, num daqueles trabalhos que parecem ter sido desenhados para testar o limite de resistência do corpo humano: turnos partidos, contratos sempre provisórios, horários definidos por algoritmos e metas de produtividade que tratam pessoas como unidades descartáveis. Nada de dourar a pílula da emigração, nada do “é difícil, mas compensa”: o que vemos é exaustão, isolamento, desgaste silencioso. No discurso de agradecimento, visivelmente emocionada, Laura Carreira falou de “um neoliberalismo cada vez mais implacável” e lembrou que “o espírito humanista terá sempre um papel de resistência”. Agradeceu à equipa, sublinhou a entrega da “incrível atriz Joana Santos” e dedicou o prémio a quem vive com a vida medida em turnos, códigos de barras e mapas de armazém. Não foi só um momento de vitória, foi um recado político com microfone aberto. E é aí que se percebe para que serve este tipo de prémio: não apenas carimbar carreiras em ascensão, mas usar o palco para dizer, black tie e tudo, que este modelo económico está a moer gente real e que o cinema não está disposto a fingir que não repara.

VÊ TRAILER DE “ARCO”

Pub

Documentários, animação e o resto do mundo

No campo do documentário nos EFA 2026, o vencedor foi “Fiume o morte!”, de Igor Bezinović, um mergulho na memória política dos Balcãs e na forma como o século XX continua a projectar sombra sobre o presente. Já na animação, “Arco”, de Ugo Bienvenu, levou a melhor, lembrando que o cinema animado europeu continua mais interessado em perturbar e maravilhar do que em vender bonecos. Houve ainda espaço para o Young Audience Award, entregue a “Siblings”, e para o prémio de curta-metragem, ganho por “City of Poets”, de Sara Rajaei, retrato de uma cidade persa onde os nomes das ruas trocaram poetas por combatentes mortos, um mapa urbano que diz mais sobre censura e violência do que muitos relatórios oficiais. Nos prémios honoríficos, a Academia fez aquilo que a Europa ainda faz como ninguém: reconhecer quem construiu caminho. Liv Ullmann recebeu o Lifetime Achievement Award, misturando memórias de Bergman com um olhar muito lúcido sobre o estado do mundo. Alice Rohrwacher foi distinguida com o European Achievement in World Cinema, enquanto a Komplizen Film (Maren Ade, Jonas Dornbach, Janine Jackowski) levou o Prémio Eurimages Co-Production Award, pelo trabalho contínuo em costurar co-produções europeias com alguma dignidade e muito risco.

VÊ TRAILER DE “FIUME O MORTE”

Pub

Uma noite de recados: Gaza, Irão, Europa

Para quem esperava uma gala dos EFA 2026 neutral e bem-comportada, a resposta foi rápida: escolheram o continente errado. Jafar Panahi (Foi Só Um Acidente”, estava nomeado para Melhor Filme), apareceu por vídeo a lembrar que, quando a verdade é esmagada num sítio, a liberdade começa a sufocar em todos os outros. A equipa de The Voice of Hind Rajab” levou para a passadeira vermelha uma faixa a ligar Berlim a Gaza. E Sara Rajaei, ao receber o prémio de curta com “City of Poets”, confessou que, noutro tempo, teria celebrado. Agora, disse, só conseguia nomear a dor. Entre aplausos e desconforto, aquela pergunta inicial — “porque é que ainda amamos o cinema?” — foi ganhando resposta evidente: amamos porque ainda é uma das poucas artes capazes de juntar beleza e incómodo na mesma sala e, no fim, obrigar-nos a olhar para o que preferíamos evitar.

VÊ TRAILER DA “EUROPEAN AWARD SEASON”

Pub

Então, para que servem afinal os EFA?

Os EFA 2016 e as edições anteriores, servem para lembrar, uma vez por ano, que a Europa ainda faz cinema para adultos, não por desprezo pela infância, mas por respeito pela inteligência de quem está na sala. “Valor Sentimental” mostra uma família a tentar recompor-se sabendo que já pode ser tarde demais. “Sirât” filma um mundo em combustão sem oferecer água engarrafada no final. “On Falling” põe uma portuguesa num armazém escocês e pergunta, sem panfleto, quanto é que custa viver assim. Os EFA não têm a máquina mediática dos Óscares, não garantem bilheteiras astronómicas, não vendem a fantasia de que tudo acaba bem. Fazem outra coisa: marcam, com teimosia saudável, o lugar onde o cinema europeu quer continuar a estar, ali, entre ética, risco formal e política do quotidiano. E este ano, nesse cruzamento, estava também uma realizadora portuguesa com um Prémio Discovery na mão, a falar de neoliberalismo implacável e de espírito humanista resistente. Só isso já chegaria para justificar a noite. O resto foi bónus. Aqui todos os premiados.

JVM

Pub

About The Author


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *