©João Brites

71ª Berlinale | Diogo Costa Amarante com uma ‘Luz de Presença’

O realizador português, regressa à Berlinale Shorts, nesta versão online 2021, com o seu novo filme ’Luz de Presença’, que será apresentado nesta competição a 4 de Março. Já o vimos e o Diogo Costa Amarante falou connosco, sobre esta sua nova candidatura a um Urso de Ouro.

O tempo passa a correr, e agora à velocidade da ‘Luz de Presença’, de uma scooter. Foi em 2016 que Diogo Costa Amarante, ganhou um Urso de Ouro para Melhor Curta Metragem Internacional: ‘Cidade Pequena’, era um filme sobre a tomada de consciência da morte por parte de uma criança, interpretada pelo sobrinho do realizador. Em estreia mundial, Amarante regressa à Berlinale, pela terceira vez, agora com ‘Luz de Presença’, um filme centrado no desgosto amoroso de Gonçalo, um homem que, numa noite chuvosa, sai de casa para entregar uma carta a alguém que o abandonou. Pelo caminho, numa esquina, cruza-se com uma mulher que o avisa para ter atenção à estrada, que o piso está escorregadio. O homem cai da sua mota e assim conhece Diana. O filme combina a ficção com a realidade e personagens que existem como Diana (Neves da Silva) que é uma conhecida figura do boémio Bairro da Fontinha, no Porto. Uma mulher resplandecente e venerada, uma espécie de santa dos  noctívagos do Porto, que aliás já tinha participado em ‘O Verde do Jardim’, um filme antes selecionado para o Curtas de Vila do Conde 2019. Agora em ‘Luz de Presença’, o realizador português faz, com que uma espécie de revisitação ao seu filme anterior, onde além da inconfundível Diana, conta com um elenco constituído por João Castro, Gustavo Sumpta e a importante presença e voz inconfundível de Luís Miguel Cintra. Antes da apresentação em Berlim no dia 4 de março (para a imprensa, em streaming), vi o filme, aqui em Lisboa, conversei virtualmente, com o Diogo Costa Amarante, como mandam as regras.

Luz de Presença
©Heinrich Völkel

1. Porquê este regresso à Diana, a ‘guardiã’ do Bairro da Fontinha?

Tal como no meu filme anterior, ‘Cidade Pequena’, onde filmo o reencontro com o meu sobrinho depois de ter estado muito tempo fora do país, também neste filme, ‘Luz de Presença’, quis reencontrar uma pessoa que conheci acidentalmente quando me instalei no Porto. Neste caso, Diana era uma vizinha, alguém que passava a noite na rua, como uma estátua inglória, e que, como tal, era de facto uma espécie de guardiã daquele bairro pacato do centro do Porto, um dos últimos a resistir à acelerada ‘gentrificação’ a que a cidade, com esta neurose do turismo, de uma maneira geral, foi sujeita. Acho que no fundo, vou usando o cinema para escrever pequenas cartas de amor a sítios, pessoas que admiro, acontecimentos que foram marcando o meu caminho e que me marcaram.

2. Neste ‘Luz de Presença’, além da solidão, das duas personagens, há uma história de uma ruptura amorosa, assente na carta que ele vai entregar quando tem o acidente de moto. Porque resolveste combinar os dois sentimentos: solidão e ruptura? 

Para sublinhar o potencial de transformação que um encontro acidental pode ter. Como  em ‘Todo Cambia’, aquela música belíssima da Mercedes Sosa. Se calhar, a vida é um caos no qual todos nos ‘achamos perdidos’ e, entre roturas e desencontros, nos vamos encontrando. Se a solidão é, geralmente, vista como algo que se liga à tristeza, ela é, também, um motor para a empatia.

Luz de Presença

3. Em ‘Luz de Presença’ há um momento que achei lindíssimo o da ária sacra de Vivaldi, salvo erro, no cabaré. Aparece ali no meio de uma forma surpreendente. O que representa esta cena? Será uma espécie de evocação sacra, à ‘santa dos noctívagos’, dos solitários?

Nessa cena, regresso a uma ideia que, para mim, é central em todo o filme: todos nós, secretamente, cantamos uma mesma música que é ora trágica, ora esperançosa. A Diana canta o sofrimento que leu na carta, o que faz com que se comova com o seu próprio sofrimento, diante de uma audiência que, não percebendo – como ela – uma palavra de latim, sabe perfeitamente do que ela está a falar. E, mais uma vez, voltamos ao tema da empatia… Há uma frase muito bonita no trecho que ela canta e que pode ser lida como uma incitação à revolta contra a tristeza de uma vida diante da morte do amor: “Se o rio morrer, até a lua e o sol ficarão privados de ver a sua própria luz.”

4.  E a presença e a voz off do Luís Miguel Cintra. Como foi trabalhar com o Luís Miguel Cintra?

Foi um encontro muito bonito. O Luís Miguel, a quem nunca perguntei se sabe latim, percebeu imediatamente o filme e a importância que a personagem que interpreta tem na ideia global do filme. Na verdade, acho que, de certo modo, o Luís Miguel interpreta aqui o seu próprio papel. Depois, há uma admiração que se transformou numa amizade.

5. O ponto de partida para o teu filme foi a tua scooter. Ainda conduzes a scooter e a Diana ainda guarda a tua scooter na casa dela?

Infelizmente a mota foi estatelada durante a rodagem. Mas ninguém se aleijou.

Luz de Presença

6. E a tua longa- metragem em que fase está? Foste da ‘Cidade Pequena’, para a Cidade Grande: o Porto…. 

A longa está em preparação. Quando o contexto o permitir, vamos arrancar para essa aventura maior.

7. Mais uma seleção para a Berlinale Shorts. O facto de já teres ganho um Urso de Ouro dá-te algumas expectativas, mesmo nesta edição online, em tempos difíceis?

Esta seleção já é um prémio. Ainda hoje estivemos a gravar uma conversa conjunta entre todos os realizadores. É um privilégio fazer parte desta conversa a vinte filmes. Para mim, é onde está o ouro.

Luz de Presença

Diogo Costa Amarante nasceu em Portugal onde se licenciou em Direito pela Universidade de Coimbra. Estagiou em Lisboa como advogado, mas pelo caminho ganhou uma bolsa Ibermedia para estudar Cinema Documentário e Cinematografia na Escola Superior de Cinema da Catalunha e largou a advocacia. Realizou o seu primeiro filme ‘Jumate/Jumate’ (2008), em Barcelona, que, entre outros galardões, recebeu o prémio de melhor documentário espanhol no Festival Internacional de Cinema Documentário de Madrid 08. Em 2009, realizou o seu segundo filme ‘Em Janeiro, talvez’ (2009), que recebeu igualmente o prémio de melhor documentário espanhol no Documenta Madrid 09. ‘As Rosas Brancas’ (2014), foi o seu filme pré-tese do Master of Fine Arts em realização e produção cinematográfica, que concluiu na New York University /Tisch School of the Arts, como bolseiro Fulbright. Este filme estreou na 64ª Berlinale —Festival Internacional de Cinema de Berlim, como candidato ao Urso de Ouro de Melhor Curta-Metragem Internacional. Circulou por vários festivais internacionais e acabou por ser premiado no Festival Européen du Film Court de Brest/ França. De regresso à Berlinale com ‘Cidade Pequena’, finalmente, ganhou o Urso de Ouro para Melhor Curta-Metragem Internacional em 2016.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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