Lucy Dacus à MHD | “Parte da História não é senão contar histórias”

Lucy Dacus nunca imaginou a sua história na música, mas a verdade é que aconteceu. Quisemos conhecê-la e ao disco que a pôs no mapa do mundo.

“I don’t wanna be funny anymore”, cantava Lucy Dacus, ao som de guitarras propulsivas e uma secção rítmica ribombante, tudo em graves que sublinhavam bem o manifesto de intenções com que a cantautora de Richmond abria o seu primeiro longa-duração, No Burden (2016), editado pela Matador. Impossível não a levar a sério, quando o seu segundo registo é um portento de confiante vulnerabilidade, uma perplexa procura fundada em raízes históricas. Historian será listado como um dos melhores álbuns de 2018 e não só por nós. Aproveitámos a ida de Lucy Dacus ao Vodafone Paredes de Coura para nos sentarmos com ela a fazer-lhe algumas perguntas sobre a história por detrás e por dentro de Historian.

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Encontrando-a tão acolhedora, simples e amigável, não resisti a dar-lhe conta da minha gratidão pela oportunidade de a entrevistar. Era um dos discos da minha preferência e estava contente por poder aprofundar algumas das ideias e reacções que me suscitara. Abriu-se um enorme e genuíno sorriso na cara de Lucy Dacus. Como era bom falar com pessoas que se interessavam, devolveu ela. “Care” foi o termo que usou. Iria reaparecer na entrevista e, se há algum que a descreva sinteticamente, é esse mesmo. Depois de trocar ideias com a fotógrafa sobre o livro que estava a ler e trouxera consigo, nunca mais deixou de olhar para ambas, uma à frente e outra atrás da câmara. Dali a menos de uma hora seria o seu concerto, um dos melhores do Vodafone Paredes de Coura, e a pessoa que ouvíramos no álbum, escutávamos ali e encontraríamos depois era sempre a mesma. Aquela que aqui vêem.

LUCY DACUS | VÍDEO DA ENTREVISTA

MHD – Porquê escolher a música em vez do cinema?

Lucy Dacus – Adorava quando estava a estudar cinema mas, por um lado, era caro ir para a universidade nos E.U. e eu não queria pagar e, por outro, percebi que não o poderia fazer por mim própria. E eu queria fazer tudo. Queria escrever o argumento, queria realizá-lo, queria editá-lo, queria compor a banda sonora, queria construir o cenário, descobrir os lugares de rodagem. A única coisa que não queria era actuar, não gosto mesmo de actuar. E depois percebi que não seria realista. Para além disso, também é preciso muito dinheiro e não gosto mesmo da ideia de bajular um produtor, tentando tirar dinheiro às pessoas para fazer um filme. Fiquei muito desanimada quando percebi que os meus primeiros trabalhos em cinema seriam a participar em filmes que não me interessariam e é-me muito difícil contribuir para coisas que não me interessam. Tento nunca o fazer. Pensava por isso que não ia poder fazer nada com cinema e, por uns tempos, arranjei um trabalho normal num escritório e ia tocando música como sempre tocara, apenas localmente em Richmond, Virgínia. Isso começou a ter uma energia que não esperava. Suponho que nunca me permiti o desejo de ter uma carreira musical porque nunca pensei que seria possível. Nunca poderia ter imaginado isto. Tinha de começar a acontecer antes que eu pudesse pensar que estava a acontecer.

MHD – Referiste Richmond, a tua cidade de origem, e ouvi-te dizer que querias continuar a viver lá. Porquê?

Lucy Dacus – É engraçado perguntares isso. Nestes últimos meses, percebi que nunca conheci mais nada e acho que é por isso que quero permanecer, porque me é familiar. Viajo tanto que não tenho tempo para encontrar uma nova cidade, familiarizar-me com ela e sentir que há um lugar que é a minha casa. Em qualquer outro sítio que não Richmond estou de visita. Richmond não estou a visitar, são as minhas raízes. Mas um dia talvez queira vir a conhecer outra cidade. É uma experiência que nunca tive e consigo sentir aquela curiosidade em mim de saber como é estar num outro sítio.

MHD – Porque é que o álbum se chama Historian e que papel desempenha ele no fazeres sentido da tua vida?

Lucy Dacus – Gosto de me ver como uma historiadora, porque escrevo diários desde os oito anos. Não sei por que o faço, é apenas um impulso. Recentemente, dei-me conta de que quero conter a minha história, quero poder referir-me a ela durante a minha vida e aprender com o meu passado de uma maneira mais concreta. Parte da História não é senão contar histórias e encontrar as palavras certas para capturar um momento. O álbum é sobre os momentos mais intensos da minha vida, os mais sombrios são muitas vezes sobre perda. Estou a contar essas histórias mas tento pôr um pouco de esperança em tudo. Penso que é importante, se se vai falar de material sombrio, mostrar a luz ao final do túnel.

MHD – Em “Pillar of Truth”, entras em diálogo com a tua avó, dando voz ao modo como ela olha e julga a tua família. Partilhas desse juízo ou entras em luta com ele?

Lucy Dacus – Acho que interiorizei o seu juízo e nesse sentido faz parte de mim, mas não olho para a minha família da mesma maneira que ela olha para nós. Acho que ela deve ter olhado para nós como um produto dela, enquanto eu nunca senti que ela era um produto meu. Não tenho filhos, ainda sou a criança na dinâmica da nossa família e por isso não consigo imaginar o que seja ser uma mãe ou avô e ver pessoas e o que se criou. Imagino que vá ser diferente se alguma vez chegar a esse momento da minha vida.

MHD – Em “Next of Kin” dizes “I used to be too deep inside my head/Now I’m too far out of my skin”. O que significa?

Lucy Dacus – Para mim significa que eu costumava ser ansiosa e egocêntrica, preocupada. Se dizes “deep inside your head” não consegues ver realmente o mundo e não estás aberto à felicidade. Muita gente sofre de ansiedade, que é acima de tudo interna. E dizer “I’m now too far out of my skin” é o contrário. Nunca pensas em ti, se estás sempre só a pensar nos outros. Se estás sempre só a absorver a vida, então não estás realmente a reflectir. Por isso, deve haver um equilíbrio entre os dois: não deves estar completamente fora do teu corpo e não deves estar completamente voltado sobre ti.

MHD – A tua performance vocal é muito desapegada, distanciada, mesmo se por vezes há explosões emotivas. É intencional?

Lucy Dacus – Acho que é a única maneira em que sei cantar. Também sou muito má a representar, por isso não consigo ser uma atriz. Tudo o que se vê de mim é precisamente como me estou a sentir. Em certas noites, se é mesmo intenso, é porque é exactamente assim que me sinto. Se não, então talvez me esteja a sentir mais contemplativa. A minha voz é de certo modo sempre igual. Há momentos no álbum em que grito, e ou estou frustrada, ou não totalmente satisfeita, mas de um modo geral acho que é como a minha voz a falar, bastante constante.

MHD – E que tal é fazer parte da família da Matador?

Lucy Dacus – Oh meu Deus, eles são do melhor que há! Adoro a Matador, sempre adorei aquela discográfica, adoro todos os artistas do catálogo. Yo la Tengo são fantásticos, adoro a Cat Power e, mais recentemente, adoro a Julian [Baker] e Car Seat Headrest, Snail Mail… Mas toda a gente que lá trabalha é fantástica. O melhor disto tem sido que respeito a abordagem deles a tudo, sinto que se preocupam genuinamente com a música, confio neles. Descobri que isso é muito raro. Falo com muita gente que não conhece o seu selo pessoalmente ou não sentem que estejam a ouvir. Sinto-me muito escutada e compreendida. Sinto-me afortunada.

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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