Lucy Dacus, Historian | em análise

Historian documenta a tentativa de se sentir confortável com o desconforto de habitar num mundo que nunca se sente bem como seu.

Não falta muito para a jovem americana Lucy Dacus deixar de ser uma ilustre desconhecida entre o público português. A cantora-autora de Richmond, Virginia, com apenas 22 anos e já dois discos editados na lendária Matador, estrear-se-á no nosso país, atuando no Vodafone Paredes de Coura para promover Historian (2018), o seu mais recente longa-duração. Um álbum que revela um amadurecimento, quer do som, quer da pessoa (imaginando que são sequer separáveis) da sua autora, cujo valor já se revelara, dentro de certos círculos, no anterior No Burden (2016).

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Lucy Dacus cresceu numa família onde a música era habitual, com a avó paterna (personagem central na canção “Pillar of Truth”) a dar aulas de piano até morrer, o pai a tocar guitarra como hobby e a mãe a ensinar música numa escola primária. Não tendo nunca sido incentivada a segui-la como carreira, Lucy acabou por ingressar num curso universitário de cinema, procurando exprimir-se artisticamente deste modo e deixando a música para os tempos livres. A certa altura, resolveu parar por um semestre para gravar um disco, com as canções que fora compondo desde o liceu, e viajar pela Europa. Aqui, às perguntas sobre o que fazia, surpreendeu-se a responder “música” e não “cinema”, pelo que decidiu abandonar o curso e seguir como carreira o que gostava realmente de fazer. Uma decisão que, ao início, não deixou os pais muito entusiasmados, mas com a qual acabaram por se reconciliar, até porque a Matador gostou de No Burden e contratou Dacus e a banda para regravarem o disco e ingressarem a sua ilustre fileira.

Lucy Dacus

Se No Burden era um conjunto avulso de canções, compostas isoladamente e ao longo do tempo formativo de Lucy, apenas com a guitarra (que confessa tocar muito intuitivamente) e a sua voz, para comunicar as ideias acerca do mundo que a jovem queria que todos partilhassem, já Historian é um disco coeso, que regista a travessia de algumas experiências dolorosas, como a morte da avó e a rotura de uma relação de cinco anos. A energia punk de canções como “I Don’t Wanna Be Funny Anymore” ainda está presente, mas emerge agora controlada num jogo deliberado de contenção e libertação, tornando-se bem mais ameaçadora na sua aparente tranquilização.

Muita da tensão resulta do contraste entre o conteúdo das letras e da experiência que relatam e o tom documental, distanciado do desempenho vocal.  Este ecoa distintamente sobre um fundo instrumental cuja textura varia entre momentos esparsos, onde cada nota do diálogo entre guitarras e percussão e, por vezes, baixo e piano, reverbera espaçada e delicadamente, e momentos densos, cheios de ritmo e distorção, com linhas melódicas ascendentes a soarem aceleradas e intensas. No centro de toda a viagem, a atravessar o flutuante instrumental, inflexível e plena de auto-domínio, está a voz de contralto de Dacus, que, sem nunca se exaltar e cheia de calor, canta calmamente (como quem já meditou muito sobre os eventos) a sua história. A confiança de quem pode atravessar a dor por estar ancorada numa história que a precede, enraizada num contexto que lhe dá consistência. Não admira que a cantora não queira abandonar a terra natal de Richmond, agora que Historian a catapultou à ribalta internacional.

LUCY DACUS, HISTORIAN | “NIGHT SHIFT”

Sem querer desvalorizar o sofisticado instrumental, diria que este funciona, acima de tudo, para complementar e trazer ao de cima o drama da voz e do conteúdo lírico, muitas vezes expresso em versos únicos e lapidares. Estes revelam o talento poético de Dacus e autorizam-na, juntamente com aquilo por que passou, a assumir o papel de “historian” da sua vida e da vida de todos. E esta é feita de um desconforto que parece permanente. Diz ela em “Next of Kin”, uma das canções centrais de Historian, lamentando-se de que nunca se sentirá completa, nunca saberá tudo: “I used to be too deep inside my head / Now I’m too far out of my skin […] / Satisfied body and a hungry soul”.

LUCY DACUS, HISTORIAN | “ADDICTIONS”

O desconforto é trazido ao de cima por uma relação turbulenta e pouco saudável ou benéfica, a julgar pelo que dela é sugerido nos dois singles lançados até agora, “Night Shift” e “Addictions”. Também pelo acompanhamento da morte da avó e de como esta a enfrentou, apoiada numa fé que sabe já não ser partilhada pela sua descendência. Em “Pillar of Truth”, Lucy oscila entre o próprio ponto de vista e o da avó, num diálogo entre quem vê desaparecer o último pilar de certeza da sua história (mas também do mundo?) e quem vê ficarem desamparados os que ama, sem o sustento do único que poderia ser o senhor da história. Por um lado, Lucy está a ser a “historian” da avó, depois de a ver morrer tranquila, tendo-se assegurado de que estavam bem entregues todos os que estavam à sua responsabilidade, concluída uma vida que só podia ser recebida no Paraíso ao som de hinos e de uma banda de metais. Por outro lado, parece estar a colocar perguntas sobre si mesma e a humanidade de que faz parte, sobre a sua fragilidade de quem não é nem melhor nem pior do que todos os outros, de quem ainda não tem tudo “figured out”.

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Mas o desconforto é, acima de tudo, o de sermos criaturas finitas, possuidoras de uma existência concedida a prazo. É com esta última fonte de permanente inquietude que Lucy diz ter feito as pazes: “I am at peace with my death / I can go back to bed”. Com este dístico, refere-se a uma experiência luminosa que um dia teve e à qual volta sempre que o medo da morte a invade sub-repticiamente, como consolo para si e, já agora, para todos nós, a quem deseja ajudar com a sua história. E porque seríamos cínicos, recusando a ingenuidade de um olhar que, apesar de novo e não sem confusões, alguma coisa vê? Até porque não pode ser totalmente falso o que soa tão singularmente bem.

LUCY DACUS | “PILLAR OF TRUTH” AO VIVO NA CBS

Lucy Dacus, Historian | em análise

Name: Historian

Author: Lucy Dacus

Genre: Indie rock

Date published: 2018-03-02

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81

Um resumo

Lucy Dacus revela em Historian os seus talentos de compositora e poetisa. O andamento moderadamente lento das canções nunca aborrece ou soa arrastado, por causa da tensão subtilmente construída através da sua dinâmica. O tom factual, mas nunca impassível, do desempenho vocal contrasta com a emotividade discreta do instrumental. A textura varia entre momentos esparsos, quase ambientais, e momentos densos, onde o ímpeto rock se faz sentir com toda a força. E, ao som disto, o relato do primeiro confronto significativo com a dor da morte: de uma relação, de alguém estimado, do eu que se foi e já não é mais. Não obstante (ou por causa disso mesmo), a obra resultante é uma afirmação de vida, a projectar meteoricamente a pessoa que Lucy Dacus é hoje e agora.

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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