"Escrever com Fogo" | © FILMIN

Escrever com Fogo, em análise

Escrever com Fogo” de Sushmit Ghosh e Rintu Thomas é uma carta de amor ao jornalismo e às mulheres que se afirmam resilientes contra a sociedade sexista. Este filme indiano surpreendeu o mundo quando conquistou uma nomeação para o Óscar de Melhor Documentário, superando projetos muito mais famosos.

O Khabar Lahariya é o único jornal indiano com uma redação unicamente composta por mulheres. Além disso, essas jornalistas são todas da casta Dalit, párias sociais que, segundo tradição, estariam restritas a trabalho sanitário. De facto, o próprio nome da casta pode ser interpretado como um sinónimo de estatuto impuro, uma presença corrupta equiparável a lixo que polui as ruas. Condenadas à pobreza desde o berço, as mulheres Dalit são vítimas de dupla estigmatização, vivendo numa sociedade que, além de rigidamente estratificada, também é fortemente patriarcal.

Fundada em Uttar Pradesh, o Khabar Lahariya é uma publicação pioneira pela oportunidade que dá às suas jornalistas, abrindo as portas à independência e afirmação feminina. Tudo começou em 2002 e, desde então, a operação cresce em escala e impacto. Tanto assim é que, em 2016, os realizadores Sushmit Ghosh e Rintu Thomas deram início a um projeto cinematográfico em torno dessa revolucionária redação. Adotando um tom de cinema verité, passivamente observacional, as câmaras seguem as jornalistas, tanto no trabalho como na vida privada, suas intersecções.

escrever com fogo critica

A justaposição dessas vertentes é ainda mais vasta e complicada quando consideramos quanto o trabalho da jornalista moderna vive além da página. O Khabar Lahariya continua a ser impresso, mas também expandiu para a presença online, incluindo o Youtube. Os boletins vídeos são, na verdade, uma das formas mais imediatas para as jornalistas sensibilizarem a sua audiência e, em certa medida, reivindicarem o seu direito a ser vistas como mais que a casta. Há uma clara diferença entre existir enquanto voz abstrata na escrita e na forma de locutora em vídeo.

Em algumas das passagens mais curiosas de “Escrever com Fogo,” Thomas e Ghosh parecem reconhecer algum do seu ofício nos esforços das jornalistas. Há um forte sentido de camaradagem entre a câmara e seu sujeito quando as cenas em si definem as mulheres como cineastas noviças. Aprender a trabalhar com o telemóvel em jeito de câmara, como fazer upload, enquadrar o plano e capitalizar no poder da imagem é um processo fascinante e inerentemente cinematográfico. Em certa medida, o filme transfigura-se em meta-cinema em tais momentos.

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Contudo, existe uma clara diferença entre os dois exercícios – o documentário polido e o vídeo-jornalismo improvisado. Os realizadores de “Escrever com Fogo” não o escondem. Sem cair no erro do miserabilismo ou da condescendência, o filme expõe as dificuldades das suas protagonistas. Vemos, por exemplo, como algumas vivem sem eletricidade ou água potável, como as dificuldades em assegurar transporte levam a que tenham de andar enormes distâncias em prol de uma entrevista. Tão pobre é a região, que uma casa-de-banho em casa é privilégio inalcançável para muitos.

Esse último elemento ganha centralidade quando o filme gradualmente se converte na cobertura de uma eleição. Antes disso, existe uma panóplia de assuntos horrendos, mas urgentes. As jornalistas tentam dar voz a mulheres violadas, mineiros que trabalham em condições insalubres, trabalhadores oprimidos ao ponto de temerem pela vida caso abram a boca. A missão de dar a voz aos marginalizados é clara e o empenho destas investigadoras inspira nobreza. No entanto, à medida que a eleição se aproxima, mais a fita se estrutura em seu redor.

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Por um lado, o enfoque específico é clarividente auxílio para um trabalho que ocasionalmente peca pela falta de estrutura. Os episódios soltos perdem regularidade, sacrificados ao altar do ativismo em tempos de voto. A partir daí, a missão mantém-se em espírito, mas a prática altera-se. Mais do que os marginalizados, as jornalistas aparecem-nos como valentes disruptivas, prontas a fazer perguntas que mais ninguém ousa proferir. Numa cena marcante, uma das nossas heroínas exige uma entrevista direta contra um político que vomita slogans, mas nada diz. Noutra ocasião, a repórter é posta à prova face a um fundamentalista religioso de espada em punho.

Só que, essa restruturação leva a uma certa inconsistência, uma perda da comunidade enquanto força motriz da fita. Em suma, “Escrever com Fogo” trata-se de uma história inspiradora que merece ser contada. Não é perfeita, mas funciona para sensibilizar. Além do mais, a fotografia de Ghosh e Karan Thapliyal demonstra uma admirável elegância, encontrando composições notáveis nos mais humildes cenários. O quadro de uma mulher caminhando sozinha à noite ou a épica escala de uma pedreira merecem especial aplauso.

“Escrever com Fogo” está disponível online através da FILMIN. Não percas!

Escrever com Fogo, em análise
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Movie title: Writing with Fire

Date published: 26 de March de 2022

Director(s): Sushmit Ghosh, Rintu Thomas

Genre: Documentário, 2021, 92 min.

  • Cláudio Alves - 72
72

CONCLUSÃO:

Nem todos os documentários inspiradores são exemplos de bom cinema. “Escrever com Fogo” pode não ser especialmente sofisticado na sua construção audiovisual, mas certamente alcança uma meritosa elegância que vai além da história. Este retrato das jornalistas do Khabar Lahariya merece ser visto por todos aqueles que valorizam o jornalismo.

O MELHOR: As protagonistas do filme, essas destemidas jornalistas de Uttar Pradesh.

O PIOR: A estrutura errática e demasiado dependência em informação escrita por cima da imagem. O número crescente de seguidores no Youtube dá-nos bom sentido do tempo a passar, mas o modo como os dados são expostos parece-nos desajeitada, até feia.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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