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Especial | O Cinema às Voltas com o Futuro (5) | Ana Leote

Para além dos profissionais é importante igualmente saber a opinião do público, dos espectadores quanto ao futuro do cinema e como vamos vê-lo na era pós-pandemia. Desta vez a MHD falou com a Ana Leote, estudante e make up artist, espectadora frequente de cinema e séries de televisão de qualidade, para quem os modos de ver, parecem ser mais ou menos irrelevantes.

Ana Leote, tem 28 anos e vive em Lisboa. Estudou na Make:up Artist Escola de Maquilhagem Profissional. Andou na escola Colégio Salesiano – Oficinas de São José e trabalhou como Makeup Artist/Stylist na empresa Bobbi Brown Cosmetics. Actualmente estuda Comunicação Aplicada: Marketing, Publicidade e Relações Públicas em ULHT – Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Como make up artist trabalha regularmente em casamentos, eventos privados bem como fotografia e video. Apesar de ser uma espectadora assídua quer nas salas quer nos dispositivos digitais, nunca trabalhou como make up artist no cinema ou na televisão.

O futuro do cinema
‘Cinema irá sempre existir, a forma como o visualizamos é que irá ser diferente’ | ©Ana Leote

Cinema vs. coronavírus: De certa forma iria acontecer de qualquer maneira. Não porque as pessoas deixaram de gostar de ir ao cinema, mas porque o tempo que têm para o fazer é menor. Com o aparecimento de novas formas de ver cinema em que o botão pausa esta a um click de distância, a pessoa pode sempre retomar onde ficou. Cinema irá sempre existir, a forma como o visualizamos é que irá ser diferente.

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Blockbusters, super-heróis e cinema de arte & ensaio: As grandes produções são bem sucedidas porque existe uma ligação entre as personagens e o espectador que vem da banda desenhada — tal como adaptações de livros como foram o Twillight ou The Hunger Games. Num filme que não haja essa ligação, o espectador ou vai pela curiosidade, ou pelo ator, ou pelo realizador — e mesmo em relação a estes dois últimos já existe uma ligação entre espectador e o filme — mesmo que o argumento seja fraco. 

Cinema ‘infantilizado’ vs. séries de televisão: Não creio que o cinema por ser infantil tenha como consequência a perda do encanto ou da magia. No entanto em relação ao modo de o ver isso sim, contribui para essa perda. Não se compara ver um filme numa grande sala de cinema às escuras vs. no sofá da sala de casa. Até o nível de atenção é diferente. Mas lá está, acho que radica um pouco naquilo que já disse acima: a falta de tempo é um dos maiores factores para a visualização de cinema em pequenos ecrãs: a pessoa não esta condicionada a um espaço e hora, e pode ver quando quiser. O sucesso das séries de televisão vai de encontro ao que mencionei na questão anterior: existe tempo para criar relação com as personagens, existe vontade de querer ver mais, existe a possibilidade de construir e desconstruir personagens.  O espectador pega na série num ato de aborrecimento, mas com o passar do tempo cria uma relação com a mesma. Enquanto que no cinema a relação começa e acaba ali e para mim a grande razão das sequelas e prequelas, é precisamente para manter essa relação do espectador com a história. 

O futuro do cinema
‘As grandes produções são bem sucedidas porque existe uma ligação entre as personagens e o espectador’. | ©Ana Leote

O fim de uma era no cinema: A pandemia marcou o inicio desta nova era, mas não acredito que seja suficiente para acabar com o cinema como o conhecemos. Poderá ser uma boa altura para repensar novas formas de atrair pessoas às salas de forma segura — possivelmente os valores dos bilhetes irão baixar e isso até poderá ser um ponto atractivo. No fundo, quem gosta de cinema vai continuar a ir se forem criadas as condições para o fazer.

A pandemia acelerou a transição para o streaming: Possivelmente para alguns casos, mas não acredito que seja para tudo, até porque ver um filme de ação no ecrã do computador não se compara com a tela da sala de cinema e acredito que isso ainda vale bastante. 

O futuro do cinema
(…) ver um filme de ação no ecrã do computador não se compara com a tela da sala de cinema (…) | ©Ana Leote

Lotações limitadas vs. rentabilidade das salas: A rentabilidade das salas vai ser algo a repensar, pois estas creio já não eram todas rentáveis quando não havia um vírus a circular. Aproveitar que existe um número máximo de pessoas por sala, construir campanhas que façam o espectador voltar mais vezes em vez de uma a cada 3/6 meses, tentar ter sempre a lotação limitada preenchida. Se for preciso abrir mais que uma sala para grandes lançamentos. 

As pessoas regressarão sem receios às salas: Talvez sim, mas ainda é tudo muito incerto, mas creio que sim, mas que não seja para voltarem a sentir aquela sensação de normalidade, eventualmente iremos ter de retomar a vida normal, desde que os cinemas transmitam segurança, acho que até poderá ser algo que nos surpreenda.

O futuro do cinema Ana Leote
‘A pandemia marcou o inicio desta nova era, mas não acredito que seja suficiente para acabar com o cinema como o conhecemos.’ | ©Ana Leote

Cineclubes, salas especializadas, drive in: Todas são boas soluções e será uma forma de se reinventar o cinema. Numa altura em que toda a gente quer sair de casa, o drive in por exemplo é uma excelente ideia.

Operadoras de serviços das plataformas: Sim eventualmente existirá uma empresa que agregue as plataformas todas – será a casa mãe para que o cliente possa ter acesso a todas pagando apenas um valor em vez de x por uma, e x por outra, etc. 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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