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Especial | O Cinema às Voltas com o Futuro (4) | Rogério Sousa

O futuro do cinema nas salas e em streaming através da visão do cineclubista e gestor cultural Rogério Sousa. Membro da direcção do Cineclube da Ilha Terceira, é neste contexto que nos dá a sua ideia do que será o futuro dos filmes nesses resistentes espaços de diálogo, militância cinéfila e criação de públicos.

Rogério Sousa é mestre em Literatura e Cultura Portuguesa pela Universidade dos Açores. Tem um percurso profissional bastante diversificado que iniciou como professor do ensino secundário em 2006. Desde 2014 que é Adjunto da Secretaria Regional de Cultura e Educação do Governo Regional dos Açores. Além de activo cineclubista e membro da Direcção do CineClube da Ilha Terceira, tem trabalhado como gestor e coordenador ao nível do desenvolvimento de negócios de organizações sem fins lucrativos, associações, indústrias culturais e criativas, e ainda em outras áreas como a edição, formação, e organização de eventos. É CEO da www.madeinazores.eu.

Rogério Sousa

Cinema vs. coronavirus: O rumo ‘incerto’ do cinema é inerente à sua actividade. A produção de cinema depende de um conjunto de forças (distribuidoras, produtoras, realizadores, meios de realização, actores, digital/analógico, etc.) que tem feito do cinema uma actividade volátil. Não quer isto dizer, que seja algo negativo. É apenas uma constatação de um facto: o cinema depende da sociedade (tal como a literatura) e quanto mais volátil e pós-moderna é a sociedade, mais volátil e pós-moderno é o cinema. Uma coisa é certa: nunca acabará. Haverá momentos com maior produção cinematográfica, outros com menor, mas todas de acordo com as oscilações sócio-culturais-económico-tecnológicas da própria sociedade. Sinto é que a pandemia forçou a um confinamento que expôs a nu a necessidade de um cinema ‘projectado’ versus um cinema de sala-de-estar. Combatemos o DVD, Bluray, etc., porque acreditamos numa experiência completa que se compõe com a exibição em grande formato e possibilidade de discussão/conversa/troca de impressões. O confinamento e a pandemia cortaram esta possibilidade, fazendo-nos todos dar um ‘passo’ atrás no que diz respeito à evolução constante e segura de criação de novos públicos. Por outro lado, poderá levar a uma ‘saudade’ que fará com que mais espectadores se dirijam às salas de cinema em maior número.

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Blockbuster, super-heróis e cinema de arte & ensaio: Na história do cinema, estas são oscilações naturais. Quem não se lembra da vaga de terror do final dos anos 80, inícios dos anos 90, quando a sociedade se apercebeu que o futuro defendido pelos anos 80 não era assim tão risonho? Tal aconteceu também na música: veja-se que, a seguir à euforia dos anos 80 surgiu a melancolia e descrença do ‘grunge’ e da ascensão do metal ‘negro e depressivo’? Da mesma forma, estamos a viver uma época de busca de heróis e de ‘receitas fáceis’ para este mundo pós-moderno e caótico em que nos encontramos. Mais a mais, os meios digitais estão num patamar de desenvolvimento tão elevado que faz sentido levar ao cinema ‘Avengers’ e Hulk e outros super-heróis que de outra forma não seria possível vê-los no grande ecrã. Para quem nasceu no final dos anos 70, inícios dos anos 80, cresceu com o Capitão América, o Homem-Aranha, o Super-Homem e outros, esta é uma época de ouro no que diz respeito ao ‘visual’ e ‘espectacular’, mas que carece da narrativa. Por outro lado, não nos podemos esquecer que uma grande vaga de bons escritores se mudou do cinema para a televisão (séries, graças às plataformas como a Netflix e outros canais) e isso fez com que o cinema ‘mainstream’ tivesse uma vazia de criatividade.

Cinema ‘infantilizado’ vs. séries de televisão: Não se trata de infantilização. As décadas anteriores que geraram grandes obras cinematográficas tiveram ao seu lado milhares de outras obras menores e de fraca qualidade. O cinema não perdeu o seu encanto nem a sua magia — mas isso para quem conhece a experiência. O que aconteceu foi a mudança para o conforto nos nossos lares por parte de gerações que estavam habituadas a ver cinemas ‘apenas’ nas salas de cinema e que, quando se viram com capacidade de ver os mesmos filmes em casa, deixaram de ir às salas de cinema. No entanto, as gerações mais novas deveriam ter a experiência do cinema em grande formato e da sala de cinema de uma forma mais regular (desde o cinema dito ‘erudito’ ao cinema ‘entretenimento’) para poderem escolher. A verdade é que as gerações mais novas nem chegam bem a escolher: vêem o cinema em dispositivos digitais, vêem séries e não apostam no cinema de grande formato. O sucesso das séries de televisão, penso que tem a ver com a duração (novelas eruditas) e com a tal questão dos escritores que se passaram para as séries. Há séries que é possível acompanhar a evolução das personagens durante 8 temporadas. No que diz respeito à identificação do espectador com o estereótipo da personagem espelhado no ecrã, com as suas oscilações, seus heroísmos e suas dúvidas existenciais, permite uma exploração que o formato de 120 minutos do cinema não permite.

O cinema de arte & ensaio e o streaming: É por enquanto uma grande falha no que diz respeito à oferta das plataformas de cinema/streaming exactamente a falta de cinema experimental e de cinema alternativo. se houvesse maior oferta destas vertentes cinematográficas, pensamos que beneficiariam imenso, uma vez que os utilizadores acabam por consumir “tudo” o que a plataforma oferece… mais cedo ou mais tarde poderiam experimentar (e, quem sabe, gostar) de outras alternativas cinematográficas. 

©CineClube da Ilha Terceira

Festivais de cinema em streaming: Fará sentido sempre sentido uma selecção de cinema subordinada a uma temática. No entanto, o formato de festival morre, com a falta da presença física dos espectadores. Uma coisa é um festival outra é uma semana numa plataforma de streaming dedicada a uma temática de um festival. O CineEco, Fantasporto, Doclisboa, Cine Atlântico (Ilha Terceira) não terão o mesmo efeito sem a presença física. Aliás, a grande força dos festivais é precisamente a oportunidade de fornecer espaços de encontro, debate, de visionamento comunitário de filmes de uma determinada temática, algo que não acontecerá numa plataforma. Mais, os festivais vivem do interesse dos espectadores numa determinada temática ou envolvência, que não se coaduna, com a oferta por parte de uma plataforma de streaming de um conjunto de obras subordinadas a um tema. De facto, há um sentimento de desânimo que nos assombra.

 O fim de uma era do cinema: Trata-se mais de uma ‘pausa’ (irreversível, nalguns casos, infelizmente) mas nunca um fim. no entanto, o coronavírus vai marcar uma nova era de estar numa sala de cinema, ao nível da lotação, higienização, etc., etc. 

A pandemia acelerou uma transição: A pandemia acelerará uma transição de um tipo de cinema para plataformas de streaming que, de outra forma, não aconteceria. 

O futuro do Cinema
O Cine Atlântico uma das iniciativas do Cineclube da Ilha Terceira. | ©José Vieira Mendes

Lotações limitadas vs. receitas: terá de haver uma atenção por parte das distribuidoras e, se calhar, ao preço de 1 fazer duas exibições. Na prática, para as distribuidoras, é a mesma coisa. Para os exibidores é que obriga a abrir a porta duas vezes para o mesmo filme. 

Receio de voltar às salas de cinema: Parece evidente que vai haver receio em relação às salas quer em relação ao resto do mundo. A partir de agora haverá uma maior desconfiança. Cabe aos exibidores garantirem as condições de segurança para que as pessoas não alimentem os seus receios e possam retornar à normalidade possível.  

O futuro da distribuição de cinema: Ainda é cedo, para prever o futuro. Mas que obrigará a uma alteração de modus operandi e de distribuição de riqueza, isso obrigará. Poderão as plataformas continuar a contratualizar com as distribuidoras, evitando essa directa relação? Talvez, se os lucros forem diferentes. Quando a música digital ameaçou o mercado dos CD, os artistas tiveram de actuar mais vezes ao vivo. Se calhar, realizadores, actores, agentes cinematográficos terão de ser convocados também para esta batalha. 

O futuro do cinema
A sala de cinema do Recreio dos Artistas em Angra do Heroísmo. | ©José Vieira Mendes

Cineclubes, salas especializadas e drive in: No que concerne aos cineclubes, parece-nos uma evolução natural. Relativamente aos drive-in, é uma solução anacrónica e temporária.

Operadores de serviços de plataformas: Parece inevitável. O segredo será não haver completa exclusividade dos filmes para que não fiquem ‘agarrados’ só a uma plataforma e, como tal, impossibilitados de serem vistos por outros subscritores de outras plataformas. 

As filmagens estão paradas: pensamos que, nesta altura, é preciso que a curva coronavírus estabilize. até lá, haverá sempre uma certa dificuldade quer de financiamento quer de realização. por outro lado, alterar o cinema para acomodar as restrições não deverá ser uma norma, de forma alguma. é certo que se poderá fazer cinema com todos os constrangimentos que actualmente existem. mas olhar para isto como a solução é o mesmo que olhar para a ironia e os subterfúgios literários que os escritores utilizavam para fugir à censura. aguça parte do engenho, uma pequena parte, mas amputa a criatividade de uma forma irreversível e claramente indesejável.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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