"A Way Home" | © FEST

FEST ’21 | A Way Home, em análise

A Way Home”, também conhecido como “Dans La Maison”, é a primeira longa-metragem de Karima Saïdi. A obra está em competição pelo Lince de Ouro no FEST 2021. Trata-se de um de três documentários em concurso.

Há filmes que, por uma variedade de razões, são difíceis, senão impossíveis, de classificar ou categorizar. “A Way Home” de Karima Saïdi é um desses trabalhos, mesmo que a premissa inicial e toda a estrutura sejam de fácil descrição. Como muitos outros cineastas, a realizadora belga de origem marroquina decidiu usar a Arte para explorar os traumas pessoais. Neste caso, o filme foca-se na relação fraturada e fraturante entre Saïdi e sua mãe que, quando a obra foi rodada, começava a perder-se nas profundezas do Alzheimer.

Esse ponto é muito importante para explicar as reações antagónicas que “A Way Home” desperta no espetador. É que a realizadora não se interessa pela exploração da figura materna em jeito de compreensão, de empatia, ou homenagem. O filme não é, portanto, uma forma de capturar a lucidez temporária de alguém a perder noção de si mesma. De facto, seria mais apto descrever o documentário como um duelo entre as duas mulheres, um ataque unilateral por parte da filha a sua mãe, onde a câmara se assume como a mais poderosa arma, um bisturi que disseca e expõe.

a way home dans la maison critica fest
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A obra nasceu após anos de separação, quando a artista reencontrou a matriarca, Aïcha, num paradigma onde a mulher mais velha se tentava recompor do abalo da doença. Levando fotografias antigas ao lar de idosos onde a mãe agora vive, Karima Saïdi assim tentou despertar a lembrança e abrir as portas à conversa. O problema é que, ora por incapacidade ou relutância, a principal figura do documentário teima em não enveredar por esses caminhos. Sentimos o picar aguçado de dores antigas, mesmo antes de nos inteirarmos da sua especificidade.

Neste contexto, o olhar mecânico que torna a vida em cinema torna-se num intruso, indesejado por uns e promovido por outros. Considerando o estado fragilizado da senhora envelhecida, sua clara confusão em muitas partes da fita, torna-se custoso não pensar em questões de ética jornalística, cinematográfica e até familiar. Na mesma medida, contudo, a cineasta está a expor-se tanto como expõe a mãe e filme que criou parece funcionar como terapia, uma confissão mútua, ou quiçá um exorcismo necessário para a ultrapassagem do passado. Um diálogo vai-se revelando como um monólogo e não é Aïcha quem tem a palavra.

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Só que “A Way Home” não existe só enquanto objeto de autorreflexão, estando a percorrer o mundo no circuito dos festivais e a receber aclamação pelo caminho. Não querendo cair na acusação mercenária, há algo de amargo na perspetiva que a fita constrói, uma vertente complicada que indica insularidade de propósito ao invés de uma partilha entre artista e espetador. É claro que, caso o documentário fosse cinema sem valor, estas questões éticas nem se levantavam e se deitava logo o edifício abaixo. A questão é que, apesar da sua feitura intrínseca, “A Way Home” é um assombroso objeto cinematográfico.

Como modo de ilustrar a psique corrompida, a memória mal lembrada, Saïdi recorre à justaposição de fotos de arquivo familiar com imagens dos locais descritos em conversas. A câmara percorre a odisseia que Aïcha em tempos fez com os filhos pequenos, de Tânger a Bruxelas, em busca de nova vida e da felicidade elusiva. O espaço sem os protagonistas é um palco despido de atores, um espetáculo de fantasmas, mesmo antes de se falar na perda de um filho, no abandono de um marido e pai. Quando esse pormenor se levanta, então a imagética ganha teor mais lacerante, tornando-se num estudo de vazios obscenos, vácuos que deviam estar preenchidos.

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Transcendendo a banalidade poderosa desse mecanismo, a realizadora recorre ainda a outras soluções. No início, por exemplo, ao invés de filmar a mãe, a câmara apanha os detalhes do quarto habitado, a textura da parede, dos pregos espetados na parede para pendurar molduras desaparecidas. Outra invenção passa pelo uso de fotogramas estáticos que se dissolvem lentamente ao invés de realmente mostrar Aïcha em movimento. Num instante que nos faz estremecer, os olhos da matriarca perdem a cor ao mesmo tempo que a sua voz fala de esquecimentos.

A ilusão ótica reflete a aflição de quem se torna prisioneira do próprio pensamento ao que se acrescenta a agressiva interrogação da filha, a necessidade de encontrar respostas para questões que talvez nunca vão ser resolvidas. Em tempo real, parecemos testemunhar o processo pelo qual uma pessoa some debaixo de um véu de demência. Seja este bom ou mau cinema, arte ética ou amoral, “A Way Home” é daqueles filmes que nos mexem na alma e impregnam a consciência, metastizando novos pesadelos para o espetador.

A Way Home, em análise
a way home dans la maison critica fest

Movie title: Dans La Maison

Date published: 5 de October de 2021

Director(s): Karima Saïdi

Genre: Drama, 2020, 90 min

  • Cláudio Alves - 50
50

CONCLUSÃO:

A avaliação numérica aqui pouco importa, sendo que “A Way Home” desafia a nossa capacidade para classificar. Em termos de impacto emocional, merece pontuação máxima, mas as questões da ética documental deixam-nos inseguros. No fim, fica-se pela nota média e inconclusiva, um ponto final apto para este filme que tanto é sobre inquéritos condenados a jamais serem respondidos.

O MELHOR: Imagens que se sobrepõem, palimpsestos estagnados e monstruosos, dilacerando a integridade de um retrato no mesmo compasso em que ele se esvanece e desvanece. Aqueles olhos sem cor.

O PIOR: A fragilidade de Aïcha e o teor acusatório no trabalho de uma filha que quer descortinar os traumas familiares que lhe definiram a existência. A colisão destes dois impulsos resulta num esforço cinematográfico muito forte e muito inquietante, quase repugnante.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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